Tem apenas 28 anos, é guia de viagens e no currículo conta também com a organização de uma série de eventos destinados a promover a “sua” Gândara, desde tertúlias, passando por uma publicação, até à música. Tiago Cação diz com orgulho que tem um missão: divulgar a Região que “adoptou”.

No dia em que é publicada a edição n.º 247 do jornal AuriNegra (14 de Setembro), Tiago Cação parte como guia para mais uma aventura entre a cidade de Tromso e as ilhas Lofoten, berço da civilização Viking e do povo Sami. De facto, além de viajante é também escritor de viagens, mantendo uma colaboração com a revista Visão.

Dias antes de rumar pela segunda vez em direcção à Noruega com mais oito pessoas, o organizador da viagem descreveu o destino na sua página do Facebook: “É no Norte do Mundo que se esconde um dos trabalhos mais complexos da Natureza: montanhas a perder de vista, braços de água que penetram terra adentro e ilhas múltiplas também elas montanhas. Panóplia de espécies marinhas que abundam. O halibute continua a protagonizar um enredo à Hitchcock. O bacalhau é seco num estendal como quem seca a roupa. À noite, a animação vem do céu, são danças. São os espíritos magnetizados pela concentração da força da terra que nos brindam com um dos melhores espectáculos de dança do mundo”. Os “espíritos” a que Tiago Cação se refere são o efeito produzido pela aurora boreal, um fenómeno natural de extrema beleza apenas visível nos céus nocturnos das regiões polares.

As viagens que prepara meticulosamente uma vez por ano para a Noruega, são apenas um dos projectos que este dinâmico jovem de 28 anos tem vindo a realizar. Entre os que aproveitam para conhecer o território norueguês contam-se amigos do guia ou pessoas que a determinada altura tiveram conhecimento destes passeios.

Tiago Cação nasceu em Pisão, freguesia de Liceia, no concelho de Montemor-o-Velho. A sua ligação à Tocha remonta a 2007, ano em que se tornou gerente do restaurante Mestre Zé, em pleno coração da Gândara, a região por que se apaixonou e na qual tem desenvolvido imensas actividades.

Infelizmente, não há nenhuma estratégia turística para a promoção da Gândara. Não se criou uma identidade, nem uma memória, nem se incentivam os privados a fazê-lo. Há uma ou outra pessoa que luta contra isso, como o Idalécio Cação [escritor]” que é, curiosamente, seu familiar afastado.

Depois de detectado o “problema”, empenhou-se em arranjar uma solução. E aqui o curso de Hotelaria e a frequência numa licenciatura em Marketing (na Universidade de Aveiro) foram úteis para a adopção de uma estratégia a seguir. “Gosto de marketing pessoal, mas quando cheguei à faculdade reparei que o marketing que leccionavam era muito agressivo, muito virado para números. Acho que foi por causa disso que não terminei o curso. O que me interessa são as pessoas. E nós, os gandareses, temos uma característica muito interessante: a mulher gandaresa é a mais forte do Mundo. Foi a mulher gandaresa que transformou todo este território em terreno cultivável. Tal como esta particularidade temos outras muito interessantes que têm de ser divulgadas”. O património natural, os “palheiros” e a designada “casa gandaresa” são as outras das singularidades que destaca.

Ora, por esta altura, o leitor deve estar a perguntar o que Tiago Cação fez para levar a cabo a sua “missão”, uma das primeiras palavras que aplicou em entrevista ao AuriNegra. Primeiro passo: A minha mãe decidiu abrir um restaurante na Tocha e eu achei que o estabelecimento seria um bom ponto de partida para essa estratégia de divulgação. Inicialmente criei as ‘Noites Tertulianas’, convidando personalidades que se destacam em diversas áreas para que, através das suas redes sociais, dessem a conhecer um sítio chamado Gândara”. Carlos Pinto Coelho (jornalista entretanto falecido), José Xavier (cientista), Manuel da Silva Ramos (escritor), Alípio de Freitas (padre português que fundou as ligas camponesas no Brasil e participou na luta armada contra a ditadura militar) foram alguns dos nomes que passaram pelo restaurante Mestre Zé.

Anatomia de um evento

De seguida, em 2011, Tiago Cação deu origem a uma publicação, cujo nome é uma alusão ao clássico da literatura francesa, da autoria de François Rabelais, com o extenso título de “Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua”. Na obra, Pantagruel é retratado como um “bon vivant”, alegre e glutão, destacando-se desde a infância por possuir uma força descomunal, apenas superada pelo apetite. “Uma das características dos gandareses é a sua gastronomia. Temos muitos pratos fartos e pesados. Então, peguei na história de Pantagruel e criei a Revista Pantagruélica Gandaresa”. Uma vez mais, contou com um leque de ilustres convidados para dar “vida” às páginas da publicação. “Convidei uma série de escritores e jornalistas para colaborarem comigo. Para escrever sobre a Gândara, convidei o Rogério Lourenço, um antropólogo genial que caracteriza muito bem a Região”. No entanto, por questões financeiras, a revista só teve duas edições. “Era um projecto pessoal e eu não tive mais apoios para suportar o terceiro número”, explica.

Mas o dinamismo de Tiago Cação não se resume a estas duas iniciativas. Em 2010, um ano antes da Revista Pantagruélica Gandaresa ser dada à estampa, o jovem já tinha dado provas do seu talento natural em organizar eventos, neste caso musicais, através do “Palco Z”. Este projecto “nasceu do meu gosto pela música, mas que por estar a trabalhar e por questões económicas, não me era possível ir assistir a concertos com frêquencia”. “Se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé” é um ditado popular que aqui encaixa como uma luva. Graças à sua extensa lista de contactos, o promotor elaborou um conceito de jantar-concerto no seu restaurante, onde acturaram nomes como JP Simões, Manuel João Vieira, Samuel Úria, Frankie Chavez, Viviane, Noiserv, António Zambujo, Luísa Sobral, Couple Coffee, Elisa Rodrigues e Júlio Resende, Ana Deus e Alexandre Soares, Pinto Ferreira, João Gentil, entre outros. No âmbito da música, é ainda vice-presidente da associação “A música portuguesa a gostar dela própria”.

Falta referir um aspecto, porventura o mais curioso, sobre como Tiago Cação chegou à fala com tanta gente famosa. “Estas pessoas não tinham ligação à Gândara, muito menos a mim. Foi através de um email standard que elaborei e enviei, mudando apenas o nome do destinatário. As pessoas ficaram sensibilizadas com a história que eu contava e decidiram acarinhar a Gândara, tornaram-se admiradores e frequentadores da região”. Fácil, certo? Fica a “lição” para muitos estudantes e profissionais da gestão e do marketing. | LM