Pedro Sebastião nasceu em França, a 29 de Setembro de 1976. Filho de dois professores do ensino Primário (pai natural da Tocha e mãe de Cadima), veio viver para Portugal aos sete anos de idade, concretamente para o concelho de Cantanhede. Licenciou-se em Estudos Portugueses, pela Universidade de Coimbra, e depois de alguns anos no desemprego aventurou-se no estrangeiro. Serviu em bares no Luxemburgo e, entretanto, candidatou-se ao Instituto Camões como leitor de Português. Desde então, já ensinou a língua de Camões na Alemanha e agora encontra-se no Vietname.

Vive no Vietname há dois anos e meio, promovendo a Lusofonia na Universidade Nacional de Hanói. Pedro Sebastião trabalha para o Instituto Camões como leitor de Português, tendo também já leccionado na Alemanha. Gandarês assumido e apaixonado pela música, este jovem professor tem tido uma vida muito preenchida.

Os lagos e arrozais vietnamitas deram lugar ao areal da Praia da Tocha durante duas semanas. É Agosto e Pedro Sebastião regressou a Portugal para umas curtas férias junto da família e amigos. A estância balnear gandaresa é uma espécie de refúgio para o professor que é um “cidadão do Mundo”.

Não foi, porém, na Gândara que Pedro Sebastião nasceu. Veio ao Mundo na localidade de Reims, em França. “Os meus pais são agora professores aposentados do ensino primário. No pós-25 de Abril, quando as fronteiras de Portugal foram abertas, o Ministério da Educação lançou um projecto por forma a colocar professores em toda a Europa, onde houvesse comunidades portuguesas. Como Em França já havia muitos portugueses, eles [os pais] foram para lá leccionar Português, pertencendo a um grupo de pioneiros”. Um ano depois, em 1976, nascia Pedro Sebastião.

Longe de saber que também ele iria ser docente da sua língua materna no estrangeiro, Pedro Sebastião deu os primeiros passos em território francês e por lá ficou até aos sete anos de idade.

Do país da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” guarda agradáveis memórias. “Lembro–me da casa onde vivíamos, do meu bairro, do jardim-escola, da escola onde fiz a primeira classe, dos parques, dos jardins enormes onde íamos ao fim-de-semana fazer piqueniques… Vivíamos na cidade e os meus pais tinham uns amigos com quem costumávamos ir para uma aldeia. Sempre achei as aldeias francesas muito bonitas. São muito organizadas e estão sempre muito limpas”. 

O segundo ano do ensino primário já foi completado em Lemede, freguesia de Cantanhede, para onde os progenitores foram morar quando regressaram definitivamente a Portugal. Concluiu o primeiro Ciclo em Cadima. Segundo o próprio, a sua adaptação a Portugal correu da melhor forma. “Eu adoro Portugal. Não me lembro bem de dizer isto, mas a minha mãe conta que, quando eu era criança, me agarrava à sua saia e perguntava-lhe quando é que vínhamos para Portugal. Já conhecia o País por vir cá todos os Verões, durante as férias lectivas”. 

De facto, o clima do milenar território “à beira-mar plantado” teve grande peso na decisão da família em deixar Reims. “Tive um problema de icterícia, andava muito pálido, doentio, com os olhos encovados. A minha mãe levou-me a um médico em França e ele recomendou que me trouxessem para Portugal”, argumentando que a criança precisava de “sol e de ar puro. Vim para aqui de vez e nunca mais tive nenhum problema. Tenho a sorte de os meus pais terem uma casa aqui na costa [na Praia da Tocha]”.

De Coimbra para o Mundo

Após a conclusão do 2.º e 3.º Ciclos e ensino Secundário em Cantanhede, o jovem prosseguiu estudos em Coimbra. “Desde o 10.º ano [de escolaridade] que pensei em seguir Letras. A minha primeira grande paixão foi a música e continuo a tocar alguns instrumentos. Só que aos 18 anos não tive coragem para levar a cabo esse objectivo. Não sei… Na altura, acho que não tive coragem para falar nisso ao meu pai, penso que ele ia considerar uma asneira eu fazê-lo…”.  

Em 1994 ingressou no curso de Estudos Portugueses, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. “Magnífica” é como caracteriza a experiência na “cidade dos estudantes”. “Foram cinco anos que valeram por dez. Coimbra tem uma vivência académica muito intensa”. Além dos estudos, aplicou o seu entusiasmo ao teatro e à música. “No primeiro ano fiz o curso intensivo de iniciação teatral do C.I.T.A.C. [Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra]”, embora nunca tenha participado em alguma peça.

Com a conclusão da licenciatura chegou, em 1999, o ano do estágio profissional, na Escola Secundária de Pombal. Entrar numa sala de aula como professor foi “engraçado e um bocado complicado. Havia muitos nervos”. Depois de vencido o nervosismo inicial, o docente em início de carreira afirma ter-se sentido como “peixe na água”.

No fim do estágio, Pedro Sebastião esbarrou no mesmo drama que afecta cada vez mais colegas de profissão: o desemprego. “Fiquei cinco anos no desemprego”. Embora sem um contrato de trabalho, não baixou os braços e avançou para outras actividades pontuais, como tradutor, explicador e formador. “Também escrevi roteiros para vídeos institucionais”. “Foram anos difíceis”, recorda.

Corria o ano de 2005 quando o jovem gandarês optou por mudar radicalmente de vida e emigrar. “Decidi ir viajar para a Europa. Conheci umas pessoas de Lemede que estavam no Luxemburgo e, passados uns meses, fui com elas. Estive três semanas em casa delas. Isto porque cheguei ao Luxemburgo a um domingo e no sábado seguinte já estava a trabalhar num bar de um clube de golfe”. No país do designado Benelux ainda trabalhou num pub inglês e, mais tarde, exerceu funções num centro de Línguas.

“Entretanto, lembrei-me de concorrer como leitor ao Instituto Camões. É muito difícil entrar na rede de docência do Instituto e, durante meio ano, tive de fazer uma série de testes”.   

À semelhança de outros países, os postos de leitorado do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua resultam de uma parceria estabelecida entre o Instituto e diversas universidades estrangeiras que queiram ensinar a Língua e a Cultura portuguesas. Nestes casos, o papel principal da instituição portuguesa passa por dar apoio ao estabelecimento de ensino superior, destacando professores que dominem as particularidades do idioma e da História lusitana ou, simplesmente, facultando material didáctico.

“Há mais de 400 postos de leitorado espalhados por todos os Continentes. E acho que a rede está a aumentar. O [Instituto] Camões é incrível e faz um trabalho fantástico. Portugal é um país pequeno que está a passar por uma crise há vários anos e, mesmo assim, eles [os responsáveis pelo Instituto] não deixam de apostar na divulgação da Língua e da Cultura portuguesa”.       

Pouco tempo após a entrada para a rede de docência, e enquanto leccionava no centro de Línguas na cidade do Luxemburgo, o professor foi colocado na Alemanha, concretamente em Trier. “Fica a 54 quilómetros da cidade de Luxemburgo. É a cidade mais antiga da Alemanha, ainda do tempo dos romanos, e é a terra de Karl Marx”. A proximidade entre os locais de trabalho permitiu-lhe acumular as duas funções.

Boa noite, Vietname 

Passaram-se dois anos e, em 2009, a sua entidade patronal considerou que o posto de Trier “já não era uma opção porque só na Alemanha havia 13 leitorados. Mas como gostaram do meu trabalho, fui convidado para ir para o Vietname”. 

Foi por correio electrónico que Pedro Sebastião recebeu o convite para a Ásia. “Ainda tenho esse email guardado”, conta em tom bem humorado. Contudo, na altura que abriu a caixa de correio e viu a mensagem, não reagiu com tão boa disposição. “Eles pediam-me para me decidir rapidamente porque o ano lectivo já tinha começado”. Admite que o pedido o deixou apreensivo, mas “logo naquele momento disse para mim mesmo que ia”.  

Dito e feito. Nos primeiros dias de 2010 aterrou em Hanói, a capital vietnamita. “Cheguei lá às 11 e pouco da noite e tinham mandado duas alunas, das mais velhas, que falavam melhor o Português, para me receber. O aeroporto fica a cerca de quarenta quilómetros de Hanói e quando chegámos à cidade achei aquilo muito estranho. Apesar dos quatro milhões de habitantes, à meia-noite não se passa nada em Hanói, pelo menos na periferia”. 

O primeiro espaço onde ficou alojado situava-se dentro do complexo da Universidade Nacional de Hanói. Tratava-se de um lugar que não se pautava pela salubridade. “Só fiquei um mês e meio nessa residência porque, entretanto, fartei-me daquilo: havia umas ratazanas, umas lagartixas, umas baratas…”.    

Mas se as condições de alojamento não eram as melhores, a simpatia dos vietnamitas encantou-o imediatamente. “No geral, são um povo muito simpático. Os meus alunos são muito alegres, estão sempre a rir”. Quanto às marcas da guerra que opôs o Vietname aos Estados Unidos da América (na segunda metade do século XX), refere que já não são muito visíveis. “Na geração dos meus alunos o fantasma da guerra já não é muito perceptível. Contam histórias do passado, mas como não as viveram não as sentem nem as ressentem. Mesmo nos mais velhos com quem já falei, que passaram por duas guerras, contra os franceses e contra os norte-americanos, não se nota ressentimento nem ódio. Há muitos norte-americanos que continuam a viver lá”.

Se a afabilidade e bondade do povo vietnamita o conquistaram, a gastronomia apaixonou-o. “Adoro a comida vietnamita. A gastronomia é uma das coisas que gosto e que me faz manter lá. É muito saudável, à base de arroz, legumes, não muita carne, marisco e peixe. ‘Phò’ e ‘nem’  são dois pratos que identificam o Vietname. Isso e a comida de rua, nos passeios, não em tascas. As vendedoras ambulantes trazem os tachos e panelas em carrinhos e os clientes sentam–se em bancos de plástico baixos. Comemos um prato que nos deixa cheios  e bebemos um chá gelado por 80 cêntimos”.

A nível sócio-económico, Pedro Sebastião apercebeu-se que o Vietname é um país “pobre, mas onde não há miséria. São poucos os que passam fome. Da Ásia, é o país que está a crescer mais em termos económicos. Há quem diga que se vai tornar numa grande potência económica daqui a 15 ou 20 anos. O Vietname já é o segundo maior exportador de arroz do Mundo e só agora é que a sua agricultura começa a ser mecanizada”.  

No território que o acolhe há dois anos e meio, o regime vigente é o comunismo. “Teoricamente, eles são comunistas, têm como base as teorias de Karl Marx e de Lenine. Na Universidade, até são obrigados a ter as cadeiras de Sociologia e de Política. Na prática, está a tornar-se um país capitalista como outro qualquer. Está-se a vender completamente ao consumo”. 

É longe dos centros comerciais que o leitor de Português diz sentir-se mais à vontade. “Hanói é uma cidade muito bonita, tem muitos lagos e é muito arborizada. Nas épocas festivas, a cidade fica cheia de balões e fazem muitos cortejos”. Uma beleza natural e cultural que vai poder apreciar por, pelo menos, mais três anos, uma vez que o seu contrato de trabalho foi recentemente renovado. Nestes meses que se seguem, vai aproveitar para terminar o mestrado à distância, pela Universidade Aberta.

É certo que o Vietname nunca será apagado da memória do português, tanto pelo afecto que lhe ganhou, como também pelo facto de ter sido lá, bem longe, que encontrou a sua cara-metade. Curiosamente, ou não, também ela leitora de Português, mas oriunda do Brasil.

A música sempre presente 

Pedro Sebastião descobriu a sua paixão pela música aos dez anos, idade em que começou a ter aulas de viola clássica em Cantanhede. Durante a sua passagem pela “cidade do Mondego” aprendeu a tocar bandolim e integrou a secção de Fado da Associação Académica de Coimbra e a Estudantina Universitária de Coimbra, da qual foi ao longo de um ano director artístico. “Dentro da secção de Fado fiz parte do grupo de cordas, um grupo só de cordofones que tocava música tradicional portuguesa. O grupo já tinha existido na década de 80, mas entretanto foi extinto. Depois, meia dúzia de pessoas que tinham gosto pela música tradicional e que sabiam tocar bandolim, cavaquinho, guitarra e bandola com uma certa qualidade, decidiu refundar o grupo. Eu fiz parte desse grupo de pessoas”.

No último ano do curso superior criou um grupo de música folk, baptizado de Folk Quest. “Quando fiquei desempregado comecei outro projecto com uns amigos da Tocha, de música funk”. A guitarra tornou-se na sua fiel companheira e, ainda hoje, no Vietname, participa em espectáculos de música ao vivo em bares. | LM

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