Foi com o nascimento do seu primeiro filho, Santiago, que Miguel Midões decidiu arriscar a criação de um livro infantil, uma espécie de tributo paterno à vida que se preparava para vir ao mundo. “Filigrana e o Consílio dos Gatos” é o resultado, a obra de estreia do jovem profissional da área da comunicação que será editada em Setembro pela Chiado Editora. Na calha está já uma segunda aventura literária, esta para homenagear a chegada do segundo filho.   

Há, indiscutivelmente, muitas formas de viver a aventura da paternidade. Miguel Midões decidiu fazê-lo através de uma outra aventura: a criação de um livro. Mestre em Ciências da Comunicação e actualmente a desempenhar as funções de business developer na PWB – Portuguese and World Business (empresa do Grupo Catarino), sempre teve o “bichinho” da escrita dentro de si, apesar de nunca antes ter ousado enveredar pelo caminho da criação literária. “Acho que o meu gosto pela escrita é, de certa forma, inato. Sempre gostei muito de escrever, mesmo nos tempos de escola, tanto que nunca torci o nariz às composições pedidas pelos professores. O início da vida profissional no jornalismo também se prende com esse gosto pela escrita, apesar de ter acabado por ir parar a uma rádio, em que falava mais do que escrevia”, brinca.

Apesar de, por esses dias, a oralidade ser a sua forma de expressão por excelência, sempre foi na escrita que se sentiu mais à vontade, ainda que num registo mais ligado à vida académica, primeiro, e profissional, num segundo momento. A vertente mais descontraída e recreativa vem um pouco mais tarde: “Esta é a minha primeira experiência, o meu primeiro livro, e surgiu muito por causa do meu primeiro filho, do desejo de criar algo para ele”, explica. Foi em Setembro de 2007, num terminal de aeroporto, que a ideia ganhou forma e as primeiras letras do seu tributo à vida que estava prestes a conhecer o mundo passaram para o papel. Já lá vão quase cinco anos. “Já passou tanto tempo que o livro já vai com dedicatória aos meus dois filhos, pois já nasceu o segundo. Tinha uma escala de quatro horas em Madrid e decidi aproveitar o tempo. A minha mulher, grávida de quatro meses, adormeceu, e eu dei por mim a ver aviões e a pensar que era uma excelente oportunidade para escrever. Estava a pensar no meu filho e na volta que a minha vida ia dar, e decidi criar algo que lhe pudesse ler, quando ele nascesse”.

Depois da espécie de epifania que teve no aeroporto, traçou o esboço de “Filigrana e o Consílio dos Gatos”, a obra de literatura infantil que será apresentada no dia 15 de Setembro próximo, e que será editada pela Chiado Editora. Apesar de o livro ainda não ter chegado às mãos do autor e do seu destinatário primordial, o Santiago já teve oportunidade de conhecer a história da gata Filigrana, contada pelo seu próprio pai. E porque o Santiago ganhou um irmão há pouco menos de um ano, o Ricardo, Miguel Midões já está a preparar o segundo livro, para que não haja desentendimentos futuros entre os irmãos.

De pai para filho

Foi no Luso, concelho da Mealhada, que Miguel Midões cresceu e viveu, até ingressar no ensino superior em Coimbra, onde concluiu a licenciatura em Comunicação Social. “Com sete ou oito anos criei um jornal manuscrito na minha aldeia. Ia falar com as pessoas na rua, recolhia os seus depoimentos, e depois escrevia as notícias. Era uma espécie de revista cor-de-rosa, que depois eu metia por debaixo da porta dos vizinhos. Sempre tive esse interesse por ver o que se passava e meter no papel”. Segue–se uma passagem por Trás-os-Montes, onde trabalhou “durante sete anos. Foi lá que conheci a minha mulher e que nasceram os meus dois filhos. Entretanto ingressei no Grupo Catarino e regressei à terra natal, há coisa de seis meses”. O seu trabalho continua a ser comunicar, ainda que de forma diferente daquela que dominou os seus dias enquanto jornalista. Os textos, mais técnicos e formatados, pedem um escape, e é na criação literária que Miguel Midões tem encontrado esse veículo de evasão.

Porque na escrita ficcionada não há impossíveis, “Filigrana e o Consílio dos Gatos” conta-nos a história “de uma gata vadia que quer subir na vida, que é muito vaidosa e até um pouco snob, e que procura ser mais do que na realidade é”, explica o autor ao nosso Jornal. Filigrana tem uma amiga, uma cadela de raça Labrador, que é, por seu lado, muito simples e humilde, uma espécie de âncora moral da protagonista e sua companheira de peripécias. “Como qualquer princesa de história de encantar, a Filigrana quer encontrar o seu príncipe encantado. Para isso quer conseguir entrar no Consílio dos Gatos, de que fazem parte os mais importantes e distintos e onde se tomam todas as decisões que têm influência na vida da cidade de Simanka. No livro conto as muitas peripécias por que passa a protagonista na tentativa de alcançar esse objectivo”, revela. Mais do que uma simples história de fantasia, Miguel Midões quis deixar a Santiago (e agora também a Ricardo) uma lição valiosa: “Quis transmitir-lhe valores pelos quais eu me pauto na minha vida. A simplicidade e o facto de valermos por aquilo que somos. Cada um é como é, e não vale a pena fazermo-nos passar por outros, pois acabamos por sair beliscados. A lição mais importante é que sejam eles próprios”.

Os vários comentários positivos por parte das pessoas que foram lendo o maniscrito da história de Filigrana foram decisivos para que decidisse avançar com a tentativa de publicar a obra. O que começou por ser uma dádiva de pai para filho, transforma-se, agora, numa obra ao alcance de todos. O livro conta com ilustrações de Rute Bastardo, estreante na criação artística para obras infantis, “que já foi convidada pela editora para criar as ilustrações de uma outra obra, que será editada também pela Chiado”. “Filigrana e o Consílio dos Gatos” será apresentado em Lisboa, na livraria “Les Enfants Terribles”, no dia 15 de Setembro, mas o autor pretende que haja sessões também aqui na Região e em Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, onde viveu.| FC