Idalécio Pessoa Oliveira  nasceu no dia 30 de Junho de 1960, em Ourentã, onde cresceu e viveu uma infância e mocidade felizes, partilhadas com os muitos amigos que foi cultivando ao longo dos anos. A música arrebatou-o enquanto adolescente, tendo sido parte integrante da sua vida até concluir a licenciatura em Engenharia Civil, pela Universidade de Coimbra. Abraça, então, o serviço público, sendo funcionário autárquico há mais de 25 anos. Na dedicação a causas sociais, nomeadamente através do Centro Social Polivalente de Ourentã e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede, encontrou uma forma de atingir a plenitude enquanto ser humano.

Engenheiro civil de formação, leva mais de 25 anos de serviço autárquico, primeiro em Viseu, mais tarde em Cantanhede. Sentiu, com o regresso às origens, a necessidade de se entregar a causas, abraçando, desde logo, o projecto do Centro Social Polivalente da sua terra natal, Ourentã. Há mais de uma década que integra os corpos dirigentes da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede, período em que a instituição centenária cresceu, ganhando um novo quartel e instalações condignas.

Afável e sereno, são os dois adjectivos que nos assaltam quando pensamos em descrever Idalécio Oliveira. Na palavra, no gesto e no olhar, a sua presença parece ter o dom de apaziguar, de trazer acalmia. Sentimo-nos genuinamente bem na sua presença, e isso é factor determinante para que a conversa flua com naturalidade. Queremos conhecer melhor o nosso interlocutor, por isso, começamos pelo princípio: a sua infância, passada numa pequena aldeia do concelho de Cantanhede, em plena década de sessenta. “As minhas origens estão em Ourentã. Sou proveniente de uma família humilde e numerosa, o meu pai tinha nove irmãos, e a minha mãe cinco. Tinha muitos primos, que fizeram da minha infância um período muito vivido, na perspectiva da miudagem que se cruza e das brincadeiras que se criam. Foi, verdadeiramente, uma roda-viva de emoções”, recorda Idalécio Oliveira.

As brincadeiras eram as mesmas de tantas outras pequenas aldeias, em que o contacto com a Natureza e com a terra era aproveitado ao máximo. O convívio era levado para fora de portas, e as tropelias sucediam-se: “Eram brincadeiras do campo, muito ligadas à terra e mesmo à agricultura. Eram, por isso, vivências muito interessantes e enriquecedoras. Apanhar pardais, por exemplo, é algo que não se esquece. Desse tempo, guardo excelentes e gratas recordações e muitos amigos”.

Completou o ensino primário na Escola de Ourentã, seguindo-se o ciclo preparatório em Cantanhede, após a extinção do Colégio Infante de Sagres. Também aí, as brincadeiras e os amigos deixaram marcas: “Jogávamos à bola num olival que por ali havia. Essa é uma das imagens que guardo com nitidez. Por essa altura íamos para a escola de bicicleta ou de autocarro. Antes de ir estudar para Cantanhede, as visitas à Vila eram muito raras. Íamos de vez em quando, acompanhados pelos nossos pais”. Naquele tempo, tudo parecia mais longe, as distâncias eram maiores, por isso as deslocações eram reduzidas ao mínimo indispensável.

No mundo da música

Com 14 anos, ainda estudante em Cantanhede, começou a interessar-se por música, uma paixão que o acompanhou durante algum tempo, pelo menos até dar por terminados os seus anos de estudante. “Fiz parte de bandas que andavam a tocar por aí, a que hoje se dá o nome de grupos de ‘covers’. Tocávamos versões de música popular, mas também de clássicos da época, como os Beatles. A minha ligação à música foi muito forte e muito marcante, e durou até aos 23 ou 24”, revela. Nesse período, teve oportunidade de estabelecer laços fortes com outros elementos ligados aos mesmos projectos, bem como contactar e relacionar-se com figuras e nomes conhecidos do meio artístico e musical, como Lena de Água, Trabalhadores do Comércio ou UHF.

“A música absorveu muito do meu tempo, deu-me a conhecer outras perspectivas e outras formas de estar e de ser, algo de que muito me orgulho. Foi uma grande experiência para mim, uma actividade que encarava quase como um trabalho”. Isto porque quando ingressou na Universidade de Coimbra, em Engenharia Civil, era raro o fim-de-semana em que não tinha ensaios e actuações, o que fazia com que não pudesse usufruir da vida académica como alguns dos seus colegas de curso faziam. “Vinha embora à sexta-feira, no sábado e domingo actuávamos, e na madrugada de segunda-feira regressava a Coimbra. Foi desgastante mas passei por muitas coisas boas. Conheci muita gente, participei num concurso de música moderna com os Xutos & Pontapés, por volta de 1981, tive oportunidade de passar por estúdios e trabalhar com produtores musicais. Foi, realmente, um período muito intenso e gratificante, de que muito me orgulho”.

Hoje, a música ocupa um papel mais secundário na vida de Idalécio Oliveira, mas não deixa de ser o seu hobby preferido e uma das suas paixões. A sua apetência pelas artes levou-o a contactar com outros universos, como o da pintura  e da escultura, através do Círculo de Artes Plásticas que frequentou em Coimbra. “Aventurei–me em pintura, ainda guardo alguns trabalhos desse tempo, mas foi a música que me agarrou”.

Nos anos de passagem pela “Cidade dos Estudantes”, e depois de ter superado o dilema que o fez hesitar entre Arquitectura ou Engenharia Civil, houve uma outra vivência que o marcou: a residência numa república. “Tive a felicidade de fazer cinco anos de curso na República dos Pinguins, uma escola de vida muito interessante. A vida nas repúblicas era muito activa, e eu acabei por ter que gerir muito bem o meu tempo, por causa da música e dos estudos, e também para conseguir manter o equilíbrio entre Coimbra e Cantanhede”. Dos muitos “pinguins” com quem se cruzou, recorda alguns da Região, nomeadamente o actual presidente da Câmara Municipal, João Moura. Alberto Martins, Ministro da Justiça no anterior Governo, e Severo de Melo, foram outros dos repúblicos. “A República foi, de facto, um local privilegiado de encontro e de conhecimento. Foi, também, uma experiência muito marcante na minha vida”.

O corpo é que paga

Com o “canudo” na mão, ruma a Oeiras para cumprir o serviço militar obrigatório, em Artilharia de Costa. Frequentou a Escola de Oficiais mas acabaria por ingressar no serviço público, em 1987, na Autarquia de Viseu, onde esteve três anos. “Foi o período em que estive mais afastado de Ourentã e das minhas raízes. Apesar de ter sido local de passagem, fiz lá fortes amizades, pois no início são muito importantes os colegas que nos ensinam e que nos abrem as portas. Voltei à minha aldeia, a Cantanhede, à família e aos amigos pelas mãos do Dr. Albano Pais de Sousa, na altura presidente da Câmara”. Apesar da (curta) ausência, manteve sempre a ligação à terra e às pessoas, o que fez com que fosse sendo convidado e desafiado para alguns projectos.

No início dos anos noventa, decide aceitar o convite para colaborar na criação do Centro Social Polivalente de Ourentã: “Começámos a trabalhar, a fazer obra, e em 1995 constituímos a IPSS [Instituição Particular de Solidariedade Social]. As motivações são intrínsecas a cada um de nós, mas talvez sentisse esta ligação forte à minha terra, e isso tenha pesado no meu envolvimento. Penso que também poderá ter que ver com as funções que passei a desempenhar na Autarquia de Cantanhede, na área da água e do saneamento. São áreas que estão intimamente relacionadas com o bem-estar das pessoas, em que trabalhamos para aumentar a qualidade de vida das pessoas, e no terreno, diariamente, sentimos as dificuldades. Ao lidar com esta área, descobri esta espécie de ‘vocação’ para o trabalho em prol da comunidade”, explica o engenheiro.

Uma vocação que tem dado frutos, primeiro (e ainda) no Centro Social, mais tarde (e, também, ainda) na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede, a que está ligado desde 2000. “Quando fui convidado para os Bombeiros, a intenção era levar para a frente o projecto do novo quartel, o que demorou seis anos. A obra foi uma luta que vinha de Direcções anteriores, e que nós conseguimos concretizar. Mas tal só foi possível com a ajuda de uma pessoa, à época Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna, o Dr. Luís Pais de Sousa. Ele deu o ‘clique’ ao projecto, pois sem a ajuda do Estado não teríamos conseguido concretizar uma obra orçada em perto de um milhão de euros. Outra pessoa que, para mim, é incontornável quando falamos em bombeiros, é o Comandante Jaime Soares. Ele encarna o espírito do que é ser bombeiro, é um homem que luta por isso com paixão”.

Apesar do desgaste que projectos desse tipo implicam, trabalho que o próprio Idalécio Oliveira assume “sair do corpo”, “a solidariedade é um vício, uma procura”. Esse espírito de missão tem sido posto em prática ao serviço do associativismo, mas também no desempenho das suas funções laborais. “Todos estes 25 anos de serviço, os últimos dos quais passados na Inova [Empresa Municipal de Cantanhede], têm sido de muito trabalho, um trabalho importantíssimo, em prol da comunidade e da sociedade. Temos promovido o crescimento dos índices de qualidade de vida de forma mensurável, e isso é fundamental”. Basta dizer que, em 2013, 95 por cento do Concelho estará coberto em termos de saneamento, quando em 1992, esse número era de apenas 27 por cento.

Ao serviço da população

O Centro Social Polivalente de Ourentã é um projecto muito acarinhado por Idalécio Oliveira, uma iniciativa que melhorou de forma substancial a qualidade de vida das gentes da Freguesia, e também de lugares vizinhos. “Foi um projecto criado de raiz que conta, hoje, com dois edifícios, várias valências e um património muito interessante. Na minha opinião tem feito um trabalho muito digno”. Conta com as valências de Centro de Dia, Serviço de Apoio Domiciliário, Creche e Actividades de Tempos Livres, a que se junta a componente cultural e recreativa, que deu origem a tudo o resto. “Na minha opinião, o passo seguinte deverá ser a criação de um Lar de Idosos. No sentido de continuar a proporcionar um serviço de qualidade às famílias e à população, julgo ser o caminho a trilhar”.

A Escola Primária em que Idalécio Oliveira estudou, depois de devidamente restaurada e ampliada, é, hoje, o edifício principal do Centro, uma obra que enche de orgulho o responsável. “Acredito que a instituição tem tido um percurso correcto e duradouro, com boas perspectivas de futuro”.

Bairrada vs Gândara

Apesar de ser bairradino, como são todos aqueles que nascem em Ourentã, a Gândara merece, também, um cantinho especial. “Sou muito curioso sobre todos os aspectos relacionados com estas terras da Bairrada e da Gândara. Tenho amigos que estudaram estas regiões em profundidade e gosto de ler sobre essa matéria. No fundo porque somos de cá. Ourentã pode ser Bairrada, mas a ligação à Gândara é muito forte, marca-nos para sempre”. Bairradinos ou gandareses, a diferença, para Idalécio Oliveira, está mais no território do que na gente: “As pessoas parecem-me muito próximas, têm hábitos e formas de estar e de ser muito semelhantes”. Já rezava a canção, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa. | FC

Anúncios