A ginástica e a dança têm, por estes dias, uma classe muito especial no concelho de Cantanhede. Sete utentes da Unidade Funcional da Tocha da APPACDM-Coimbra integram o grupo “Different Gym”, que resulta de uma parceria entre esta entidade e a Câmara Municipal de Cantanhede. Um projecto que mais do que ensinar a dançar, quer promover a inclusão.
Beto, Carina, Carlos, Artur, Marlene, Marco e Vanessa são as sete estrelas da companhia. São eles os utentes da Unidade Funcional da Tocha da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) de Coimbra, que constituem o grupo de dança e ginástica “Different Gym”. O projecto nasceu há alguns anos, de uma parceria entre a Associação e a Câmara Municipal de Cantanhede, projecto que hoje conta também com a colaboração da Academia CantanhedeGym, sobretudo através da troca de experiências e da integração entre as classe da Academia e a classe “Different Gym”.
Foi na Quinta da Fonte Quente, residência artística dos nossos sete ginastas, que o grupo foi apresentado à comunicação no âmbito da sua presença no EuroGym 2012, grande mostra de ginástica que animou a cidade de Coimbra entre os dias 15 e 19 de Julho. Helena Albuquerque, presidente da APPACDM-Coimbra, começou por esclarecer a missão da Associação, que tudo faz pela integração do cidadão deficiente mental: “Pretendemos proporcionar a estes jovens o número máximo de experiências que lhes permitam o desenvolvimento enquanto seres humanos na sua plenitude”. Para tal, têm sido criados vários grupos artísticos, musicais e desportivos, com o grupo “Different Gym” a proporcionar aos seus elementos a prática da ginástica.
“Todos estes jovens têm deficiência mental, alguns têm ainda deficiência motora associada, e estão federados na Federação de Ginástica de Portugal”, explicou Helena Albuquerque. Com idades entre os 22 e os 37 anos, estes ginastas encontraram na modalidade uma forma de expressão, de relacionamento interpessoal e, sobretudo de comunicar e fazer amigos, como eles próprios explicaram ao nosso Jornal. Até porque na APPACDM de Coimbra, o envolvimento com a comunidade revestiu-se sempre de grande importância: “Não caminhamos sozinhos, nunca o fizemos nem pretendemos fazer. Aproveitamos todos os estímulos que nos cercam e a vida da nossa Associação faz-se em dois sentidos – levando o nosso trabalho para fora da Instituição e acolhendo todas as propostas que nos são feitas e todos os desafios que nos são lançados”.
Pela plena inclusão social
E foi precisamente um desses desafios, lançado pelo Município de Cantanhede em 2007, que permitiu a criação deste grupo de ginástica tão especial. “Este conceito de ginástica solidária, no fundo com o intuito de inclusão e integração social e de que o cidadão com deficiência possa promover e desenvolver as suas capacidades, tornou-se um projecto muito importante para o Município. O que nos move é, precisamente, essa vanguarda da dignidade da pessoa portadora de deficiência e a oportunidade de lutar pela igualdade de direitos, pela plena inclusão social”, considerou Pedro Cardoso, vereador com os pelouros da Acção Social e da Cultura da Autarquia cantanhedense.
Para lá da igualdade de oportunidades, está um outro factor que o autarca destacou, que é a participação dos elementos da Academia CantanhedeGym no projecto: “Introduz um aspecto educativo que eu acho fantástico. Os atletas têm aqui uma oportunidade única de crescerem na sua formação humana, com a perspectiva de que a diferença não é um problema”. Nem um problema, nem um “bicho-de-sete-cabeças”, como Carlos, um dos elementos do grupo, fez questão de frisar. “Estar aqui é maravilhoso”, acrescentou. O Marco, por exemplo, até já emagreceu alguns quilos, e o Beto e a Carina são, para lá de companheiros nestas (an)danças, namorados.
Sem medo de olhar a diferença nos olhos, de tomá-la nos braços e fazê-la dançar, assumem-se os três professores que têm acompanhado a classe “Different Gym”: Vanda Dias, professora que representa o Município de Cantanhede no projecto, e Rogério Franco e Miguel Costa, professores destacados pelo Ministério da Educação. “Eles têm sempre muito mais a dar a quem está com eles, do que aquilo que nós lhes ensinamos. Tudo o que lhes damos é agarrado por eles com toda a força, e retribuído com mil vezes mais intensidade”, partilhou a professora. “Eles acalmam e apaziguam, acaba por ser uma forma de terapia poder trabalhar com eles”, acrescenta. Gesto, movimento e ritmo são as vertentes trabalhadas, com os sete elementos do grupo a conseguirem “pegar no mais simples, e como que fazer magia, que é, sem dúvida, aquilo que eles fazem”. Isso e ter representado Portugal no EuroGym, o que, diga-se, não é coisa pouca.
EuroGym, o sonho tornado realidade
“A vida destes jovens não pára, há experiências que não podemos deixar de agarrar”, confessou Helena Albuquerque. Uma dessas experiências foi o EuroGym 2012, em que o grupo “Different Gym” marcou presença graças à boa vontade e à dádiva de uma empresa da Região. Cerca de 2.500 euros, era quanto separava Beto, Carina, Carlos, Artur, Marlene, Marco e Vanessa do sonho, verba que a Chama Amarela, ligada à comercialização de fornos industriais, se apressou a disponibilizar. “Foram vocês que permitiram que estivéssemos no EuroGym, por isso têm a nossa imensa gratidão”, sublinhou a presidente da Associação visivelmente emocionada.
Também Pedro Cardoso, vereador com o pelouro da Acção Social e da Cultura da Câmara Municipal de Cantanhede, saudou a iniciativa da Chama Amarela: “No âmbito daquilo que é a responsabilidade social de uma empresa, este é um exemplo notável daquilo que é uma aposta bem-feita, de uma escolha importante e pertinente numa conjuntura que sabemos ser difícil”. Mauro Jesus, o representante do patrocinador na conferência de imprensa, agradeceu as palavras de apreço e considerou ser “um privilégio participar num projecto desta natureza. Era impensável não vos proporcionar esta participação no EuroGym”. A constatação foi acolhida com um forte aplauso por parte de todos os presentes, incluindo dos sete ginastas que assim puderam mostrar a sua coreografia, a “Dança do Mar” e um tradicional vira minhoto, no Parque Verde de Coimbra, perante centenas de ginastas de vários países europeus que não hesitaram em aplaudir de pé. Afinal, a linguagem da inclusão é, ainda, universal. | FC