Fausto Pinheiro Maia nasceu em Samel, “uma pequena aldeia no limite do concelho de Anadia com o de Cantanhede”, no dia 1 de Maio de 1949. Recorda os longos passeios de bicicleta da sua infância e mocidade, bem como a desilusão quando, concluído o Ensino Primário, lhe viu ser vedado o acesso ao Liceu. No entanto, não desistiria desse sonho, acabando por completar os estudos liceais e, após uma passagem pelo Ultramar, o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Advogado há mais de três décadas, tem no ciclismo outra das suas grandes paixões.

Falar de Fausto Maia sem explorar a sua paixão pelo ciclismo é, como diz o adágio, como “ir a Roma e não ver o Papa”. Não se lembra do momento preciso em que as bicicletas entraram na sua vida, mas certo é que não mais de lá saíram. Há, no entanto, outros “amores” no seu coração: a família, de que fala com orgulho e dedicação, e a advocacia, que sempre sonhou exercer e que ainda hoje tem o dom de tornar os seus dias mais completos. Pelo meio, houve uma passagem pela vida política, enquanto presidente da Assembleia Municipal de Cantanhede eleito pelo Partido Socialista.

Recebe-nos no seu escritório, em plena Praça Marquês de Marialva, bem no coração de Cantanhede, a sua terra adoptiva. A luz, que entra pela generosa janela, dá ainda mais vida e cor à monumental composição em mosaico que adorna a parede por trás da sua secretária. Retrata, como não podia deixar de ser, a Justiça, não faltando a venda nos olhos e a espada e a balança em cada uma das mãos. Vimos a saber mais tarde que é da autoria da sua Mulher, que tem na arte o escape que Fausto Maia procura (e encontra) no ciclismo.

Percebemos, desde logo, a sua dedicação à família. É sobre as suas filhas (são três) que nos fala em primeiro lugar, ainda antes de iniciarmos a nossa entrevista propriamente dita, e os retratos dispostos sobre a sua mesa de trabalho testemunham isso mesmo. Vem-lhe esse traço da sua infância, passada na pequena aldeia de Samel, concelho de Anadia, onde nasceu e cresceu no seio de uma família humilde e de gente muito trabalhadora. Dos pais fala com enlevo e adoração, quer pelo exemplo que lhe apontaram, quer pelos valores que lhe incutiram.

“Guardo desses tempos boas memórias, tanto que ainda hoje mantenho viva a casa que foi dos meus pais. É a minha casa de aldeia, que recuperei em sua homenagem, nomeadamente pela minha mãe, a quem prometi que aquela casa haveria de estar sempre viva. Espero poder cumprir sempre essa promessa, pois ali tive a minha origem e ali sinto que tenho, ainda, os meus pais vivos”, partilha. São gratas as recordações de Samel e dessa casa, mas há uma que ensombrou, de certo modo, a sua meninice, e que parece ter moldado a sua maneira de ser e de estar na vida: “Nas aldeias de então os filhos de pobres não podiam estudar, e eu sou filho de gente pobre, de agricultores. Houve, se a memória me não atraiçoa, oito miúdos que, por razões económicas, se viram nessa situação, o que para os nossos pais era uma coisa bastante normal, mas que muito nos magoou”.

Viu-se, então, entregue aos trabalhos agrícolas, auxiliando a mãe como podia: “Lembro-me de gostar do trabalho braçal, mais forçado, como dar de comer a um boi amarelo que tínhamos e que eu adorava. Já o meu irmão, como era mais franzino, ia para a cozinha. O mais velho estava emigrado na Venezuela, junto com o meu pai”. Eram tempos diferentes, de trabalho aturado nos campos, de sol a sol. A alimentação era, também por isso, muito diferente: “Era muito à base do que chamávamos o ‘escorrido’, que são diversos legumes cozidos, como a couve, o feijão, a batata e a cebola, e também se comia muita sopa. Leitão e chanfana, hoje tão presentes na Região, só em dia de festa”.

Marcado para a vida

Apesar de lhe ver negada a oportunidade que outros tiveram, a sua vontade não esmoreceu. Com a emigração do progenitor para a Venezuela a situação económica da família melhorou, o que lhe permitiu, ao fim de um par de anos, fazer a admissão ao Liceu. “Entrámos no Colégio Nacional de Anadia, ainda que com 13 ou 14 anos. Foi um aspecto muito negativo na minha vida, no sentido da espera e dos anos como que perdidos mas, por outro lado, trouxe coisas muito positivas. Fez-me viver na pele a revolta a que o ser humano tem direito, pois está desprotegido por força da sua condição económica e social. Isso marcou-me para o resto da minha vida e tenho lutado contra essa realidade”.

As deslocações diárias para o Liceu, entre Samel e Anadia, começaram a ser feitas de bicicleta, em autênticos bandos, o que permitia conviver e, como era típico da idade, namoriscar. “Eram 15 quilómetros para cada lado e, naturalmente, habituei–me à bicicleta e a contar com ela enquanto meio de transporte. Lá íamos nós, um rancho de rapazes e algumas raparigas em ambiente de festa, sobretudo na Primavera e no Verão”, lembra. Dava, então, os passos que o poderiam levar ao sonho que há muito acarinhava: ser advogado. Não consegue precisar quando surgiu esse desejo, mas recorda um tio, já falecido, que o desafiava nesse sentido: “Aquilo lá me deve ter ficado… certo é que se eu tinha um sonho, sempre foi ser advogado. Não tive qualquer hesitação no meu percurso”, assegura.

Mas o curso de Direito teve que esperar, já que aos 20 anos foi chamado para cumprir o serviço militar, sendo depois mobilizado para a Guerra Colonial em Angola. “Foi um estádio de quatro anos extremamente importante na minha vida. Veja o que é um jovem, que sai da sua pequena aldeia, e vai para a guerra. Nunca tive espírito belicista e vi-me forçado a defender a Pátria e o que era nosso, como então diziam”. Encurralado e prejudicado pelo seu próprio País, havia ainda de sofrer, como tantos outros, por um destino que não escolheu: “Quem fugiu dessa Guerra regressou, após o 25 de Abril, como herói. Já nós, os que cumprimos aquilo que nos foi imposto, viemos como cobardes. Nunca aceitei esse estigma, até porque fui para África um jovem, e regressei um homem marcado”.

Nas teias da Lei

Regressa a Portugal em Outubro de 1973, retomando, desde logo, os estudos. “Vinha com uma vontade férrea de me licenciar em Direito. Beneficiei do estatuto especial para os ex-combatentes, que permitia que me propusesse a exame todos os meses, e assim consegui tirar partido do tempo que me havia sido roubado. Em dois anos e meio saí da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra com o canudo”, revela. Quem diz que “a pressa é inimiga da perfeição” não conhece, certamente, Fausto Maia: “Não fui um aluno medíocre, a tal ponto que fui convidado pela equipa do já falecido professor Mota Pinto, que foi Primeiro-Ministro de Portugal, para integrar os quadros da Faculdade enquanto assistente. Fazia aquilo que gostava, gostava daquilo que fazia, e as coisas aconteciam naturalmente”.

Mas o homem tinha um sonho, e o sonho era ser advogado, com direito a toga e a esgrimir argumentos em tribunal. “Agradeci o convite mas o meu objectivo era outro, por isso declinei. Mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida”, diz. O curso foi uma espécie de contra-relógio mas o exercício da advocacia, esse, tem sido saboreado e apreciado caso a caso, julgamento a julgamento, sentença a sentença. Estagiou em Cantanhede, no escritório de Albano Pais de Sousa, apesar de não ter, até esse momento, qualquer ligação à então vila: “Quando temos um projecto de vida, às vezes é preferível lavrar terra virgem. A minha mulher era dos Covões e acabei por escolher Cantanhede”. Aprendeu com o patrono, com a própria vida e com um “baluarte da advocacia da Região Centro, que era o Dr. Zacarias da Costa e Nora”.

Considera que foi muito o que mudou na área, que em tempos “se batia por outros valores totalmente diferentes dos de hoje”, mas continua a exercer com a mesma paixão, seja em Direito Criminal, Civil, da Família ou Reais, “hoje quase em desuso, mas de que gosto bastante”. Se um dia decidir “pendurar a toga”, fica com a certeza de que o seu legado perdurará, até porque há outro “Maia” na praça – neste caso, outra – que é a sua filha. Numa breve incursão pela política cumpriu um mandato enquanto presidente da Assembleia Municipal de Cantanhede pelo Partido Socialista, numa eleição em que o cabeça-de-lista do Partido Social-democrata, Jorge Catarino, foi presidente da Câmara Municipal. “Foi uma situação um pouco anómala mas, na minha opinião, esse mandato correu muito bem. Fizemos um trabalho bom em conjunto, independentemente da cor política das nossas camisolas”, garante.

A tarefa foi cumprida até ao fim mas a política não conquistou Fausto Maia: “O Marco Paulo diz que tem dois amores, pois eu julgo que tenho três: a minha família, a advocacia e o ciclismo”, brinca. Estão confirmadas as nossas suspeitas: afinal, todos os “indícios” que recolhemos durante o “interrogatório” apontavam nesse sentido… Assim sendo, damos por encerrada a “sessão”.

Respirar ciclismo

“A minha paixão pelo ciclismo é de sempre, embora só se tenha manifestado mais tarde. Na minha infância adorava ir para a pista de Sangalhos ver corridas de bicicleta, sempre com o sonho de um dia poder vir a comprar uma bicicleta de corrida”, partilha, trazendo à lembrança recordações de anos idos. Sempre pedalou por lazer, até aos 30 anos e a uma lesão futebolística, que fez com que trocasse os chutos na bola por uma incursão mais a sério no ciclismo: “Redescobri algo que estava como que em hibernação dentro de mim. Comecei a andar, sem grandes primores técnicos, e nunca mais parei”. É a tal paixão, para lá do Direito, que ainda hoje perdura.

Ligou-se ao associativismo e à Columbófila Cantanhedense muito por causa do ciclismo, tendo sido presidente da Assembleia-Geral da Associação durante mais de uma década. “Estive lá com bastante dedicação e gosto até há relativamente pouco tempo. Tivemos o ponto alto do ciclismo em Cantanhede com as equipas profissionais, Orima Cantanhede e Cantanhede Marquês de Marialva, das quais fui director desportivo. Fizemos alguns brilharetes na Volta a Portugal e não nos podemos esquecer que nomes como Marco Chagas e Vítor Gamito pedalaram por essas equipas”.

Aos 40, idade em que muitos descobrem a “ternura”, ganhou o gosto às “epopeias ciclísticas”, como lhes chama. “Percorri este País de lés-a-lés e em 1996, depois de muita preparação, fiz a travessia dos Pirenéus. Foram 17 dias a pedalar, do Mediterrânico ao Atlántico, em que cada quilómetro escondia uma nova descoberta de beleza inigualável”. Apesar da dureza e exigência da tarefa, cumpriu-a com gosto. “Foi a aventura ciclística da minha vida”. | FC

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