João Victor Gonçalves da Silva Pereira nasceu em Coimbra, a 13 de Janeiro de 1938, tendo residido, desde tenra idade, no concelho de Cantanhede. Recorda com saudade a infância feliz e despreocupada passada entre amigos e brincadeiras, bem como os anos de escola no Colégio Infante de Sagres, fundado por seu Pai em 1934. Filho de pedagogos, cedo encontrou vocação para o ensino, tendo leccionado durante largos anos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC), onde havia cursado Geografia. Apaixonado pelas artes e pelas viagens, foi um dos fundadores da Associação dos Antigos Orfeonistas da UC e frequentou o Curso de Auditores de Defesa Nacional. É, ainda, Comendador da Ordem dos Templários de São Julião, na Figueira da Foz.

É sempre difícil condensar em pouco mais de página e meia a vida de uma pessoa. Mais ainda no caso de João da Silva Pereira, homem de múltiplas paixões e interesses que foi abraçando, ao longo dos anos, diversas causas e empreendimentos. Da infância reguila, passada em Outil e Cantanhede, à idade adulta, pautada pelo dinamismo que ainda hoje lhe notamos no olhar vivaz e na agenda sempre preenchida. Por isso está envolvido em diversos projectos: os Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, a Ordem dos Templários e o Rotary Club são apenas alguns.

É no átrio de uma unidade hoteleira da cidade de Coimbra que aguardamos a chegada do nosso entrevistado. O espaço é tranquilo e descontraído, convidando a longas e informais conversas. E, numa tarde de absurdo calor, um verdadeiro oásis no coração da Cidade. João da Silva Pereira chega puxando uma mala e carregando algumas pastas nos braços. Afinal, nem sempre é fácil recordar todos os pormenores de uma vida, mais ainda de uma tão plenamente vivida como tem sido a do nosso interlocutor. A documentação que o acompanha ajudará, certamente, a não deixar esquecido nenhum episódio dessa rica “novela”. Começamos pelo início, que é sempre um bom ponto de partida para qualquer história.

Nasceu em Coimbra, na freguesia da Sé Nova, no dia 13 de Janeiro de 1938. “O meu pai, Adelino da Silva Pereira, era da Figueira da Foz, e a minha mãe, Julieta Gonçalves da Luz, de Aveiro. Foi em Coimbra que se conheceram, enquanto estudantes, mas foi próximo de Cantanhede, em Vila Nova de Outil, que começaram a sua vida em comum. Foi, aliás, em Vila Nova de Outil que dei os meus primeiros passos e vivi as minhas primeiras aventuras”, recorda. Os seus progenitores, ambos professores, leccionaram em escolas da Região, até que o seu pai decidiu fundar, em Cantanhede, o Colégio Infante de Sagres. Foi aí que o pequeno João Victor estudou, depois de concluído o ensino primário na Escola Conde Ferreira, também em Cantanhede.

“Era um menino muito irrequieto e já gostava de futebol. Por vezes o meu pai zangava-se porque eu não estava a horas em casa para o almoço, mas lá havia a cobertura da mãe. Recordo–me dos dias de Feira, em frente à Igreja de Cantanhede, e de irmos jogar à bola no recinto onde hoje se faz a Expofacic”, diz. Filho de dois pedagogos, recupera das brumas da memória um dos seus primeiros mestres: “O Professor Oliveira era um homem de princípios, que hoje poderíamos considerar de uma certa rigidez, tal como o meu pai. Era uma rigidez necessária, numa altura em que se tentava conciliar o ensino com a educação propriamente dita. Não podemos esquecer que era um ambiente de características rurais, havia uma ausência de cultura muito forte e um enorme analfabetismo. Quando, com sacrifício, os pais enviavam os filhos para a escola, esperavam isso mesmo”.

Foi, aliás, essa a orientação que João da Silva Pereira manteve mais tarde, quando ingressou ele próprio na carreira docente e, anos depois, assumiu os destinos do Colégio fundado por seu pai. Mas enquanto estudante, a “cantiga” era outra: “Nunca fui um aluno extremamente aplicado, mas procurava cumprir o melhor possível. Nunca tive como objectivo ter as melhores notas, tanto que não prescindia do meu ‘Cavaleiro Andante’, que ia buscar religiosamente ao sábado e que lia entusiasticamente. Ainda tenho a marca da cabeça partida que me valeu o choque com um poste de iluminação…”, relembra divertido. Chegou a ponderar a Medicina como destino profissional, mas acabaria por mudar de ideias e manter-se no “negócio” de família.

“Tenho consciência de que tenho uma capacidade grande de me aproximar das pessoas e de criar processos de confiança, uma mais-valia para qualquer médico. A medicina era, realmente, algo que me interessava, mas já que tinha o meu futuro assegurado se optasse por ser professor, acabei por seguir a Geografia, uma área que também me aliciava”, explica. E assim foi. Começou a dar aulas no Infante de Sagres em 1962, ainda enquanto estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Chamado a cumprir o serviço militar obrigatório, foi mobilizado para a Guiné em Outubro de 1964, onde viria também a leccionar, até regressar à “Metrópole” em 1967. “Foi uma experiência enriquecedora. Tive sempre uma certa atracção por outras culturas e civilizações, e tentei sempre analisar e compreender o comportamento das pessoas no seu enquadramento sociocultural”. Volvidos alguns anos completa a sua licenciatura, com a defesa da tese sobre “Cantanhede, Vila de Mercado”, em 1972, ano em que encerra, também, o Colégio Infante de Sagres. É então que Alfredo Fernandes Martins, professor da UC e uma das principais referências na área da Geografia para João da Silva Pereira, o convida para ser docente da Faculdade de Letras, convite que, naturalmente, aceita.

Do canto e outras paixões

Evoca, saudoso, os tempos de estudante em Coimbra, em que fez “provas de voz, em 1957, para o Orfeon Académico. Viajámos muito, actuámos nos mais belos e ilustres palcos, foram experiências inolvidáveis. Madeira e Açores, Angola, Estados Unidos da América durante quase 60 dias de Chicago até Atlanta. Foi um momento de grande êxito, mas também de muito cansaço”. Desde então, o canto e a música têm feito parte integrante da vida do pedagogo. Tanto que, em 1980, foi um dos sócios-fundadores da Associação dos Antigos Orfeonistas de Coimbra, que dirigiu e a que ainda hoje empresta a sua voz de barítono. À música foi-se juntando, desde logo, o “bichinho” das viagens, a predisposição para o contacto com outros povos e culturas, com outras realidades e quotidianos. Já percorreu “meio mundo”, primeiro em digressões do Orfeon, depois em cumprimento do serviço militar, mais tarde ainda a título profissional – usufruiu de uma bolsa de estudo em Toulouse, França, entre 1974 e 1976 – e pessoal, sempre com o olhar perscrutador de quem quer aprender, mais do que apenas ver.

Foi esse olhar perscrutador, desta vez posto na Serra do Caramulo, que lhe permitiu recolher material para a sua tese de doutoramento (“A Serra do Caramulo – desintegração de um espaço rural”), logrando obter o grau de doutor em Geografia Humana pela Universidade de Coimbra em 1988. As conquistas pessoais e profissionais que foi somando comprovam o seu espírito empreendedor e mais não foram que um merecido prémio para um optimista convicto: “A vida obriga-nos a enfrentar as coisas positivas de uma forma agradável e as negativas retirando-lhes, de certa forma, o peso mau e a relevância que poderíamos ser tentados a atribuir-lhes”. Dedicou toda uma vida à docência, primeiro em Cantanhede, depois em África, mais tarde em Coimbra, e nem a aposentadoria conseguiu mantê-lo afastado dos alunos.

João da Silva Pereira tem tido, inegavelmente, uma vida preenchida. Das pastas com que entrou no hotel vai retirando material diverso, documentação que funciona como uma espécie de “cábula” dos momentos que marcaram o seu percurso. A criação do Rotary Club de Coimbra – Olivais, em 1990, é o próximo ponto de paragem. “Fui sócio-fundador e presidente em 1996. O Rotary é um movimento extremamente interessante, com objectivos relevantes assentes na prova quádrupla”. Verdade, justiça, “desejo de servir e de dar de si, antes de pensar em si” são os pilares da corrente rotária. “Tem um fim humanista, de elevação da própria sociedade. Não é um movimento envolto em secretismo, antes pelo contrário. Assumimo-nos rotários e reconhecemo-nos em qualquer parte do mundo. É um movimento universal”.

Auditando o País

O ano em que esteve envolvido na criação do clube rotário de Coimbra – Olivais foi, também, o ano em que frequentou o Curso de Auditores de Defesa Nacional, no Porto, a convite da Universidade de Coimbra. “Foi extremamente importante, foram 25 pessoas dos mais diversos quadrantes da sociedade que se juntaram ali. Cada um de nós foi enriquecer o próprio Curso, que tem como objectivo que sejamos figuras de referência na nossa área e no contexto da Defesa Nacional”. Luís Amado, Ministro dos Negócios Estrangeiros nos dois Governos de José Sócrates (entre 2006 e 2011), foi um dos colegas de curso de João da Silva Pereira, entre outras pessoas que se vieram a destacar em áreas distintas.

“Durante um ano estudámos diversos assuntos e assistimos a palestras proferidas por figuras proeminentes. Integrei uma comitiva de auditores que visitou a Coreia do Sul e tive oportunidade de testemunhar a tensão existente entre as duas Coreias”. Macau e Tailândia foram outros dois destinos a que teve o privilégio de se deslocar no âmbito do Curso de Auditores de Defesa Nacional, uma experiência fascinante de que fala com extremo orgulho. “Criou-se um espírito de sã camaradagem, do qual nasceram amizades que ficaram para o futuro”. Em 1992 foi eleito vice-presidente da Assembleia da Associação de Auditores de Defesa Nacional e fez parte da comissão instaladora da Delegação do Centro da Associação.

Fechamos o capítulo dos auditores de Defesa Nacional e viramos a página. Segue-se a Ordem dos Templários. O professor exibe um documento redigido numa caligrafia perfeita, em latim, encimado pelo brasão da Ordem: “Atesta que me é atribuído o grau de Comendador da Ordem dos Templários, neste caso da Comendadoria de S. Julião, na Figueira da Foz, pertencente ao bailiado das Beiras, de que sou secretário”. A Ordem dos Templários remonta ao século XII, tendo sido “extinta” por bula papal no século XIV. Claro que muitos membros se mantiveram no “activo”, ainda que nas sombras. Hoje, são algumas centenas em Portugal, e João da Silva Pereira é um deles.

Uma autêntica “caixinhas de surpresas”, o nosso entrevistado, que se jubilou em 2004 mas para quem a aposentadoria não significou o adeus às aulas e ao ensino: “Durante quatro anos dediquei-me a tudo isto de que já falámos, até que, a certa altura fui convidado para leccionar no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração de Aveiro”. Aceitou o repto e por lá se mantém. Chegámos ao presente, ao aqui e ao agora. João da Silva Pereira volta a percorrer com o olhar e com as mãos as páginas soltas de uma vida que nos vai apresentando peça a peça, como se de um puzzle se tratasse. “O que é que falta?”, pergunta, enquanto lá fora o sol se vai pondo por detrás do casario. Muito terá ficado por contar, outro tanto por escrever nestas páginas. É o preço a pagar por se levar uma vida tão rica, tão cheia de momentos e acontecimentos que vale mesmo a pena recordar.

Do desporto à arte

Foram vários os interesses que João da Silva Pereira cultivou enquanto jovem. O desporto foi um deles: “Sempre gostei de praticar desporto. Cheguei a ir treinar ao ‘Marialvas’, com o senhor Licínio Alves, que viu em mim algumas qualidades”, lembra. Ao futebol, enquanto jogador e mais tarde árbitro, juntava o hóquei em patins, praticado nos tempos do Colégio Infante de Sagres, num recinto por detrás do Café Central de Cantanhede, que hoje já não existe. “Também me estimulava bastante o automobilismo. Aos fins-de-semana o meu pai emprestava-me o carro para que eu pudesse participar nalgumas gincanas, chegando até a acompanhar-me numa ocasião em Febres. Foi uma época passageira, aquela em que participei nalguns ralis, mas foi muito gratificante”, garante. Na Guiné, enquanto militar, dedicou-se ao futebol, ao ténis e ao voleibol com resultados bastante interessantes, o que vem reforçar a sua veia multifacetada.

“Sempre foi uma vertente importante na minha vida, complementar na minha formação, que me permitia manter-me saudável”. Com o passar dos anos, a prática desportiva foi perdendo alguma relevância, com a música e as artes plásticas a ganharem terreno. “A minha mulher sempre teve uma propensão forte para as artes. Até que em 1988 as coisas foram-se sucedendo… começámos com uma lojinha de artesanato, no Girasolum. Depois vinham os amigos e penduravam umas coisas na parede, até que concluímos que talvez houvesse necessidade de mais parede. A nossa galeria, baptizada Graal Arte pelo nosso amigo Mário Silva, esteve aberta durante mais de 15 anos, e passaram por lá artistas destacados da Região. Houve até um momento em que chegámos a ter duas galerias de arte e uma moldureira. Foi um período extremamente activo”. | FC