Vítimas de violência e maus-tratos quando na companhia de familiares ou institucionalizados; votados à solidão e ao abandono quando optam por (ou são forçados a) manter a sua independência. Esta é a (dura) realidade que acompanha muitos dos idosos portugueses no “inverno” das suas vidas. Um retrato frio e cinzento de um País imerso numa crise que, mais do que económica, é de valores.

O tema é chamado, com alguma frequência, às primeiras páginas dos jornais e às aberturas dos blocos noticiosos televisivos: idosos que vivem e morrem sós, outros que são vítimas silenciosas de abusos e maus-tratos por parte dos cuidadores, outros ainda que sofrem, indefesos, com a violência brutal da indiferença a que a sociedade decidiu votá-los. Esta é a dura e triste realidade do quotidiano de muitos homens e mulheres em Portugal, cidadãos que parecem ter que pagar e sofrer por terem chegado à velhice. Em tempos (saudosos) encarados como fonte de sabedoria e âncoras da vida em família, são hoje cidadãos de terceira, desprezados e humilhados por uma sociedade que teima em medir a utilidade do ser humano mediante as horas de labor que consegue suportar.

A Santa Casa da Misericórdia de Cantanhede não é alheia a esta deprimente realidade, tendo promovido, no dia 16 de Junho, uma conferência sobre “Violência e maus-tratos ao cidadão idoso”. Na plateia, responsáveis, técnicos e funcionários de instituições que lidam diariamente com seniores, mas também alguns utentes dessas mesmas instituições. José Guardado Carvalho, enfermeiro e consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS) radicado na Suíça, foi o orador. Pintou um retrato desolador da situação dos idosos em Portugal, o quinto País no índice de violência contra idosos segundo relatório da OMS. “Quatro em cada dez idosos portugueses são vítimas de violência física ou psicológica”, garante o documento. Num universo de 53 nações, somos superados apenas por Sérvia, Áustria, Israel e Macedónia.

E no que diz respeito à forma como esses abusos se materializam, a panóplia é diversificada: das agressões físicas à violência sexual, passando pelo insulto e pela humilhação verbal, sem esquecer a omissão na prestação de cuidados e o abandono. Há mil e uma formas de magoar um ser humano, mais ainda tratando-se de um potencialmente indefeso e frágil. “Os cuidadores são a esmagadora maioria dos perpetradores”, assegurou José Guardado Carvalho. “Estamos a falar dos cônjuges, dos filhos, dos genros e das noras, até dos netos. Estamos a falar, também, dos que têm a seu cargo idosos institucionalizados. O problema é que as pessoas não se vêem ao espelho… se pensassem que daqui a 20 ou 30 anos serão elas a estar naquela posição, a serem velhas, talvez a coisa mudasse de figura”, defende o enfermeiro.

Uma questão educacional, enraizada na nossa sociedade, que se tem vindo a agudizar com a crise. “Tenho 78 anos, cinco filhos e sete netos que não me visitam”, ou “os meus filhos só me vêm ver ao lar quando sabem que recebi a minha reforma”. Estes são apenas alguns dos relatos que se vão repetindo por esse País fora, mas outros há que nunca chegam a ser ouvidos, pois os protagonistas dessas outras histórias não têm (ou não sabem) como as verbalizar. “Todos temos responsabilidade, não só os que levantam a mão ou ignoram os apelos, mas também os que conhecem situações deste tipo e não as denunciam. Com o envelhecimento acentuado da população mundial, esta é uma realidade que tende a piorar”.

Urge, portanto, intervir. Quer ao nível governamental e institucional, quer numa dimensão mais próxima, na esfera das relações pessoais. Há que deixar de usar as pessoas como se de objectos se tratassem, atirando-as para um canto quando deixam de ter utilidade para nós, para a sociedade. Todos merecem respeito e devem ser tratados com dignidade e humanidade. Pois os novos de hoje serão, mesmo, os velhos de amanhã.

“Não temos nada a esconder”

A Santa Cada da Misericórdia de Cantanhede decidiu apostar numa palestra sobre violência e maus tratos a idosos, ainda que (ou talvez por isso mesmo) sejam precisamente os idosos uma larga fatia dos utentes da Instituição. “Quisemos que, para além dos prestadores de cuidados, estivessem presentes os utentes porque não temos nada a temer. Todos os dias a Santa Casa da Misericórdia de Cantanhede trabalha com o intuito de criar bem-estar ao utente, neste caso a pessoa idosa, e por isso não temos nada a esconder”, garantiu ao AuriNegra o provedor da Instituição, Rui Rato.

O responsável acredita que a formação dos prestadores é fundamental para prevenir situações deste tipo, bem como o esclarecimento das condições em que o utente dá entrada na Instituição: “É preciso conhecer as circunstâncias em que é feita a admissão, bem como o contexto familiar do idoso”, explica. Só assim poderão ser identificadas situações em que não está a ser respeitada a vontade do próprio utente. O acompanhamento da relação entre o idoso e a sua família também é importante, bem como a observação do próprio ambiente em que vive, possível para os utentes que frequentam o Centro de Dia.

“Preocupa-nos que possa haver negligência na prestação de cuidados, daí haver uma articulação muito próxima entre chefias intermédias e prestadores de cuidados. Preocupante também é o abuso por parte de alguns familiares, nomeadamente através da utilização dos rendimentos do idoso para fins pessoais, prejudicando tanto o próprio utente, como a Instituição”, assume. O Lar da Santa Casa da Misericórdia de Cantanhede acolhe 70 utentes, a que se juntam 25 no Centro de Dia e 17 em Apoio Domiciliário. | FC

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