Carlos José Fialho da Costa Faro nasceu em Caldas da Rainha a 17 de Novembro de 1964. Filho de uma doméstica e de um gerente comercial, é o mais velho de dois irmãos. Casado, pai de um rapaz e de uma rapariga, doutorou-se em Biologia pela Universidade de Coimbra, instituição onde leccionou durante alguns anos. Várias visitas aos Estados Unidos da América aguçaram-lhe o interesse em misturar a investigação e o empreendedorismo, tendo em 2005 sido convidado para dirigir o Biocant Park, em Cantanhede.  

Rosto incontornável do Biocant, Carlos Faro dirige os destinos do parque de biotecnologia de Cantanhede desde a sua fundação, em 2005. Homem afável e bem humorado, é doutorado em Biologia, pela Universidade de Coimbra, instituição onde leccionou durante alguns anos. A agenda de compromissos não lhe permite ter muito tempo livre, mas sempre que pode aproveita as horas vagas para conhecer um novo restaurante, passar um dia na praia ou assistir a um jogo de basquetebol.

É uma figura discreta que se movimenta nos bastidores do Biocant Park, o único parque de biotecnologia do País, onde estão cerca de 30 por cento das empresas portuguesas do sector. Um projecto que tem, indiscutivelmente, a “mão” de Carlos Faro. Nasceu em Caldas da Rainha, estudou em Coimbra e investigou em países como Inglaterra ou Estados Unidos da América (EUA). Não é de estranhar, portanto, que se considere um “cidadão do Mundo”.

Viveu na sua terra natal até aos 17 anos e diz guardar memórias muito agradáveis de Caldas da Rainha. “Era uma cidade muito particular. Era, digamos, a ‘capital’ daquela região. Em termos de dimensão e de importância económica, rivalizava com Leiria, a capital de distrito. Era um concelho praticamente auto-suficiente em termos alimentares, era uma região agrícola importante e o centro comercial da Região Oeste”.

Recorda-se, ainda, de ser conhecido como um concelho que proporcionava uma “grande qualidade de vida”. “O Liceu que frequentei estava dentro do parque D. Carlos I, uma zona verde extraordinariamente agradável. Depois, como Caldas fica junto ao litoral, temos praias como a Foz do Arelho e São Martinho do Porto. Havia aquela rivalidade entre quem ia para a Foz e quem ia para São Martinho. Eu era dos que iam para a Foz do Arelho…”. Qual o motivo para essa rivalidade? “Nós chamávamos a São Martinho o ‘bidé da marquesa’, porque estava conotada com uma sociedade mais nobre de Lisboa e ali da região”. 

Empreendedorismo. Este é um termo que hoje “corre as bocas do Mundo” e que é apresentado como o “remédio” para a crise. Porém, a palavra já há muitos anos faz parte do vocabulário de Carlos Faro e do seu grupo de amigos de infância. “Participávamos em imensas actividades, quer desportivas, quer associativas. Fiz parte da Associação de Estudantes do Liceu de Caldas da Rainha e fui o representante dos alunos no Conselho Directivo durante três anos. Além daquilo que podia ser o nosso interesse pe-ssoal, havia sempre esta vontade de contribuir para a comunidade”. Entre as iniciativas em que participava fora do âmbito escolar contavam-se, por exemplo, “actividades culturais e de assistência social dinamizadas por grupos ligados à Igreja local”. 

Uma ciência para a vida 

Mas nem só de actividades lúdicas se pautava o dia-a-dia do jovem que, logo no 10.º ano de escolaridade, descobriu a sua vocação. “Tive uma professora de Biologia, chamada Maria Mercês, que me marcou significativamente. Logo nessa altura, percebi que o que queria fazer era investigação científica”. Deixou-se entusiasmar pela Ciência da Vida no seu sentido mais lato, mas o que o motivava realmente era “a essência da investigação, a descoberta, o método, o desafio… E, sobretudo, a discussão”.   

Escolheu a Universidade de Coimbra (UC) para cursar Biologia e, rapidamente, se viu envolvido no verdadeiro espírito académico. “Fui viver para uma casa com mais cinco pessoas e era muito interessante porque havia um espírito de partilha. Tínhamos pessoas de várias áreas: Direito, Medicina, Geologia, Engenharia Electrotécnica e Engenharia Civil. Acho que isso é o mais importante numa Universidade, ou seja, as pessoas conseguirem contactar com gente de outras áreas do Conhecimento. Sem grande esforço, acabamos por entender o vocabulário dessas áreas e as suas especificidades”.  

Se em Caldas da Rainha pertenceu “a turmas excepcionais”, na “cidade do Mondego” avança ter tido a mesma sorte. “Entrámos, salvo erro, quarenta alunos em Biologia. Penso que metade tem agora doutoramento e muitos deles fazem carreiras brilhantes lá fora. Fomos a primeira geração, em Coimbra, que tirou Biologia para fazer investigação e não para ser professor do ensino Preparatório ou Secundário”. 

Foi em Coimbra que travou conhecimento com outra figura determinante na sua vida, o Professor Euclides Pires, docente da cadeira de Enzimologia. “Pela primeira vez, alguém nos deu a possibilidade de ir para um laboratório fazer investigação e trabalharmos de acordo com o que nós queríamos. Foi, de facto, a disciplina que marcou, definitivamente, a minha opção de vida profissional. A partir daí, ficou claro que queria trabalhar na área de biotecnologia. Fiz o estágio e o doutoramento com ele [Professor Euclides Pires], nessa área do Conhecimento”. 

O doutoramento surgiu assim que terminou a licenciatura e a tese que elaborou versa sobre as propriedades da flor do cardo, utilizada na confecção de um dos mais afamados queijos do Mundo. “No fabrico do queijo da Serra da Estrela usa-se um extracto aquoso da flor do cardo. Sabia-se que tinha uma actividade coagulante, mas não se sabia qual era a molécula responsável. O meu trabalho de doutoramento consistiu em separar todos aqueles componentes, até conseguir perceber qual é a entidade molecular responsável por aquela actividade e conseguir caracterizá-la. Depois, isso abriu a porta a um programa de investigação mais alargado, que continuou ao longo dos anos, no sentido de conhecer melhor a actividade dessa enzima e fazer o que se faz hoje: produzir a enzima em microrganismos, em leveduras, ou seja, conseguir obter produtos de biotecnologia que possam, de alguma maneira, substituir a flor do cardo”. 

Quando concluiu o doutoramento, pela UC, em 1991, tinha apenas 26 anos e no seu currículo já constava um estágio de três meses em Sheffield, no Reino Unido. Nesse mesmo ano, foi contratado para o então recém-criado Departamento de Bioquímica da secular universidade coimbrã. “Havia necessidade de encontrar alguém que quisesse ensinar Biologia Molecular. Eu tinha interesse e fiquei com essa responsabilidade”. 

Em 1992, a entidade patronal convidou-o a viajar até aos EUA, no âmbito de um programa de inovação. “Fui começar a aprender a tecnologia usada em Engenharia Genética, que não havia em Coimbra. Até 1994, fui trazendo essa tecnologia e introduzindo-a em Coimbra. Hoje, isso é rotina nos diversos grupos de investigação do Centro de Neurociências. Já não há apenas um grupo de Biologia Molecular, como havia na altura”.    

Durante a permanência na “terra do tio Sam”, mais concretamente em Oklahoma, Carlos Faro teve a engrandecedora oportunidade de integrar uma equipa multinacional e de se aperceber de um pequeno — grande! — pormenor. “Do ponto de vista cultural, tinha mais afinidade com um checo que, mesmo depois da queda do Muro de Berlim, ainda era alguém que estava do outro ‘lado’. Com os europeus havia uma afinidade quase total, contrastando com os orientais e, sobretudo, com os norte-americanos. Vivi uma experiência interessante que me fez acreditar que a União Europeia é  algo que faz sentido. Nós, afinal, estamos muito mais próximos do ponto de vista cultural, mesmo havendo uma barreira linguística”.  

O terceiro “filho”

Ao regressar a Portugal, continuou a leccionar em Coimbra, profissão que manteve até 2004. Pelo meio, em 1999, pediu que lhe fosse concedida uma licença sabática e voltou, por um ano, aos EUA, dessa vez para o estado de Massachusetts. “Durante esses anos, o meu grande objectivo era contribuir para a valorização do ensino nas áreas da Biologia Molecular e da Biotecnologia. De facto, juntamente com o Professor Euclides e com todo o nosso grupo de investigação, conseguimos chegar a uma posição muito relevante a nível internacional”. 

Seria no decorrer de 2003 e de 2004 que o grupo de investigadores concretizaria um novo sonho: desenvolver um projecto em parceria com a indústria. “Quando vim dos EUA, em 2000, tinha a sensação clara de que já não era suficiente investigar apenas para publicar papers ou para fazer teses”. O projecto em questão foi baptizado de “X-Prot” e obteve o financiamento por parte da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro. A empresa farmacêutica Bluepharma e a Associação para a Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem (AIBILI) também se associaram à iniciativa que pretendia “produzir proteínas humanas ou vegetais em bactérias”. “O projecto correu muito bem” e construiu as bases para a comercialização do resultado da investigação. O reconhecimento não tardou em surgir e os cientistas foram galardoados com o segundo lugar no Prémio Europeu de Inovação.

A ideia da criação de um parque de biotecnologia começou, então, a germinar no seio do grupo conimbricense. “Para nós, tornou-se muito claro que fazer transferência de tecnologia no seio de uma universidade seria muito complicado”. Por coincidência, havia uma pessoa no concelho de Cantanhede que tinha em mente a criação de um parque tecnológico. Numa reunião com o então presidente da Câmara Municipal cantanhedense, Jorge Catarino, Carlos Faro e o resto da equipa idealizaram o que viria a ser o Biocant Park, actualmente uma referência no que a infra-estruturas tecnológicas diz respeito.

Em 2005, o doutorado natural de Caldas da Rainha assumiu o cargo de director do novíssimo Biocant, função que mantém até aos dias que correm. “Há quem diga que [o Biocant] é o meu terceiro filho”, diz com o bom humor que o caracteriza.

Nos últimos sete anos, Carlos Faro, entretanto nomeado vice-presidente do Centro de Neurociências da UC, assistiu à construção de dois edifícios que acolhem dezenas de empresas de biotecnologia, como a Crioestaminal, e um outro que funciona como sede do parque de biotecnologia. Na calha, está a construção do UC-Biotech e, “lá para o Verão de 2013”, é expectável que nasça uma terceira infra-estrutura que dará tecto a mais dez empresas.  Claro que o balanço não podia ser mais positivo. “Há sete anos, havia aqui um eucaliptal. Hoje, estão aqui duzentas pessoas a trabalhar, em 30 por cento das empresas de biotecnologia de Portugal”. Sendo que, muitos dos jovens empreendedores que desenvolvem a sua actividade no Biocant, são antigos alunos de Carlos Faro. “Não há dúvida nenhuma que Cantanhede é uma cidade que, em termos nacionais, é associada à biotecnologia”.  

Os prazeres de uma vida

Carlos Faro suspendeu a docência em 2005 para abraçar exclusivamente o projecto Biocant Park. O tempo livre não abunda, embora o cientista não abdique de alguns “refúgios” sempre que pode. A gastronomia é um deles. “Gosto de cozinhar, mas gosto, sobretudo, de descobrir os pequenos tesouros que há em Portugal… aquele pequeno restaurante, aquela pequena tasca…”. Apesar de residir em Coimbra, é comum deslocar-se a outros locais para “aconchegar o estômago”. “Lá em casa, quando digo que vamos sair até Lisboa, a minha mulher pergunta-me logo: ‘Então qual é o restaurante a que vamos?’”. Fígado e rim são as únicas iguarias que Carlos Faro não leva à boca. Por outro lado, o “bom robalo grelhado” fá-lo “ir ao céu”.

O mar e as praias são outras das suas paixões, de tal forma intensas que na adolescência ponderou seguir Oceanografia. “Costumo dizer que certas praias representam vários momentos da minha vida. Por exemplo, a minha primeira praia foi a Foz do Arelho. Na adolescência, a Costa de Caparica foi muito importante para mim. Quando me casei, o Clube Naval do Funchal [cidade de onde a mulher é natural] passou a ser a minha praia e, nos últimos seis anos, Porto Santo é o meu destino de férias”.

O desporto também exerce grande fascínio em Carlos Faro, nomeadamente o basquetebol, talvez por causa da sua altura (1,85 metros). Em novo, chegou a ser atleta federado. “Sou do Benfica, mas jogava no Sporting Clube das Caldas”. Mais tarde, quando já era pai de um rapaz, acompanhou de perto os jogos do filho pela Associação Académica de Coimbra. “Já disse que se tivesse mais tempo gostava de trabalhar no apoio a este tipo de actividades”. | LM

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