Foi no âmbito da edição deste ano da Feira do Livro de Coimbra, que animou o Parque Verde da Cidade entre os dias 25 de Maio e 3 de Junho, que o Estabelecimento Prisional de Coimbra deu a conhecer um dos seus segredos mais bem guardados: o trabalho realizado por alguns reclusos na sua Oficina de Encadernação, um ofício que está “em vias de extinção”.

Produção de vinho, panificação, fabrico de móveis, confecção de vestuário e de lençóis descartáveis para macas e ambulâncias, artesanato em vime e cortiça. Estes são apenas alguns dos ofícios a que centenas de reclusos dos Estabelecimentos Prisionais (EP’s) portugueses se dedicam, para lá dos altos muros e dos portões fechados. A estes, junta-se a encadernação e o restauro de livros, uma arte dominada e aperfeiçoada por cada vez menos artífices, que tem na Penitenciária de Coimbra uma oficina de grande valia.

O livro é um objecto que desperta paixões e admiração, uma arma poderosa que tanto pode ser símbolo de paz, como estar na origem das mais sangrentas guerras. Padre António Vieira, homem sábio e culto que viveu no século XVII, dizia que um livro “é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Paulo, recluso no EP de Coimbra há pouco mais de sete anos, acrescenta uma outra característica dos livros: “Diz-se que o cão é o melhor amigo do homem… eu acho que é o livro. Faz o mesmo que o cão, é nosso companheiro, com a vantagem de não morder”.

Confessa-nos sempre ter gostado de livros, daí ter decidido que a Oficina de Encadernação era o local onde gostaria de trabalhar dentro das paredes do Estabelecimento Prisional: “No meu caso foi uma escolha pe-ssoal. Há situações em que o preso vai para onde houver vagas, mas eu escolhi esta Oficina. O trabalho tem que me servir, não pode servir-se de mim”, diz. Teve que esperar algum tempo até poder começar a aprender a arte, uma espera que, para quem cumpre pena de prisão, deverá ser o menor dos males. Paulo foi condenado a pouco mais de 11 anos de cadeia, mas foi na Feira do Livro de Coimbra que tivemos oportunidade de conversar com ele. Sem muros, nem algemas, nem vidros de qualquer espécie. À nossa frente, apenas o homem e a sua paixão.

“Esta é uma arte que está ‘em vias de extinção’, e não é um trabalho fácil. Se fosse, talvez houvesse mais quem aprendesse. Mas é como em tudo na vida, certamente que também na sua profissão terá algumas entrevistas mais fáceis que outras”, considera. Assim é, não o podemos negar. “No caso da encadernação, é a mesma coisa: há obras que são mais difíceis, levando semanas. Outras ficam prontas numa tarde”, garante. Os passos a seguir são quase sempre os mesmos, uma sequência que culmina na encadernação da capa. “Começamos por desmanchar o livro, seguindo-se o restauro, se for necessário. Depois é preciso cosê-lo, uma tarefa que varia consoante a espessura do livro”. À portuguesa ou à francesa, que é como quem diz, “caderno por caderno ou de dois em dois cadernos, o que permite evitar o excesso de linha e, consequentemente, uma lombada excessivamente alta e saliente”.

Depois vem a encadernação em si, a fase mais personalizável de todo o processo. “Em pele, em tela, em lona… enfim, a escolha é do cliente. Depois há, também, vários tipos de papel marmoreado, utilizado nas ‘guardas’ ou até no exterior”, exemplifica. Cada obra ganha, assim, a sua própria identidade, fruto do trabalho preciso e profissional dos  seis reclusos que laboram na Oficina de Encadernação. Com orgulho, Paulo mostra-nos uma “experiência” feita com base numa ideia da sua mestra, algo que “foi feito na nossa Oficina pela primeira vez”. Trata-se de uma capa feita com recurso a diversos tipos de pele, com cores contrastantes, num resultado policromático bastante invulgar.

Começar de novo

É notório o entusiasmo com que o restaurador fala do seu ofício, assumindo, no entanto, que nem todas as etapas do processo lhe “enchem as medidas”: “O ponto luva é o que gosto menos… É o que temos que fazer quando alguém nos traz as folhas soltas, por exemplo uma mão cheia de fotocópias, e temos que transformar aquilo num livro. Primeiro temos que fazer os cadernos e depois cosê-los. Não é um procedimento difícil, mas é bastante chato”, assegura. O trabalho dentro dos EP’s obedece a regras muito semelhantes às que regem o mundo laboral fora das paredes da prisão, nomeadamente no que diz respeito a horário de trabalho (e folgas semanais) e a remuneração.

“O que fazia antes de ser preso não tinha nada que ver com isto… não sabia desmanchar um livro, quanto mais montar. Mas agora ganhei-lhe o gosto, é algo que me entusiasma. Hoje sou chefe de sector, tenho por missão ensinar e distribuir tarefas pelos meus companheiros. Sou igual a eles, mas tenho um pouco mais de responsabilidade”, partilha, orgulhoso. Responsabilidade acaba por ser uma palavra importante no dia-a-dia dos reclusos que trabalham na Oficina. Paulo passa a explicar: “Na carpintaria, se estragarmos um pau ao montar um banco é-nos dado outro. No nosso caso estamos, na maior parte das vezes, a trabalhar nos livros dos clientes. Bem sabemos que não podemos trair a confiança que é depositada em nós”.

Essa é uma responsabilidade a que Paulo não foge. Não só porque ama o ofício que abraçou no interior do Estabelecimento Prisional de Coimbra, mas também porque sabe que é bom na arte da encadernação. A tal que está “em vias de extinção” no nosso País. “Há tempos vi num programa televisivo uma reportagem sobre uma Oficina de Encadernação e Restauro que não tinha quem aprendesse a arte. Dei por mim a pensar que se estivesse livre, ia logo lá. Digo-lhe com sinceridade, se saísse amanhã do Estabelecimento Prisional e soubesse de alguém que precisasse de um encadernador, eu ia logo lá. Gosto disto”. Com 45 anos e a pouco mais de três de sentir, novamente, o doce gosto da liberdade, Paulo faz planos para recomeçar a sua vida longe dos muros que hoje o prendem. “É tudo aquilo em que penso…”.

A História faz-se no prelo

A Tipografia Damasceno também marcou presença na Feira do Livro de Coimbra, permitindo aos visitantes ver de (muito) perto algumas das máquinas que fazem parte da História da impressão tipográfica. Localizada na Rua de Montarroio, em Coimbra, foi inaugurada em finais da década de 60 do século XX, num tempo marcado pela censura e pela repressão. João Damasceno, revolucionário e actor de teatro, tinha a “arma” perfeita para fazer chegar a sua mensagem anti-Regime a um número alargado de pessoas. A “brincadeira” valeu-lhe, como valia a todos quantos se opunham à Ditadura, muitos problemas com a PIDE. E algumas “estadias” na prisão. Do prelo da Damasceno saíram edições do jornal “Avante”, órgão do Partido Comunista Português que esteve na clandestinidade entre Fevereiro de 1931 e Abril de 1974. O negócio de família de João Damasceno passou para as mãos do filho, Rui Damasceno, mantendo-se, ainda hoje, em laboração. | FC