Francisco Batel Marques nasceu no dia 1 de Outubro de 1958, em Ílhavo. Ali cresceu, construindo uma relação especial com o mar, ou não fosse descendente de sucessivas gerações de oficiais da Marinha. Não seguiu, ainda assim, o mister do avô, do pai, de tios e do irmão, tendo optado, desde cedo, pela Farmacologia. Estudou na Universidade de Coimbra, doutorou-se no País de Gales e é, desde 2008, responsável pela Unidade de Farmacovigilância da AIBILI – Associação para a Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem. Tem na literatura e na enologia duas das suas grandes paixões.
Desportos náuticos, literatura, enologia e Farmácia. Por esta ou outra ordem, são estes os principais interesses de Francisco Batel Marques. O mar, porque nasceu em Ílhavo; a literatura, porque o reconforta; a enologia, porque é um universo irresistível; a Farmácia, porque responde à sua necessidade de ajudar o próximo. Com a frontalidade que o caracteriza, o professor universitário e investigador falou-nos destas e de outras paixões.
Nasceu em Ílhavo, terra de gente ligada ao mar e a tudo o que lhe diz respeito, uma espécie de sina que persegue os ilhavenses para toda a vida. Ainda que escolham fazer vida em terra, caso de Francisco Batel Marques, que não tendo seguido as pisadas dos muitos familiares – bisavô, avô, pai e irmão incluídos – que seguiram carreira na Marinha, assume uma predilecção quase inata por desportos náuticos e todas as coisas marítimas. Foi nesse berço de marinheiros e homens do mar, por entre os braços da Ria, que Batel Marques cresceu. O sal, o sol e a areia marcaram, indelevelmente, a sua infância.
“São memórias muito boas, as que guardo da minha infância, no seio de uma família muito ligada ao mar. Tínhamos nas férias enormes tempos de praia, em que brincávamos pela Costa Nova, com os dias a começarem de noite e a acabarem, também, de noite”, recorda. As brincadeiras com o grupo de amigos e colegas de escola levavam-no a um local a que chamavam “selva”, que “era uma zona que já não existe, a parte Norte da Costa Nova, para lá do Palheiro de José Estêvão”, bonita e típica construção que pertenceu à família deste ilustre aveirense. As idas à praia e os mergulhos na Ria de Aveiro, “ali mesmo à mão”, fizeram com que desabrochasse a paixão pelos desportos náuticos, que ainda hoje nutre.
Estudou em Ílhavo e depois em Aveiro, até ingressar na Universidade de Coimbra. Apesar da proximidade familiar ao mar, Batel Marques enveredou pela área de Farmácia, desde cedo um mundo que o fascinou e atraiu. “Tenho afinidade para o mar, mas não tenho afinidade para viver longos tempos de ausência. Em termos profissionais, nunca foi uma área apelativa para mim. Tomei, conscientemente, um outro rumo. Sempre quis a área de Saúde, genericamente falando. Acabo por ir para Farmácia naturalmente, muito atraído pelos medicamentos”.
Uma das justificações foi a possibilidade de fazer algo em prol do doente, das pessoas e da sua qualidade de vida: “Fascina-me termos hoje instrumentos que aumentam a esperança e a qualidade de vida nas mais diversas áreas patológicas. Envolvendo isso, quer a montante, quer a jusante, está um longo processo ligado à investigação clínica e à prestação de cuidados. Os medicamentos são uma tecnologia central, logo se quisermos ter um bom marcador de funcionamento dos serviços de saúde, o rastreamento dos medicamentos é uma boa opção”. O valor que esse medicamento pode ter para o doente, considerado individualmente, e para a Humanidade, é um dos aspectos específicos que mais tem entusiasmado o investigador.
Parcelas da vida
“Quando temos algumas expectativas de vida que são compagináveis com causas e valores, como servir o próximo, esta é uma área extremamente cativante”, garante. Enquanto estudante em Coimbra viveu numa República, tendo conseguido conciliar as várias vertentes da vida académica na cidade do Mondego: “Participei na vida da Academia de forma normal, vivi numa República, e fiz a vida que qualquer estudante universitário faz, com componentes de estudo, de lazer e de boémia, bem como componentes culturais que vão muito para além do estudo específico da Licenciatura que cursava. São parcelas de vida que, somadas, lhe dão valor.” À Farmácia e aos desportos náuticos foram-se juntando outros interesses, nomeadamente a literatura, um “vício” de que Batel Marques não consegue (nem quer) prescindir.
“Gosto muito de ler. Não diria que sou um leitor compulsivo, mas não posso passar um dia sem ler. Se o fizer, não é um dia completo. Do que mais gosto é do recolhimento da literatura e também me agrada escrever, algumas coisas publicáveis, outras nem tanto”, revela. Estes são os principais focos da vida do professor universitário, a que se junta, ainda, a enologia [ver caixa].
Terminada a licenciatura, Batel Marques prosseguiu os estudos com o doutoramento no País de Gales, concluído em 1994. Antes, trabalhou voluntariamente nos Hospitais da Universidade de Coimbra, na consulta de Medicina Interna: “Durante três anos acompanhei o trabalho clínico nesse serviço. Todo o meu trajecto é cotejado à lacuna essencial que identifiquei na pré-graduação, e que não cumpriu as minhas expectativas, quer no sentido académico, quer profissional, quer até sob o ponto de vista humano”. A área da Farmácia Clínica sempre foi a que mais atraiu o ilhavense, por ter como centro o doente: “Tudo o que é feito, é feito em função de ultrapassar necessidades dos doentes. Todas as tecnologias, procedimentos e medicamentos não são um fim em si, são um meio”.
Esteve na origem de algo que considera pioneiro, o primeiro curso de pós-graduação do País em “Assuntos Regulamentares do Medicamento”, liderado por si e organizado pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e pelo Infarmed, na altura a entidade reguladora. “Comecei a estar muito envolvido nas actividades do regulador, quer como perito avaliador, quer como responsável da Direcção de Economia do Medicamento”. Foi director-adjunto do Instituto da Qualidade em Saúde e presidente da Direcção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos, liderando, desde 2009, uma unidade na AIBILI responsável pelo “desenvolvimento de metodologias para a avaliação da relação benefício-risco dos medicamentos”.
Malefícios da automedicação
Ficámos a saber, por exemplo, que os fármacos mais utilizados pelos portugueses são “os modificadores de factores de risco de doenças de grande impacto socioeconómico, ou seja, os medicamentos para baixar o colesterol, para a hipertensão, para a diabetes, para a osteoporose e modificadores do sistema nervoso central, como ansiolíticos e antidepressivos”. Os antipiréticos e analgésicos, num registo de automedicação, vêm a seguir. Ficou, também, o aviso, para quem é adepto da dose diária de aspirina, conhecida pelas propriedades que permitem evitar a agregação de plaquetas sanguíneas e posterior criação de trombos: “Para que um doente faça diariamente aspirina em baixas doses, têm que ter sido detectados factores de risco que o justifiquem. Por automedicação nunca se deve fazê-lo, seja em que situação for”.
São muitos os quilómetros que percorre diariamente, peregrinando entre a zona de Aveiro, onde reside, Coimbra, onde trabalha, e Anadia, onde fica localizada a Quinta dos Abibes, santuário vinícola em que dá asas a uma das suas mais prementes paixões. A nossa conversa chega ao fim mesmo a tempo de evitar atrasos para a aula que se prepara para leccionar. Fomos recebidos de forma calorosa e saímos com energia redobrada, inspirados, talvez, por um homem que parece viver todas as suas paixões (e não são poucas!) de forma extremamente intensa. Seja no laboratório, no auditório, ou na vinha, Francisco Batel Marques dá, garantidamente, tudo de si.
Santo Vinho!
A propósito do Vinho Santo, produzido na Quinta dos Abibes no âmbito de parceria estabelecida com o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, Batel Marques trata de contextualizar a sua origem: “O Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, a Rainha Santa Isabel, os milagres, tudo isso faz parte da nossa História, e deve ser-nos muito importante. O Vinho Santo era produzido nas terras de Anadia e Sangalhos, que era dado ao Mosteiro como pagamento pelo aluguer das terras, e seria utilizado com fins medicinais. Com a recente requalificação do Mosteiro foram recuperados os elementos inertes, mas também os vivos, como esse Vinho. Trata-se de construir a nossa história, o nosso património e a nossa cultura”.
O investigador evoca mesmo um episódio ocorrido em plena Guerra Mundial, protagonizado pelo então primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill: “Ele duplicou o orçamento para a Cultura. Quando confrontado no Parlamento sobre essa decisão, tomada em tempo de guerra e de dificuldades extremas, Churchill perguntou ‘e em nome de quê é que nós fazemos a guerra?’, e, na verdade, é em nome da Cultura. É o que nos ancora e nos faz solidários”. Também o Vinho Santo, um Touriga Nacional monocasta de 2009, é um elemento cultural, uma marca identitária que importa conservar para memória futura.
Néctares “topo de gama”
“Acho que o vinho é um elemento cultural estruturante da nossa Civilização, a que está ligada a vinha. Todos temos uma aptidão carinhosa pela terra e até pela agricultura, que infelizmente tão maltratada está entre nós. Se somarmos tudo isto ao facto de o vinho poder ser disfrutado de várias maneiras, há uma mística que é real”, considera. O amor que os homens põem no cuidar da terra e das vinhas, na preparação dos néctares, na dança que partilham com a Natureza, respeitando os seus ciclos, torna a produção vinícola algo de quase poético. “É uma actividade que nos eleva e dá sentido aos nossos anseios, ambições e expectativas. Dá sentido à vida”. Batel Marques não esconde a atracção magnética que esta arte exerce sobre si, nem a complexidade inerente ao vinho. “É um processo de aprendizagem contínua, de descoberta de aromas, sabores e sensações. O mesmo vinho interage connosco de forma diversa e única a cada momento”.
Começou a produzir vinhos na Quinta dos Abibes (Anadia), em 2002, com um projecto implantado de raiz: “Escolhemos a terra e trabalhámo-la bem, para posteriormente seleccionarmos as castas mais adequadas e plantarmos as videiras, a fim de obtermos o perfil de vinho pretendido. É um trabalho de persistência e perseverança, este de fazer vinhos topo de gama”. Um espumante, um vinho branco e um vinho tinto, a que se juntam dois vinhos Reserva de entrada, são o cartão-de-visita da Quinta, que apostou nas castas nacionais, como a Touriga Nacional, a Arinto e a Baga. O espumante é o seu vinho de eleição, por ser “adequado a todos os momentos de uma refeição, seja peixe, carne ou sobremesa. É um vinho que alegra, que nos traz à memória a festa, a alegria e a confraternização”. | FC



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