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O campo, a cidade e a alta tecnologia

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Vítor Manuel da Cruz Lapa veio ao Mundo a 2 de Fevereiro de 1947, em Vilamar, concelho de Cantanhede. É o mais velho de sete irmãos e durante a infância e adolescência viveu em várias localidades, por força da profissão do pai. Antes de se licenciar em Engenharia Mecânica, foi preso pela PIDE e mobilizado para a “Guerra do Ultramar”. Regressou ao país natal depois do “25 de Abril” e, já licenciado, enveredou por uma carreira de gestão de empresas, de docência e de investigação. Casado, com uma filha, e a residir em Leiria, terminou o mestrado e o doutoramento. A reforma surgiu de forma inesperada, devido a um transplante cardíaco a que foi submetido em 2009.

Materiais compósitos e biomédicos são as áreas a que Vítor Lapa se dedicou ao longo de uma carreira de gestor, docente e investigador. Após a reforma, o doutorado em Engenharia Mecânica, continua a colaborar com várias Universidades, nomeadamente com a Universidade de Orlando, nos Estados Unidos da América,  num programa que estuda a utilização de avançados materiais de engenharia em expedições da NASA. Apesar de toda a tecnologia de ponta com que lida, é a calma de Vilamar, em Cantanhede, que mais seduz o professor.

A ruralidade da Gândara parece contrastar com a vida agitada de Vítor Lapa. Mas é a Vilamar, terra que o viu nascer em 1947, que regressa sempre que pode, deixando Leiria para trás durante uns dias. E quando vem visitar as suas raízes e relaxar, fá-lo com o rigor que o caracteriza. Regra número um: telemóvel quase sempre desligado. Quem quiser comunicar com o docente aposentado, terá de o fazer através de correio electrónico.

Não é fácil entender ao pormenor as áreas que Vítor Lapa estuda, pois alguns dos materiais a que dedica a sua atenção ainda não saíram dos laboratórios. Mais fácil de perceber é o tempo e o esforço que a pesquisa requer. Por isso afirma, com uma pitada de remorso, que está “casado há 42 anos e longe da família há 20”.   

Em casa de uma tia que tanto estima, em Vilamar, longe do bulício da cidade, fez uma “viagem” pelas suas memórias de infância. “Memórias extremamente positivas. Aliás, talvez tivesse sido o período mais feliz da minha vida até hoje”. Aponta como a causadora de lembranças tão agradáveis outra mulher: a avó, que praticamente o criou, uma vez que o pequeno Vítor vinha de uma família numerosa — os pais tiveram sete filhos, sendo Vítor Lapa o mais velho. “Já me pediram para apontar uma mulher como exemplo, e eu lembro-me logo da minha avó. Uma coisa que ainda me faz confusão é por que é que eu tive mais desgosto com a morte da minha avó do que com a morte da minha mãe, apesar de também a amar muito”. 

Na companhia da vetusta senhora, aprendeu as lides do campo. “Com cinco anos, já andava a ‘tocar’ um boi, à volta de um poço, para extrair água e ir regar o milho”. Hoje, olhando para trás, não consegue conter as lágrimas, principalmente pela saudade que a falecida amiga lhe desperta.

Deixou Vilamar por altura do segundo ano do ensino primário, indo residir para São João do Campo, onde o pai tinha sido colocado como “chefe de lanço da Direcção Hidráulica do Mondego”. Na nova escola, encontrou um docente temido pela miudagem, cuja disciplina imposta na sala de aula acabou por moldar o carácter de Vítor Lapa. “Era um professor de uma grande disciplina. Portanto, eu habituei-me desde cedo ao rigor e à disciplina”.

Quando ingressou no ensino liceal, voltou a mudar de lar, dessa vez para Coimbra. Foi viver para casa de um tio, professor no Liceu D. João III, o mesmo estabelecimento de ensino que o jovem passou a frequentar. “O meu pai e uns irmãos ajudaram na educação desse meu tio. Em Coimbra, era muito conhecido por Dr. André Vicente Lapa, professor de Histórico-Filosóficas. O meu tio, que não tinha filhos, levou-me a mim e a um primo para sua casa, como forma de retribuir o gesto dos irmãos”.  

No D. João III, o metro e dez centímetros que Vítor Lapa nessa altura media, não dava a entender o dinamismo que lhe “corria” nas veias. Organizava jogos de futebol nos intervalos das aulas e demonstrava os primeiros sinais de líder. Mas também sentiu na pele coisas menos boas. “Era um bocado martirizado, aquilo a que agora se chama de bullying. O problema era só este: o meu tio era extremamente duro e muitos alunos tinham notas negativas. Então, sabendo que eu era sobrinho dele, vingavam-se em mim. Mas eu fisgava-os…”.  

A Crise         

Estudou apenas até ao sexto ano do Liceu e, durante as férias lectivas da Páscoa, em 1964, apercebeu-se das dificuldades por que a sua família estava a passar. “Dois irmãos mais novos já vinham diariamente da Lousã para Coimbra. No ano lectivo seguinte, a minha irmã também ia para o Liceu. Só que o meu pai não tinha possibilidades económicas para pagar três passes de comboio. Devido a este conhecimento, decidi abandonar o Liceu e arranjar emprego”. 

Arranjou trabalho na Companhia do Papel do Prado, na Lousã, exercendo inicialmente as funções de técnico de laboratório e depois as de chefe de refinação. Fê-lo contra a vontade do pai, da mãe e do tio, que nunca aceitaram este facto de ele ter posto os livros de lado. A verdade é que “com o meu ordenado e o ordenado do meu pai, a minha mãe pôde alugar uma casa em Coimbra e os meus irmãos puderam estudar. Eu fiquei com o meu pai na Lousã”.

Aos 18 anos, enquanto trabalhava, aproveitou para concluir as disciplinas do último ano do ensino liceal. “Com o dinheiro das horas extraordinárias, comprei os livros do 7.º ano. Aos 18 anos, fiz Organização Política e Filosofia. Aos 19, Desenho e Ciências Naturais. E, Matemática e Físico-Química, aos 20, altura em que entrei para a Universidade”. 

Tinha em mente seguir Medicina, mas logo abdicou da ideia ao aperceber-se do preço dos manuais médicos escolares. Com os conhecimentos de mecânica, adquiridos na Companhia do Papel do Prado, optou por se candidatar ao Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Vítor Lapa deixou-se imbuir pelos ideais da revolta estudantil e social que “estalou” em França em Maio de 1968. No segundo ano em que estava em Coimbra, no seio da comunidade estudantil, deu-se a famosa “Crise de 69”, tendo sido preso pela polícia do Estado. “Uma certa noite, nos princípios de Maio, cerca das 03h30, estava a sair da Associação Académica [de Coimbra] com uns cartazes e fui apanhado por um elemento da PIDE [Polícia Internacional de Defesa do Estado]. Estive detido em Coimbra durante três ou quatro dias e depois fui mandado para Lisboa, onde estive cerca de dez dias. Entretanto, o meu nome foi considerado ‘P.S.’, escrito a vermelho, que queria dizer ‘Politicamente Suspeito’. Em 1970, foi-me cancelado o chamado período de adiamento, tendo sido obrigado a ir para Mafra”. 

Em sua opinião, o termo “Politicamente Suspeito” com que a PIDE o “carimbou”, deveu-se à sua “maneira de ser. Eu sempre fui contra a ‘situação’. Dava-me com antigos presos políticos e combatentes anti-fascistas, pessoas que estiveram presas, não só em Portugal como até no Tarrafal…”. As suas convicções políticas e religiosas tinham despontado vários anos antes, nomeadamente nos tempos de adolescência, em que lia, às escondidas, livros classificados como subversivos. Quando frequentava a FCTUC, já a sua relação com parte da família estava deteriorada, devido aos ideais que defendia. “O facto de eu pensar de uma maneira diferente da minha família, não implicava que eu fosse irresponsável nos meus actos. Por isso é que sou  sempre exigente, em primeiro lugar comigo, e altamente rigoroso e profissional em tudo aquilo em que meto as mãos”.  

 Depois de ter recebido treino militar em Mafra, foi para Abrantes, como Oficial Miliciano, e mais tarde transferido para Campolide (Lisboa), “onde conheci o Capitão Vasco Lourenço, um homem extraordinário”. Descreve a experiência na capital como “extremamente gratificante. A minha função, como oficial de dia, implicava fazer rondas pela cidade, o que me levou a conhecer muito bem Lisboa e, no fundo, o País, quer política quer socialmente”.

A entrega às suas funções como militar era tanta que Vítor Lapa chegou a alterar a data do seu casamento. “Era para me casar a um domingo, mas tive de antecipar para sábado porque calhou-me estar de serviço no dia do meu casamento”, esclarece.

Em Dezembro de 1971, foi mobilizado para a Guerra Colonial, concretamente para a província de Tete, em Moçambique, tendo embarcado em Maio de 1972. “Fui obrigado a ir para a guerra. Depois de lá estar, e como tinha nas minhas mãos a vida de mais de duzentas pessoas, entendi que era meu dever defender os meus homens e o meu país, mesmo considerando que a guerra era dramática, injusta e indigna”. 

A vida académica e empresarial 

Trinta meses volvidos, regressou a um Portugal que vivia a ressaca da “Revolução dos Cravos”. Concluiu a licenciatura e pouco tempo se passou até começar a dar aulas na Escola Secundária Avelar Brotero, em Coimbra. Dali, mudou-se para a Escola Secundária Rodrigues Lobo, em Leiria, para leccionar Matemática. “Fazia todos os dias a viagem de Coimbra para Leiria e vice-versa”. Como o estabelecimento de ensino leiriense se situava numa zona industrial, conseguiu ser nomeado director de uma empresa. “Entretanto, a minha mulher, também professora, efectivou na Marinha Grande e deixámos Coimbra”. Só em 1980 é que Vítor Lapa, nessa altura já pai de uma menina, se conseguiu estabelecer definitivamente em Leiria, a cidade que o acolhe, até hoje, a si e aos seus.

Dividindo os seus dias entre o ensino e o mundo empresarial, o vilamarense alargou o seu leque de conhecimentos. Exerceu cargos dirigentes em diversas fábricas — de sectores como a maquinaria, os moldes e plásticos, e a cerâmica —, entre elas as Cerâmicas da Madalena e do Liz e a Iberoplás. “Depois comecei a comprar livros de Direito, de Medicina, de Biologia e de Biotecnologia. Eu não tinha férias. O tempo livre que tinha, que era pouco, servia para aprender, efectuando vários cursos tecnológicos e informáticos. Sempre tive uma ânsia e uma vontade de conhecer coisas novas. Essa sempre foi a minha ambição, e é o que ainda hoje me move. Por isso me considero ambicioso, no bom sentido da palavra”. 

Em termos práticos, dominava assuntos tão diversos como informática, mecânica, polímeros (utilizados para a produção de peças em plástico), materiais compósitos (constituídos por vários elementos heterogéneos) e cerâmica, área que já leccionava na Universidade de Aveiro. Em 1990, é-lhe colocado um novo desafio para dar aulas na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria.

A ambição e a ânsia do professor e investigador por novos desafios, catapultou-o para voos mais altos. Primeiro, concluiu o mestrado na FCTUC, dissertando sobre o tema “Técnicas de beneficiação superficial de um aço tratado e seu efeito na resistência à fadiga”. Seguiu-se o doutoramento, pelas Universidades de Aveiro e do Porto, que versou a investigação sobre um polímero, designado por PEEK (Polyether ether ketone com fibras de carbono ou vidro), sendo “o único investigador a nível mundial a fazer investigação neste material compósito de engenharia e biomédico”.

À medida que avançou a pesquisa relacionada com o PEEK, em parceria com um colega, verificou que “as características técnicas deste material eram tais que começou a ser utilizado pela NASA [agência espacial norte-americana] nos vaivéns e robots”. Daí, a parceria que mantém com a Universidade de Orlando, nos Estados Unidos da América, por forma a “fazer a utilização desses materiais [compósitos] nas expedições” da agência espacial.

Porém, em Setembro do ano passado, teve de colocar um ponto final nas suas funções de docente e gestor. “Devido à constante inalação de partículas, fui afectado por uma broncopneumonia dupla que, em 1997, degenerou numa miocardiopatia dilatada”. Depois de vários tratamentos, teve de se submeter, em Julho de 2009, a um transplante cardíaco, nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Neste momento, continua a fazer investigação na área da medicina “tendo uma actividade relativamente boa, mas com muitos cuidados”. “Não posso apanhar muito frio, calor ou chuva. No fundo um transplantado, tal como a maioria dos doentes incapacitados, não passam de sobreviventes”.

Futebol, rugby e guitarradas

Vítor Lapa é um apaixonado pelo “desporto rei”. “Comecei a jogar futebol nos iniciados da Académica [de Coimbra]”. Seguiram-se as experiências no escalão júnior do Clube de Futebol Lousanense e, novamente, na equipa conimbricense que veste de preto. “Depois, joguei nos seniores do Lousanense e no Clube Atlético Mirandense”. Ao ingressar na Universidade de Coimbra, jogou uma vez mais com o emblema da “equipa dos estudantes” ao peito. “O primeiro jogo que fiz pela Académica como sénior foi contra o Benfica”, recorda.

Porque “jogava bem com ambos os pés” ocupava a posição de médio. “Era muito amigo de todos os meus colegas, em especial do Belo e do Quinito. Quando este foi para o Belenenses, eu também era para ir…”. Só não foi por causa da baixa estatura e peso reduzido. “Apesar de ser muito habilidoso, não podia competir com indivíduos com setenta e tais quilos. Eu pesava apenas 52 ou 53 quilos”.

Desiludido com o futebol, não desistiu de praticar desporto e, curiosamente, optou por uma modalidade tipicamente mais agressiva. Com 21 anos, integrou a secção de rugby da Académica na posição de talonador, em que pôde tirar vantagem da sua agilidade. “As bolas eram todas minhas…”.

Em Moçambique, cedeu à tentação de jogar futebol “no Sporting de Tete. Treinava no mato e ia de avião a Tete jogar aos domingos”. Já de volta a Portugal, continuou a calçar as chuteiras, jogando duas épocas no Clube de Futebol “Os Marialvas”, de Cantanhede, e “no futebol universitário”, até aos 30 anos. Mais tarde, descobriu um novo passatempo, hoje levado mais a sério, que é tocar viola, principalmente música country. | LM

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