Manuela, Fabiana e Luísa são os rostos de uma Associação que, apesar de ter sido constituída oficialmente apenas no início do ano, já conta com mais de uma centena de sócios. A defesa dos direitos e da dignidade dos nossos “melhores amigos”, bem como a intervenção juntos dos animais desprotegidos e abandonados, são as principais missões que a “Abrigo de Carinho”, da Praia de Mira, decidiu abraçar.

Ghandi dizia que “a grandeza de uma Nação pode ser avaliada pela forma como os seus animais são tratados”. Se assim for, Portugal está longe de ser uma grande Nação. Se há bons exemplos, como o que damos a conhecer neste texto, esses bons exemplos são, ainda, uma excepção. Os animais, nomeadamente os cães, seres dedicados e sensíveis, capazes do mais incondicional amor e afecto para com os seus donos, são tratados por muitos como coisas, que se podem usar e deitar fora quando deixam de servir. A crueldade desses gestos de abandono choca os mais sensíveis, aqueles que, como Manuela, Fabiana e Luísa, respeitam e admiram os pequenos seres, abrindo o seu (grande) coração para acolher todos os cães do mundo. Esse “Abrigo de Carinho” abstracto, transformou-se, desde Junho de 2010, num apoio concreto aos animais errantes e abandonados da Região.

Com sede na Praia de Mira, a Associação constituiu-se oficialmente em Janeiro deste ano, albergando actualmente mais de duas dezenas de cães, num local que Manuela e Fabiana preferem não identificar: “Temos medo que pessoas maldosas possam ir até lá, com o intuito de maltratar os animais”. Acederam a mostrar-nos a “casa” dos seus “bebés”, sob compromisso de não revelarmos a sua localização nesta reportagem. Acedemos. Afinal, há, infelizmente, muita maldade neste mundo. O espaço não é, de acordo com as duas jovens, “o ideal”, mas tem todas as condições para que os 25 “amigos de quatro patas” sejam felizes. A julgar pela recepção entusiástica de que fomos alvo, felicidade é coisa que por ali não falta. Pulos, pinotes e lambidelas indicam isso mesmo. Retribuímos com mimos e festas, e a dificuldade maior foi conseguir atender a tantas solicitações.

Têm espaço, comida, água fresca, e cobertores. O local é limpo com frequência e as suas necessidades básicas estão satisfeitas. Têm carinho e afecto, coisa que muitos nunca tinham conhecido na sua vida canina, mais habitua-dos que estavam a pontapés e gestos bruscos. São dóceis, afáveis, carentes. Precisam de um lar, de donos que sejam amigos deles e que os respeitem. Não são de “marca”, mas prometem ser fiéis. E ao contrário do que acontece com muitos dos de “marca”, a sua gratidão é infinita, e visível nos seus olhos meigos, quando olham para nós enquanto lhes passamos a mão no pelo. “Obrigada”, parecem dizer.

Uma causa nobre

A história começou há pouco menos de um ano, quando Manuela e Luísa decidiram intervir junto de uma matilha que “assentou arraiais” perto do areal da Praia de Mira. “A matilha estava constantemente a aumentar, os animais reproduziam-se, e aquilo começou a fazer-me aflição. Pensei ‘se ninguém meter mão nisto, como é que vai ser?’, e decidi agir por conta própria”, recorda Manuela. Luísa, que não pôde estar presente, foi a sua “companheira no crime”. Uma veterinária de Mira acedeu, desde logo, a ajudá-las no que estivesse ao seu alcance. Os preços de esterilizações e consultas são “de amigo”, e assim lá foram conseguindo controlar a matilha, evitando que assumisse proporções ainda maiores.

“Ela está sempre disponível e facilita-nos muito o pagamento”, garante Fabiana, que se juntou ao grupo um pouco mais tarde. O objectivo inicial de intervir junto da matilha acabou por se generalizar a todos os cães errantes ou abandonados que se cruzassem nos seus caminhos. A iniciativa de Manuela e Luísa começou a ser divulgada e as pessoas solidarizaram-se com a sua causa. “Começaram a surgir os apoios, os contactos por parte de pessoas que nos alertavam para um ou outro animal que tinham visto por aí, e nós decidimos continuar”, explica Manuela. A formalização da Associação foi o passo seguinte, para que os donativos recebidos e as acções promovidas pela “Abrigo de Carinho” pudessem estar acima de qualquer suspeita.

A popularidade da Associação tem permitido que haja sempre ração para os “pequenotes”, com a comunidade a participar de forma muito activa e empenhada neste projecto. “Tem sido de certa forma surpreendente, o apoio que temos tido. As pessoas têm dado uma grande ajuda, tanto que desde que começámos a recolher os cães ainda só tivemos que comprar alimento uma vez”, confirma Fabiana. “Isso tem-nos dado muita força para continuar”, assume Manuela. Já conseguiram encontrar “família” para alguns animais, sobretudo para ninhadas, já que no caso dos adultos é mais difícil a adopção. Quando perguntamos a Manuela e Fabiana que mensagem gostariam de deixar, a resposta não se faz esperar: “O que nós queríamos era que as pessoas não os abandonassem. Que os tratassem bem e os respeitassem”.

Ao muito tempo que dedicam a esta causa e aos sacrifícios familiares e pessoais que fazem, junta-se a tristeza de não poderem fazer mais: “Há dias em que custa muito, ver aqueles animais ali fechados, apesar de sabermos que estão mais felizes e bem tratados do que na rua. Essa é a parte que dói mais, que gera até uma certa revolta. Mas na verdade sentimos que estamos a fazer uma coisa boa por eles” Apesar das dificuldades enfrentadas, os sorrisos estampados nos rostos de Manuela e Fabiana jamais esmoreceram ao longo da nossa conversa. Defendem uma causa em que acreditam com todas as suas forças, fazem valer os direitos de seres que não têm capacidade para o fazer por si próprios. A recompensa maior é, sem dúvida, a ternura e gratidão que colhem junto dos animais que ajudam. | FC