José Manuel Tovim Malva nasceu em Ançã, a 10 de Outubro de 1959. Filho de um operário fabril e de uma comerciante, aprendeu a tocar guitarra aos 11 anos e nunca mais se desprendeu do “vício”. Na adolescência formou uma banda com mais três amigos que chegou a “dar cartas” no panorama musical português. Foi através de uma empresa sua de aluguer de equipamentos de som e de iluminação que se aproximou do grupo musical Brigada Victor Jara. E não passou muito tempo até ser convidado para integrar a formação de Coimbra como baixista. Além de marido e pai, é funcionário judicial, instrumentista e programador cultural.

É mais conhecido por fazer parte da Brigada Victor Jara, grupo musical que integra desde 1986 como baixista. Deixou-se apaixonar pela música aos 11 anos, mas nunca fez dela profissão. Já trabalhou em várias empresas e desempenhou funções tão diferentes como electricista, carteiro e funcionário judicial. Fomos falar com José Tovim num espaço comercial situado em Ançã, onde é programador de eventos culturais.

Combinámos encontrar-nos com José Tovim no Quintal da Fonte, em Ançã. Pouco faltava para as 21h00 e, enquanto descíamos uma das ruas íngremes que dão acesso ao ponto de encontro, apercebemo-nos do silêncio à nossa volta. O único barulho que se distinguia era o da água que jorrava da famosa fonte ançanense. A poucos metros dali, no café localizado num espaço idílico, fomos recebidos pelo simpático baixista da Brigada Victor Jara.

Na galeria do estabelecimento comercial, decorada com uma exposição de pintura, trocámos umas breves palavras e rapidamente veio ao de cima o apreço em ser natural de Ançã. A água, a pedra, o bolo e o património humano são-nos servidos por José Tovim, não numa bandeja, mas sim com saudável orgulho.

Foi no largo central da Vila, o Terreiro do Paço, que José Tovim passou grande parte da sua infância. Na década de 60 do século passado, “não havia jardins-de-infância, como há hoje. A rua onde crescíamos era o nosso ‘jardim-de-infância’”. 

Por ser pai de uma jovem com 21 anos, consegue estabelecer uma comparação entre a sua infância e a das crianças que nasceram décadas mais tarde. “Penso que antes havia mais imaginação. Nós éramos obrigados a criar os nossos próprios brinquedos e os nossos jogos”. 

Os petizes entretinham-se com brincadeiras mais comuns, mas também passavam horas a jogar a “zoa”, uma espécie de basebol à moda de Ançã. Em vez de tacos, bolas e um estádio, os rapazes recorriam a dois paus e marcavam círculos no chão. Isto, claro, numa altura em que o piso do Terreiro do Paço era em terra batida. “Um miúdo mandava o pau mais pequeno, o tal a que chamávamos de ‘zoa’, a outro rapaz e esse tinha de lhe dar uma pancada com o ‘taco‘, atirando-o para o mais longe possível. Quem atirava o pau mais pequeno tinha de o ir buscar e trazê-lo de volta para o seu círculo. Enquanto o ia buscar, os outros miúdos esfuracavam o círculo dele e roubavam-lhe terra”. No final, perdia quem tivesse o círculo mais profundo. Como se não bastasse ser considerado o menos habilidoso no jogo, o derrotado sofria também uma punição: “A ‘zoa’ era colocada no buraco, com terra à sua volta, e ele tinha de a retirar com os dentes”. José Tovim não consegue conter o riso ao relembrar esses tempos. No entanto, logo de seguida admitiu que se tratava de uma brincadeira violenta.

A música e os estudos

Antes de prosseguir os estudos liceais no colégio Infante de Sagres, em Cantanhede, teve o primeiro contacto com a música na sua terra natal. Tinha 11 anos quando começou a aprender a tocar guitarra no quarto do “grande mestre” Artur Salguinho. “Em muito novo, teve um acidente de trabalho e ficou imobilizado numa cama. Como já era músico, decidiu dedicar-se às aulas. Acamado, deu aulas durante cerca de cinquenta anos”. Os ensinamentos do professor a quem viria a ser atribuído o título de maestro, deram origem à primeira actuação de José Tovim, juntamente com outros jovens, numa festa em honra de São Tomé.

“A ida para Cantanhede não foi muito difícil porque fui acompanhado por alguns colegas daqui [Ançã]. Erámos quatro rapazes e cinco ou seis raparigas”. “Apesar de termos ficado em turmas diferentes, foi extremamente simples fazer novos amigos”. Diz ter integrado uma turma “bastante coesa e com alunos bastante estudiosos”, mesmo não sendo o seu caso, pois classificava-se como “um aluno mediano”. 

Corria o mês de Abril de 1974 quando Portugal assistiu a um golpe militar que derrubou o regime instalado. Haviam-se passado 13 Primaveras sobre o nascimento de José Tovim.   “Apanhou toda a gente de surpresa. Para nós, miúdos, ninguém fazia a mínima ideia do que estava envolvido. A primeira imagem que tenho gravada na minha memória é estar numa aula de Português e entrar a vice-reitora. Transmitiu-nos que tinha havido um golpe de Estado, explicou-nos grosso modo o que tinha acontecido e que as aulas iam ser suspensas naquele dia”.     

Um ano após o dia que “mudou uma Nação”, a guitarra revelava-se a fiel companheira do jovem José. Todavia, quis evoluir e matriculou-se durante um ano em aulas de música, no Colégio São Teotónio, em Coimbra. “Frequentava o colégio em Cantanhede e ia a Coimbra uma vez por semana”. Teve José Luís como professor, músico que acompanhou nomes maiores do fado de Coimbra, entre eles António Brojo e António Portugal. Os últimos anos do liceu foram divididos pelas escolas conimbricenses D. Maria e José Falcão. “Coimbra é uma cidade atractiva, de tal forma que para fazer o antigo 7.º e o 12.º ano foi um martírio”. 

Os quatro fabulosos   

No decorrer da sua adolescência, o ançanense teve a sua estreia numa banda musical. O grupo chamava-se Página 1, sendo composto por amigos seus de Ançã e da localidade vizinha de Pena. Esta nova experiência ficou também marcada pela transição da guitarra para o baixo, o instrumento do qual José Tovim nunca mais se separou.

Os ensaios e os concertos nos bailes decorreram cerca de dois anos, até à criação de um grupo “com elementos exclusivamente de Ançã”. Deram-lhe o nome de Manifesto. “Ançã sempre foi uma terra muito fértil em músicos e jogadores de futebol. Havia, seguramente, três ou quatro grupos no activo, mas nenhum deles era formado a 100 por cento por músicos ançanenses”. 

Os últimos anos da década de 70  mostraram-se como “uma fase em que começou a haver muita liberdade em termos de expressão. Isso fez com que a criatividade florescesse. Havia muita gente a compor e a tocar música. O chamado rock português surgiu nessa altura”.        

Enquadrados nesse movimento musical, os Manifesto começaram por ser um grupo que interpretava temas de outras bandas. “O ponto alto dos grupos, na altura, eram os bailes de finalistas. Aí, os músicos podiam tocar as músicas que gostavam. Tocar Pink Floyd, Camel, Led Zeppelin, ZZ Top… esse tipo de músicas, só era permitido naqueles bailes. Tocar isso num baile de uma colectividade era impensável. As pessoas simplesmente não dançavam e ainda éramos apelidados de alguma coisa má”. Cantanhede, Figueira da Foz, Coimbra, Guarda, Covilhã, Castelo Branco e Oliveira do Hospital foram alguns dos palcos por onde os quatro artistas de Ançã passaram. “Ganhava-se algum dinheiro porque não era necessário declarar nada”. 

O “salto” na carreira do quarteto criado em 1978 aconteceu dois anos depois, por ocasião do festival “Só Rock”, realizado em Coimbra. “Foi um festival com uma visibilidade a nível nacional, com a participação de dezenas de grupos, oriundos do Minho ao Algarve”. O certame funcionava em jeito de “caça talentos” e por eliminatórias, ao longo de três meses. À final, no Estádio Municipal de Coimbra, chegaram 12 bandas, entre elas os Manifesto, com três temas originais. “Ficámos em quinto lugar. Não recebemos nenhum prémio, mas tivemos o prazer de chegar à final e de tocar num palco de dimensões gigantescas”. 

Ainda na ressaca da participação no festival, estava José Tovim deitado no relvado a descansar, quando ouviu uma voz para si inconfundível. Pertencia ao então locutor da Rádio Comercial, Luís Filipe Barros, apresentador do mítico programa “Rock em Stock”.       “Não o conhecia pessoalmente, mas reconheci-lhe imediatamente a voz”. Do encontro inesperado resultaram vários elogios e um convite que o deixou eufórico: “Disse-nos para ligar para a Rádio Comercial para falarmos com ele”. 

A segunda conversa com o locutor originou uma visita a Lisboa por parte dos elementos do conjunto ançanense. Na viagem de regresso a casa, trouxeram com eles a certeza de que iriam gravar o primeiro disco.

O estúdio de gravação foi partilhado com um nome na altura pouco conhecido do grande público: os Xutos & Pontapés. “Foi um grupo que participou, tal como nós, no ‘Só Rock’, e que foi eliminado”. A amizade que nasceu entre os músicos valeu, em 1981, uma vinda dos “Xutos” a Ançã.

De um momento para o outro, o anonimato deu lugar à fama e os quatro amigos decidiram apostar mais na “qualidade do equipamento de som e dos instrumentos”. Algum do material chegou por correio e outro foi comprado directamente no estrangeiro. “Andámos um ano a juntar dinheiro. Ficou combinado irmos a Londres nas férias da Páscoa. E assim foi. Decidimos fazer essa viagem louca, mas a verdade é que não chegámos a Londres. Ficámos em Paris porque encontrámos o que queríamos”. 

Com o novo equipamento musical, “construímos um grupo a sério. Isso valeu-nos fazer primeiras partes de outros grupos do panorama nacional”, tais como Go Graal Blues Band, Lena D’Água, Xutos & Pontapés e UHF.  Porém, em 1983, os elementos decidiram colocar um ponto final nos Manifesto enquanto formação.

O “brigadeiro”

José Tovim e dois amigos mantiveram o nome “Manifesto” e aproveitaram o equipamento de som e iluminação para criarem uma empresa.  Curiosamente, o primeiro contacto com a Brigada Victor Jara deveu-se ao recente negócio dos empresários. “Alguém veio ter connosco e propôs-nos fazer o som de um determinado espectáculo da ‘Brigada’”. “A partir daí, passámos a ser uma das empresas que eles contratavam para o som”. Poucos anos se passaram e, em 1986, o baixista de Ançã entrou para a Brigada Victor Jara como músico, pouco depois de o seu colega dos tempos do rock, Aurélio Malva, também integrar o famoso conjunto conimbricense de raiz popular. “Trabalhar com eles em termos de som já era um privilégio. Ser convidado para pertencer ao grupo, foi uma alegria enorme”. Ambos continuam a integrar o projecto que “roubou” o nome ao cantor chileno assassinado por militares no Chile. José Tovim define-o como “uma escola em termos culturais. Aprende-se muito. Passaram por ali muitos intelectuais e nós temos essas pessoas como referência”. 

A Brigada Victor Jara foi fundada em 1975 e continua em actividade, sendo uma das suas particularidades a rotatividade de elementos. Ainda assim, o legado deixado pelos fundadores, como a cantora Né Ladeiras, permanece bem presente no espírito dos actuais instrumentistas e cantores.

Homem dos “sete ofícios”

Nunca foi pessoa de ficar parada e não se deixou deslumbrar pelo sucesso que atingiu no  difícil mundo da música. O primeiro emprego que José Tovim arranjou foi numa loja de mobiliário na Figueira da Foz, gerida por familiares. Tinha 17 anos e nessa época jogava futebol aos fins-de-semana com as cores do Ançã Futebol Clube.

Daí para a frente, exerceu funções numa empresa de casas pré-fabricadas, num armazém de material de construção civil e na Portugal Telecom. “Depois fiz uns trabalhos esporádicos. Recordo-me de um trabalho na Caixa Geral de Depósitos de Coimbra, em que fiz a microfilmagem das fichas dos clientes”.

No ano em que entrou para a Brigada Victor Jara (1986), era carteiro, experiência que durou uns escassos seis meses, devido à incompatibilidade com a agenda de concertos do grupo musical. Nesse ano, concluiu um estágio para poder ser funcionário judicial, a sua profissão desde 1988.

Os seus dias são agora passados no Tribunal da Figueira da Foz e as noites no Quintal da Fonte (Ançã), um antigo lagar de varas reconvertido em café há menos de dois anos. À semelhança do que já tinha acontecido em outro espaço comercial ançanense, José Tovim é programador de eventos, promovendo exposições e outro tipo de iniciativas culturais. Para breve, espera aproveitar a idílica esplanada como um local para espectáculos de música ao vivo. Já não falta muito para a chegada do Verão e, portanto, esperam-se novidades vindas daqueles lados. | LM 

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