Lurdes Silva nunca foi mulher de baixar os braços, mesmo que a vida nem sempre lhe tenha corrido de feição. De facto, foram as dificuldades por que passou que lhe moldaram a personalidade, tornando-a numa mulher determinada, sem nunca perder o encantador sorriso. Está ligada à Sociedade Columbófila Cantanhedense desde os tempos de juventude, primeiro como atleta, depois como directora e, desde há dois anos, como presidente da direcção.
No mundo do associativismo, tradicionalmente liderado por homens, Lurdes Silva sobressaiu e revelou-se uma figura consensual. A Presidente da Direcção da Sociedade Columbófila Cantanhedense (SCC) veio ao Mundo a 8 de Outubro, o que, em astrologia, corresponde ao signo “Balança”. “Não ligo muito à questão dos signos astrológicos, mas acho que ‘Balança‘ tem muito a ver comigo em termos de equilíbrio”. Um equilíbrio emocional que conseguiu manter “apesar de tudo por que já passei e que já vivi”.
Foi na cidade de Cantanhede que Lurdes Silva nasceu, mas foi logo para a Póvoa da Lomba, a terra natal da mãe, durante um ano e meio. “Depois, como em pequena era muito doente e os meus pais não tinham um meio de transporte, vim para Cantanhede para casa de uma tia e de uma avó paterna”. A razão por detrás da sua permanência na sede do concelho estava relacionada com um problema nas amígdalas, que a obrigava a receber tratamento hospitalar com alguma regularidade. “Atingia febres de 41 graus e tinha de vir logo para o hospital. Por isso é que cá fiquei, pois era muito mais fácil socorrerem-me”.
Entretanto, aos 16 anos, perdeu a mãe e, no espaço de poucos meses, viu falecer o pai. Dois acontecimentos trágicos que acabaram por reafirmar Cantanhede como a residência da jovem. A orfandade obrigou-a a um amadurecimento mais rápido. “É por isso que digo que sou uma pessoa equilibrada. Enquanto que alguns jovens de hoje arranjam a desculpa do desequilíbrio para justificarem algumas situações, como a questão da droga, da prostituição ou das saídas à noite, a mim essas coisas nunca me afectaram. Talvez também pela educação dada pela minha tia e pela minha avó, sempre com regras. Mesmo em termos escolares, andei sempre controlada”.
Pouco se passou até que os papéis se invertessem e ser ela a tomar conta da tia que a acolhera em tenra idade. Hoje, ambas a residir na mesma casa, mantêm uma forte relação de amizade.
O nascimento de uma relação
O desporto sempre foi uma das maiores paixões de Lurdes Silva. “Fugia de casa para ir jogar com os amigos no Bairro Vicentino, onde vivi durante muitos anos, e que era chamado o ‘bairro dos pobres’”. Andebol, basquetebol, futebol e natação eram as modalidades que praticava, sendo que nas duas primeiras foi atleta federada. O prazer que o exercício físico lhe dava era tanto que até ao 11.º ano de escolaridade frequentou a variante de Desporto, com o intuito de prosseguir estudos nessa área. “Com a morte dos meus pais, vi que não teria muita hipótese de seguir Desporto, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, para onde foi grande parte dos meus colegas”. Restavam-lhe, então, duas hipóteses que lhe despertavam interesse: Serviço Social ou Psicologia. Optou pela primeira, uma vez que já desempenhava funções semelhantes na SCC.
Tinha sido através da natação que Lurdes Silva chegara à SCC. De atleta passou rapidamente a funcionária da associação, em Junho de 1986, por intermédio de um programa de ocupação de tempos livres, promovido pelo Instituto Português da Juventude (IPJ). Entre as suas responsabilidades, estava o acompanhamento de “miúdos com problemas relacionados com pobreza”.
Havia concluído o ensino Secundário, tinha arranjado o primeiro emprego e ambicionava inscrever-se no Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra. Porém, tal como já estava habituada, teve de lutar para conseguir completar o curso superior. “Como não tinha dinheiro suficiente e não tinha pais que me pagassem o curso, trabalhei durante alguns anos para poder fazer face aos primeiros anos da licenciatura”.
Antes de ir estudar, ainda trabalhou na delegação de Coimbra do IPJ, embora só durante seis meses. “Era muito complicado, porque saía de Cantanhede às seis da manhã e depois voltava para aqui [SCC]”. A bem da verdade, foi outro o motivo que a levou a colocar um ponto final na sua relação com a instituição conimbricense. “A vida associativa dava-me muito mais gozo. Lá, era tudo muito mais burocrático. No final dos seis meses, rescindi contrato, com alguma pena, até porque ganhava mais do que aqui. Mas aquilo não me satisfazia, não era aquilo que eu me via a fazer no futuro”.
Regressou a Cantanhede, à “sua” “Columbófila”, e continuou a amealhar dinheiro por forma a prosseguir estudos. “Entrei no ISMT e fiz um percurso normal. Só interrompi os estudos durante um ano, em 1999, porque era uma das responsáveis pelo EuroFestival da Juventude”, que nessa edição se realizou em Cantanhede.
Curiosamente, foi enquanto frequentava a licenciatura em Coimbra que a sua relação com a Associação cantanhadense se fortaleceu ainda mais. “O presidente na altura, Alberto Abrantes, amigo que faleceu no ano passado, muitas vezes levantava-se de manhã para me ir levar às aulas. Tomava o pequeno-almoço com a filha, que estudava Engenharia, almoçávamos os três e depois trazia-me de volta a Cantanhede. Há também uma ligação muito forte a esta casa porque tudo me foi dado e permitido para fazer o curso”.
Lurdes Silva recebia o carinho e o apoio da associação onde trabalhava e sempre fez por o merecer, dando provas de um espírito de sacrifício. “As pessoas viam que eu era empenhada. Andei sem tirar férias durante anos e anos. Tudo dei à casa, como ainda hoje continuo a dar. Penso que às vezes me esqueço de mim em prol da ‘Columbófila’. Até mesmo de viver a minha vida e organizar-me familiarmente. Tudo isso acabou por ficar para trás. Por quê? Dá-me um gozo tremendo ver pessoas que não têm possibilidades, tal como eu não tinha quando era mais nova, a irem conhecer o Mundo com os nossos programas de intercâmbio”.
O contributo
Com o “canudo” na mão, a recém-licenciada passou a dedicar-se ainda mais à SCC, gerindo a parte administrativa e começando a assistir às reuniões de direcção. “Quer o Presidente, quer os elementos da direcção não estavam cá, e eu acabava por ser a responsável por tudo o que fazia”. Daí até integrar a direcção, foi um “salto”. “Depois passei a ser vice-presidente das actividades juvenis, desportivas e sociais”.
A Associação nasceu em meados no século XX, pelas mãos de columbófilos, mas rapidamente se expandiu para outras valências, possibilitando a oferta de um leque mais diversificado de actividades à juventude de Cantanhede. Pelo meio, a columbofilia foi perdendo expressão para dar lugar a outras modalidades desportivas. Ciclismo, cicloturismo, natação, basquetebol, voleibol, karaté e ginástica eram as principais actividades desportivas que a Columbófila Cantanhedense oferecia ao público, no início do século XXI.
A vertente desportiva andou sempre de mãos dadas com a componente social, nomeadamente através das iniciativas “Carrinhos dos Brinquedos”, “Visitas Exploratórias” e “Clube dos Tempos Livres”. No caso do projecto “Carrinhos dos Brinquedos”, que Lurdes Silva afirma ter sido “copiado por algumas instituições”, os monitores da SCC visitavam escolas, levando consigo brinquedos e dinamizando várias actividades com os petizes. No que concerne à ocupação de tempos livres, o objectivo passava por “ajudar crianças a fazer os trabalhos de casa. Nós sabíamos que em casa não tinham quem os ajudasse e, em certos casos, nem sequer tinham o que comer”. Mais tarde, devido ao seu sucesso, o clube deixou de ser dirigido apenas às famílias carenciadas e foi aberto a toda a comunidade. “Sempre houve uma preocupação da direcção pela componente social”.
No âmbito desportivo, o ciclismo revelou-se a valência que mais atenção exigia, principalmente quando atingiu o nível profissional. Talvez as gerações mais novas não saibam, mas a SCC foi, ao longo de vários anos, uma equipa que dava “cartas” naquele desporto de duas rodas. Designadamente quando Marco Chagas competia com as cores da Associação. E Lurdes Silva teve um papel muito importante nesse feito. “Foi uma experiência engraçada porque era a única mulher que era directora desportiva, o que me deu alguma luta. Isto de ser mulher no meio de tantos homens é um bocado engraçado e foi mais um desafio. Na ‘Volta a Portugal’, ia para as provas e ficava lá com os atletas e com os treinadores”.
Agora, seis anos volvidos sobre os tempos de “ouro”, a ex-directora desportiva olha para trás com alguma saudade e muito orgulho. O ciclismo “levou Cantanhede para bem longe e a Columbófila tornou–se bem conhecida. Andámos sempre a discutir os primeiros lugares, em termos individuais. Em termos colectivos, era mais complicado. Foi uma experiência gira que começou por implicar 40 mil contos e, no último ano, o orçamento já era de mais de 100 mil contos”. Mais tarde, “quando deixou de haver dinheiro, cumprimos os nossos deveres com todos os que por cá passaram e decidimos suspender a valência”.
O aspecto da gestão cuidadosa do dinheiro é, aliás, constantemente referido por Lurdes Silva. “Sempre foi uma preocupação nossa. Há 26 anos que estou ligada à ‘Columbófila’ e nunca deixámos de honrar os nossos compromissos. É um orgulho e serviu-me de exemplo para a vida: nós vamos até onde podemos, quando não temos dinheiro, paramos”.
Assumiu a presidência da direcção da SCC há sensivelmente dois anos. “Foi muito difícil aceitar este cargo. Primeiro porque gosto de passar despercebida e segundo porque nunca tive a pretensão de vir a desempenhar tais funções. Era funcionária e sempre me vi do outro lado. Embora fosse directora, nunca me vi como presidente. Aceitei porque me foi pedido pelo Alberto Abrantes. Foi das últimas coisas que me pediu antes de morrer e não consegui recusar”.
Confessa que, às vezes, se esquece que é presidente, preferindo continuar a ver-se como uma directora que não tem prurido em “arregaçar as mangas”. Apesar de estarem a ser dois anos “muito preocupantes em termos financeiros”, tem conseguido levar os destinos da Associação a “bom porto”. A exigência na contratação de professores para as várias actividades é um legado que faz questão em manter. Na natação, por exemplo, os resultados são visíveis, com as medalhas e os títulos a sucederem-se em catadupa. Uma realidade que, em parte, se deve à “luta” em que Lurdes Silva participou activamente para que as associações pudessem integrar escalões de aprendizagem. “É nessas idades que se descobrem os talentos”, defende.
Mais de 700 praticantes
No total, a SCC recebe mais de 700 participantes em actividades sociais e desportivas, sendo o hip-hop uma das mais recentes. Na calha, está ainda a inauguração de mais duas valências, o pedestrianismo e a petanca (jogo com bolas de origem francesa), esta última com o intuito de obter melhores resultados em futuras edições do EuroFestival da Juventude.
O último “grande desafio da Columbófila”, e o mais ambicioso, com o cunho pessoal de Lurdes Silva, foi baptizado por “. de partida!”. Em parceria com o Serviço Nacional de Protecção Civil de Cabo Verde, está a ser promovido um programa que consiste na entrega de bens para serem distribuídos na cidade da Praia, capital da ilha africana.
O espaço físico onde as famílias cabo-verdianas podem recolher as doações que partem de Cantanhede chama-se Loja Social. O primeiro contentor seguiu da Gândara em Dezembro do ano passado e, já no presente mês de Abril, foi enviado um terceiro. “Já se projecta a abertura de uma segunda loja em São Vicente”, avança Lurdes Silva, que esteve presente na inauguração da Loja Social da Praia. “Foi uma das coisas que me deu mais prazer fazer”, conta com um ar emocionado. | LM



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