João Maria Ribeiro Reigota nasceu a 12 de Maio de 1954, em Mira. É notório o orgulho com que fala da sua Gândara natal, o amor que nutre pela terra e pela gente sofrida e humilde, que soube contrariar as adversidades e arrancar do solo estéril o seu sustento. Arqueólogo de formação, foi durante largos anos jogador de futebol, tendo passado por clubes como o Febres Sport Clube, o Marialvas e o Ala-Arriba, chegando mesmo a competir nos “Nacionais”. Hoje lidera os destinos do Município de Mira, e é a política que vai dominando a sua vida.  

Gosta de dar longos passeios pela Região que o viu nascer, trilhando os caminhos e o solo que outrora moldaram o espírito dos que por lá se fixaram. Gente de carácter, humilde e trabalhadora, que João Reigota não hesita em elogiar. Assume-se gandarês, vive e respira a Gândara. E foi para defender os interesses dessa Gândara amada que decidiu enveredar pela política activa, liderando os destinos dos mirenses há vários anos.

Recebe-nos no seu gabinete, no bonito edifício da Câmara Municipal de Mira, uma sala de tecto alto, bem iluminada, repleta de alusões à cultura e às tradições da Gândara. Não podia ser de outra forma. Estamos, afinal, na vila que é apelidada de “coração” dessa Região, diante de um homem que jurou honrar e defender o legado de todos os gandareses. Explicamos ao que vamos. O autarca confessa sentir-se, por vezes, pouco à vontade quando se trata de expor a sua vida perante o olhar dos outros. Começamos pelo início, pela sua infância e pelas suas raízes. Aqui mesmo, em Mira, o tal “coração” da Gândara. Logo se liberta e ilumina-se-lhe o olhar. Fala com paixão.

“A minha infância foi passada pelas terras da Gândara, correndo e brincando nestes areais, e acompanhando a labuta dos gandareses, desde Febres a Cantanhede, passando pela Praia de Mira, na conquista de um território inóspito e difícil. Foi algo que me marcou muito”, recorda. A emoção que perpassa cada palavra é quase palpável. “Sente-se, portanto, um gandarês de alma e coração”, indagamos. Não que tivéssemos dúvidas, mas a confirmação daquilo que é, aparentemente, óbvio, faz parte do nosso ofício. “De alma e coração, sim. Totalmente gandarês. Revejo-me nos valores mais profundos da alma gandaresa, valores que me acompanham no trabalho diário e que são projectados naquilo que ansiamos para o futuro”, confirma.

As recordações que guarda da infância e mocidade são felizes, doces, mas não escondem nem renegam a dureza desses tempos: “Eram tempos difíceis, vividos numa Região periférica, em que tudo parecia passar ao lado. As populações sofriam as agruras da vida e dos tempos difíceis, mas a grandeza dessa alma fez com que se ultrapassassem obstáculos para conquistar uma terra, e fazer dela uma terra de valer a pena”, assume. Em sua casa não faltou nunca o pão, mas tudo o que se conquistava vinha à custa de muito trabalho. A expressão “sangue, suor e lágrimas” ganha, na Gândara, uma outra dimensão: “É com muito orgulho que assumo descender de gente muito humilde, gente gandaresa, que tudo aquilo que conseguiu na vida foi à custa de muito trabalho, de muito ‘sangue, suor e lágrimas’, que tão bem se aplica nesta terra. Pertenço a uma família humilde, materialmente falando, mas de uma alma enorme. Recebi dos meus avós e dos meus pais aquilo que de melhor reconheço ter dentro de mim”.

Humildade, simplicidade, respeito pelos mais velhos, pelos “que construíram com muito esforço a comunidade que somos hoje e que herdámos”, são valores que nortearam sempre a vida de João Reigota. Valores que se confundem com a própria areia da Gândara, e que o autarca espera não estarem em risco: “Esta crise que temos pela frente não é apenas material, afecta as relações e os valores humanos, dos gandareses e dos portugueses em geral. É importante que nos consigamos manter fiéis a nós próprios, para podermos continuar a afirmar-nos e a sermos felizes”, considera. Cresceu e estudou em Mira, até ao 5.º ano do Liceu. Com 16 anos foi para Coimbra, frequentar o Magistério Primário, de onde saiu com 18 anos, formado Professor do Ensino Básico.

Arqueologia: a “doença contagiosa”

Da pacata Vila para a grande Cidade, João Reigota aprendeu que vão mais do que algumas dezenas de quilómetros. “Mira era um local em que o convívio, em termos sociais, era limitado. As pessoas levavam uma vida de muito trabalho, de madrugada até à noite, não sobrando tempo para conviver. Chegado a Coimbra, houve uma espécie de choque, mas imediatamente me adaptei. Hoje, o que guardo de Coimbra, são as saudades desses tempos”, garante. Depois de concluído o Magistério Primário, leccionou durante alguns anos, até decidir que era hora de regressar ao papel de aluno. Ingressou, então, na Universidade de Coimbra: “Entrei em História, variante de Arqueologia, com 33 anos. Tentei Direito, não entrei por uma décima, e pensei depois mudar, mas gostei tanto de Arqueologia que acabei por já não o fazer. Acabou por ser uma espécie de doença contagiosa, nunca mais me vi livre dela. A Arqueologia é, realmente, um mundo apaixonante, que nos enriquece e que nos preenche”.

Acabou por aproveitar para aprofundar o seu conhecimento sobre a Gândara, tendo publicado alguns trabalhos e artigos científicos. “Todos os meus tempos livres eram dedicados à investigação na área, inclusivamente nas férias, passadas em família. Quando somos contagiados, também contagiamos, e acabei por passar essa paixão aos meus”, diz. “Tenho feito alguns trabalhos sobre a Gândara, que agora conheço um pouco melhor. É uma Região muito rica em termos de vestígios arqueológicos, sobretudo a zona de Cantanhede, mas é também uma área muito transformada. Os vestígios de civilizações antigas são difíceis de encontrar, só com trabalho muito persistente, de muitos anos. Por entre as vinhas e os pinhais há dezenas de estações arqueológicas que ainda não estão publicadas”, assevera. “Há, ainda, todo um mundo por descobrir”.

Apesar das paixões pela Gândara, pelo futebol e pela ar-queologia, houve ainda espaço para que a política entrasse na vida e no coração de João Reigota. “Tinha 37 ou 38 anos, e senti como que um chamamento local. Por haver esta ligação forte ao nosso torrão, ao nosso espaço, houve quem entendesse, aqui em Mira, que eu reunia condições para protagonizar um projecto de valorização do Concelho e até da Região. Não fui eu que procurei a política, foi ela que me chamou para uma missão local. É a essa missão que tenho dedicado os últimos anos da minha vida”. Assume o seu reconhecimento para com os seus conterrâneos por lhe terem dado oportunidade de ocupar o cargo que ocupa, a presidência da Câmara Municipal de Mira.

Tempos conturbados

Venceu as primeiras eleições em Dezembro de 1993, encabeçando a lista do PS, estando ligado, desde então, à Autarquia: “Estou a fazer o quarto mandato enquanto Presidente de Câmara, a que se junta um enquanto Vereador da oposição. Mira, e o próprio País, cresceu muito. Se víssemos um filme do que era esta Região há 20 anos, assustávamo-nos. Das vias de comunicação, ao saneamento, o atraso era terrível. Hoje, apesar de vivermos tempos difíceis, são dificuldades e crises diferentes das daquele tempo”. A Gândara modernizou-se, fortaleceu-se, ganhou infraestruturas importantes para garantir melhor qualidade de vida à população, o que lhe permite “encarar de forma mais confiante os desafios do futuro”. “Temos muitos projectos e muita dinâmica no terreno, mas temos que respeitar as medidas tomadas em tempo de crise. Daí a dificuldade em dar seguimento a alguns sonhos e projectos que tínhamos, caso do campo de tiro, por exemplo”.

O futuro de João Reigota, no que à política diz respeito, é, para já, incerto. Apesar de não ser afectado pela lei que proíbe mais de três mandatos consecutivos: “Dada a situação actual, não sei o que farei. Há várias questões pendentes, que nos condicionam, como o possível encerramento do Tribunal de Mira, os cortes nas verbas, a própria reforma administrativa local, estamos a ficar um pouco saturados. Neste momento não sei responder se me recandidatarei. Sei apenas que conto estar sempre numa primeira linha de responsabilidades, dando o meu contributo a Mira e à sua gente”. Olhando para trás, o balanço é positivo: “Tenho consciência que algumas coisas ficaram pelo caminho, mas sei que fizemos um bom trabalho. Tenho a consciência tranquila, pois em todos os momentos tentei fazer aquilo que me parecia melhor para o meu Concelho, para a minha terra”.

Não é certo se a política continuará, ou não, a fazer parte do dia-a-dia de João Reigota, mas a arqueologia, essa, terá, quase garantidamente, lugar cativo. “Tenho dentro de mim um grande projecto cultural, para poder dar o meu contributo, por humilde que seja, para a divulgação da riqueza desta Região. Há documentos e trabalhos que poderão sair da gaveta, para que a cultura da Gândara possa ser honrada, bem como os seus grandes vultos, como Carlos de Oliveira. Sou um incomodado constante, quero continuar a compreender as origens e o futuro desta terra e da sua gente”. Os campos arenosos e o mar azul, os pinhais e as lagoas; é na paisagem e na Natureza locais que João Reigota gosta de se perder, em passeios longos, para “recarregar baterias”. “Acho que a vida é uma aventura fantástica e devemos ter humildade suficiente para perceber que o melhor dessa vida, como dizia um grande estadista, é termos um pouco de ternura para levarmos ao coração dos outros. Quando conseguirmos sair do nosso egoísmo e olhar os outros, seremos, com certeza, muito mais felizes”.

Reigota, o Goleador

João Reigota foi jogador de futebol durante mais de duas décadas. Passou por diversos clubes, tendo mesmo representado o Febres Sport Clube na III Divisão Nacional. “Gostei muito de lá estar. Na altura o treinador era o Professor Simões, a quem se seguiu o Curado, da Académica de Coimbra. Fui colega do Jorge Catarino e do Rui Sampaio, entre outros, de quem guardo as melhores referências”. Jogava a ponta-de-lança e marcava muitos golos, o que o transformava numa autêntica “dor-de-cabeça” para os defesas. “Dava aulas na Escola Primária da Fontinha [Febres], tinha 25 anos, e como estava ali perto e tinha lá muitos amigos, fui jogar para o Febres”. Aos 29 anos transita para o Clube de Futebol “Os Marialvas”, de Cantanhede, onde também disputou os “Nacionais”. “A maior parte do meu tempo de futebolista foi, ainda assim, passada no Ala-Arriba, daqui de Mira [sete anos nos “Nacionais” e outros sete nos “Distritais”]. Durante muito tempo andei por aí, no futebol, que conciliava com o ensino”. Uma lesão grave no joelho, num jogo frente à Naval, ditou o seu afastamento dos relvados (e pelados!). Foi quando decidiu que seria uma boa altura para retomar os estudos, regressando a Coimbra, desta vez à Universidade. | FC