São várias as famílias ilhavenses que, aparentemente, possuem objectos que outrora seguiram a bordo do Titanic. Ana Maria Lopes é uma das pessoas que guarda seis colheres de prata que terão pertencido à White Star Line, a proprietária do navio que naufragou há sensivelmente um século. A ex-directora do Museu Marítimo de Ílhavo decidiu revelar um “segredo” que, em pouco tempo, já deu muito que falar em Portugal e no estrangeiro.

A estória é fantástica e, por si só, dava um filme. Nos últimos dias, a vida de Ana Maria Lopes tem sido uma verdadeira “roda-viva” de entrevistas para jornais e para televisões. Como se não bastasse o lançamento da edição revista e actualizada do livro “Moliceiros – A Memória da Ria”, da sua autoria, a antiga Directora do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) tem-se desdobrado para atender às solicitações da comunicação social. A razão para tanto interesse mediático? Ao que tudo indica, a neta de um capitão ligado à pesca à linha do bacalhau herdou seis colheres de prata do Titanic, o transatlântico de luxo que se afundou durante a viagem inaugural, depois de ter embatido num icebergue.

Para se perceber como é que as já famosas colheres chegaram às mãos da ilhavense, temos de recuar a 1912. Segundo a ex-directora do MMI, o bacalhoeiro “Trombetas” zarpou da Figueira da Foz no decorrer de Abril e, tal como outras embarcações pesqueiras, rumou em direcção aos “Grandes Bancos”, ao largo da costa da Terra Nova, no Canadá. Terá sido perto daquela área, onde um mês antes o Titanic naufragou, que em meados de Maio os pescadores encontraram “uma cómoda de madeira a flutuar, com uma gaveta fechada”. Para surpresa de todos, a gaveta continha um conjunto de talheres em prata.

“A 27 de Outubro de 1912”, especificou, o veleiro “Trombetas” atracou no porto da Figueira da Foz, regressado de uma viagem de seis meses. Nesse dia, por desinteresse demonstrado pelo armador, o capitão do barco, João Francisco Grilo, de alcunha “Frade”, “distribuiu os objectos encontrados por vários amigos e familiares”. Um deles, precisamente, o avô de Ana Maria Lopes. “O meu avô era capitão do lugre ‘Golfinho’, à época. Ele e o capitão do ‘Trombetas’ eram muito amigos e ambos chegaram dos ‘Grandes Bancos’ exactamente no mesmo dia”. Em sua opinião, logo aqui se detecta uma coincidência “perfeita de datas e uma aproximação muito grande das rotas do Titanic e dos bacalhoeiros portugueses, então só à vela”. 

A ligação aos temas do mar revelou–se uma constante na vida de Ana Maria Lopes, começando com a licenciatura em Filologia Românica, pela Universidade de Coimbra, em que a tese de final de curso teve como título “O vocabulário marítimo português e o problema dos mediterraneísmos”. “Essa tese determinou a minha vida”. A esse facto, acresce ser membro do Conselho de Administração de uma empresa que actua no ramo das pescas, fundada por aveirenses e também pelo avô, mais conhecido por capitão “Pisco”. Além de ter ocupado o cargo de directora do espaço museológico sediado em Ílhavo, na década de 90 do século passado, é actualmente vice-presidente da Associação dos Amigos do MMI.

Porém, apesar de desde nova ouvir falar em casa “nas colheres do Titanic”, só em 1985 é que começou a pesquisar mais afincadamente sobre os objectos que ostentam uma estrela, semelhante à do logotipo da White Star Line, empresa detentora do malfadado transatlântico. “Não sou especialista em Titanic mas, sobretudo a partir do momento em que o navio naufragado foi redescoberto, tenho lido e visto tudo o que se passa sobre ele”.  

À procura da verdade 

Em 1994, deslocou-se a Londres para visitar a “primeira exposição de artefactos do Titanic retirados do fundo do mar”, patente no The National Maritime Museum (Greenwich). O objectivo, em termos profissionais, era ver “como se tinham comportado os materiais que tinham estado sujeitos a uma pressão de cerca de 3.800 metros de profundidade, durante mais de setenta anos”. A mostra tinha o “carimbo” da RMS Titanic, a empresa que ficou responsável pelas cerca de 5.500 peças recolhidas no oceano Atlântico. Claro que na sua deslocação a Londres pretendia, também, comprovar a autenticidade das seis colheres herdadas. “Havia muita coisa marcada, ou com o logotipo completo ou só com a estrela. Talheres de prata, sim, mas nenhuns iguais às colheres em causa”. 

No entanto, Ana Maria Lopes continuou a acreditar na “tradição oral em Ílhavo” que “é muito forte. E a estória é verosímil”. Em 1994, visitou outra exposição, dessa vez no Porto, e voltou a “não ver talheres com a tal estrela da White Star Line”.

Seria em 2004, em Lisboa, à terceira tentativa de identificação, que se surpreen-deria em frente a uma vitrina exposta num certame sobre o Titanic. Chamou o neto mais velho que a acompanhava e transmitiu-lhe a boa nova: “Há aqui colheres iguais às que nós temos lá em casa” [ver fotografia]. Mais recentemente, em Agosto de 2011, recebeu a visita de um “membro de topo da RMS Titanic”, Christopher Davino, que se propôs certificar a autenticidade das colheres.

Embora reconhecendo que o assunto “continua a envolver um certo secretismo”, Ana Maria Lopes avançou ao AuriNegra existirem “colheres de vários tamanhos e garfos” na cidade onde reside. Todos eles em que a “origem é a mesma”. 

A sua “aventura” tem vindo a ser relatada no blogue que alimenta desde 2008. Nos dias que correm, o assunto já chegou ao estrangeiro, depois de uma equipa de reportagem do canal France 3 ter estado em Ílhavo, no passado mês de Janeiro, para recolher depoimentos e imagens sobre os talheres de algumas famílias.

Em território luso, a estória tornou-se conhecida através de uma notícia avançada pela Associação dos Portos de Portugal. E alguns dos mais prestigiados órgãos de comunicação social portugueses também deram destaque ao tema.

Ainda assim, a herdeira dos seis objectos espera que Ílhavo venha a receber uma exposição sobre o mais famoso navio de todos os tempos. Um desejo que parece fazer todo o sentido.

A Lua “afundou” o Titanic

Até 2012, um enorme icebergue era referido como o único “culpado” do acidente do Titanic. No entanto, dois cientistas norte-americanos apontam o dedo a um novo “suspeito”. Em sua opinião, terá sido uma histórica aproximação da Lua à Terra que colocou a massa de gelo na rota do transatlântico.

No ano em que se evoca o centenário da tragédia que envolveu o Titanic, foi lançada uma nova suspeita sobre a causa por detrás do afundamento. Um recente número da  revista Time dá a conhecer ao público a conclusão de um estudo levado a cabo por Donald Oldson e Russell Doescher, dois investigadores da Texas State University, nos Estados Unidos da América. Os dois autores, alegam que terá sido uma fenómeno natural raro que provocou o naufrágio mais mediático de todos os tempos.

No estudo primeiramente publicado na Sky & Telescope, os dois investigadores recuam até ao dia 4 de Janeiro de 1912, cerca de três meses antes do naufrágio do então maior navio alguma vez construído.

Nesse dia, explicam, o Sol e a Lua alinharam-se com a Terra de tal forma que a gravidade conduziu a um ciclo de marés altas fora do comum — ao fenómeno dá-se o nome de “marés de Primavera”, mesmo que não aconteçam naquela estação do ano. Contudo, em 1912, na altura das “marés de Primavera”, a Lua terá feito a sua maior aproximação à Terra em 1.400 anos, alterando a atracção gravitacional. A juntar a isso, sustentam os autores, no dia anterior (3 de Janeiro) a Terra fez a sua aproximação máxima ao Sol, o que provocou  as marés altas superiores ao normal.

Oldson e Doescher não contestam a tese que indica que as marés altas terão “empurrado” outros icebergues para a zona onde se deu o naufrágio, provenientes da Gronelândia. Porém, já não concordam com a teoria de que todas as massas de gelo vieram de outras áreas do oceano Atlântico.

Na opinião dos norte-americanos, o que se passou foi que, com as invulgares marés altas, um gigantesco icebergue existente no local libertou outros mais pequenos que se terão “intrometido” na rota do Titanic.

Mesmo que se trate de uma teoria praticamente impossível de provar, foi lançada mais uma polémica sobre o navio, contribuindo, certamente, para que a sua fama nunca se “afunde”.   

O maior desastre da história marítima

O Titanic pertencia à White Star Line, uma empresa fundada em Inglaterra, mas que  era pertença da norte-americana International Mercantile Company. A sua construção começou em Março de 1909, tendo ficado completamente pronto três anos mais tarde.

Com capacidade para 3.500 passageiros e tripulantes, era considerado o mais luxuoso transatlântico alguma vez construído. A sua velocidade podia chegar aos 43 quilómetros por hora e oferecia aos passageiros de 1.ª e 2.ª classe verdadeiras mordomias. Uma piscina, um ginásio, restaurantes e livrarias estavam entre o leque de “mimos” que a White Star Line proporcionava aos mais abastados.

A primeira (e última) viagem do navio começou no porto de Southampton, na Inglaterra, a 10 de Abril de 1912, com o capitão Edward J. Smith ao comando. Perto de 2.250 (número que nunca se saberá ao certo, devido a imprecisões na contagem) passageiros terão seguido a bordo com destino a Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.

Na noite de 14 de Abril, o Titanic colidiu com um icebergue, o que provocou o seu afundamento algumas horas depois. Os botes salva-vidas foram lançados ao mar, o que permitiu que mais de 700 pessoas sobrevivessem ao desastre. No entanto, cerca de 1.500 passageiros morreram nas águas geladas do Atlântico, a Sul do “Grandes Bancos” da Terra Nova.

Contrariamente ao que chegou a ser divulgado, a luxuosa embarcação respeitava os critérios do número de salva-vidas, dezasseis, naquele caso. Mas esse número veio-se a provar insuficiente, o que obrigou a uma revisão da legislação.

O navio que era apresentado como “inafundável”, afinal não resistiu sequer à viagem inaugural. Este facto tornou-se, talvez, na primeira ironia que iria contribuir para que o Titanic se tornasse o mais famoso barco da História. Mesmo que só tivesse navegado durante quatro dias. Mas outras estórias continuam a aguçar a curiosidade de milhares (ou milhões?) de pessoas, cem anos depois. De acordo com os testemunhos de alguns sobreviventes, a banda musical do navio continuou a tocar enquanto a obra-prima da construção naval se afundava.

A última sobrevivente do Titanic, Millvina Dean, morreu em 2009. Doze anos antes, em 1997, participou num dos maiores sucessos de bilheteira do cinema: “Titanic”, realizado por James Cameron.

5.500 objectos do Titanic vão a leilão

A colecção de objectos recuperados do infausto navio vai ser leiloada no dia 15 de Abril, data em que se assinala o centenário do naufrágio. Ao todo, são 5.500 peças que estão avaliadas em cerca de 190 milhões de doláres (146 milhões de euros).

Os despojos do navio pertencem, actualmente, à RMS Titanic Inc., responsável por sete expedições ao fundo do oceano Atlântico, entre 1987 e 2004.

Partes do próprio navio, instrumentos musicais, jóias e frascos de perfume estão entre o espólio que irá ser vendido, em Nova Iorque (Estados Unidos da América), pela leiloeira Guernsey Auctioneers.

Por decisão judicial, a detentora dos direitos dos objectos só poderá vender as peças num único lote. Para participarem no leilão, os interessados têm até ao dia 1 de Abril para se candidatarem. O licitador final terá ainda que passar pelo “crivo” de um juiz do Tribunal de Virginia (também nos EUA).

Numa outra iniciativa, a ementa do último almoço servido no Titanic irá ser amanhã (sábado, 31 de Março) leiloada, em Inglaterra. O preço base da relíquia são 120 mil euros, uma pequena fortuna para um menu datado de 14 de Abril de 1912, que foi trazido do navio pela mulher de umas das vítimas. A ementa ficou na posse da família do banqueiro norte-americano falecido e agora irá ser leiloada na casa inglesa Henry Aldridge & Son.

Em Portugal, no dia 13 de Março, a proprietária de umas colheres do transatlântico levou as suas peças a serem avaliadas pela Christie’s. A mulher, que não se quis identificar, entregou os artefactos para apreciação aos peritos da leiloeira britânica, numa iniciativa promovida no Palácio Estoril Hotel. | LM