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Parecem bandos de pardais…

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São às dezenas, para não dizer centenas. É difícil percorrer meia dúzia de quilómetros em terras gandaresas sem “tropeçar” num ciclista. As “pasteleiras” são o meio de transporte de eleição, sobretudo de homens e mulheres de provecta idade, que não trocam as pedaladas diárias pela comodidade do carro ou da motorizada.

Alexandre O’Neill, um dos maiores vultos do surrealismo português, dedicou vários poemas à bicicleta. Não consta que fosse gandarês (nasceu em Lisboa), mas nutria simpatia pelo meio de transporte preferido de muitos habitantes da Gândara. “O homem que pedala, que ped’alma / com o passado a tiracolo /ao ar vivaz abre as narinas: / tem o por vir na pedaleira”, rezava um dos seus poemas. Há quem tenha composto músicas em honra da bicicleta, há, certamente, algures nesse mundo fora, quem tenha como a coisa mais importante na vida a sua bicicleta. Na Região há, pelo menos, quem já não saiba viver sem ela.

Mulheres e homens, muitos já bem curtidos pela idade, revelam uma agilidade desconcertante quando se trata de subir para a bicicleta e “dar ao pedal”. As articulações parecem “desenferrujar” quase que por magia e a familiaridade do gesto é tal que quase podiam fazer tudo de olhos fechados. Não é à toa que o povo usa a expressão: “É como andar de bicicleta”. Afinal, depois dos primeiros tombos, não se esquece nem se desaprende, passem os anos que passarem. A tradicional “pasteleira” é companheira inseparável de centenas de gandareses, não só porque é um meio de transporte económico e amigo do ambiente, mas também porque os terrenos pouco acidentados da Região são propícios a essa forma de deslocação.

A sensação de liberdade, o vento a bater no rosto, o tal “ar vivaz” que abre as narinas e revigora o espírito, tudo foi contribuindo para generalizar o uso da bicicleta. Para além do mais, fortalece o corpo e a alma. Pelo menos é o que diz um estudo realizado numa Universidade alemã. “Pedalar é um dos maiores antidepressivos”, dizem os investigadores. Então é mesmo disso que os portugueses precisam, para contrariar o pessimismo e as depressões que esta crise tem trazido. Ponham os olhos na Gândara, pois então! O corpo, o espírito e a carteira agradecem. | FC

Júlio Fajado Vilão, 81 anos, Tocha

“Sempre andei de bicicleta”, diz com orgulho. Talvez seja esse o segredo para a sua excelente forma física, apesar de estar a caminhar a passos largos para os 82 anos. Júlio Vilão, homem de bom-humor, nasceu em Quiaios e depois foi viver para Pedros, também no concelho da Figueira da Foz. A partir dali, perdeu a conta ao número de vezes que pedalou até ao Cabo Mondego para trabalhar na extracção de carvão. Da actividade mineira passou para os Estaleiros Navais do Mondego, mas o meio de transporte com que se deslocava permaneceu o mesmo.

“Quando eu era novo havia muita gente a andar de bicicleta. Mas só as comprava quem tinha dinheiro”, ressalva. “O meu falecido pai vendeu 60 alqueires de milho para comprar uma bicicleta nova”.

Com o casamento, mudou-se para a Tocha, onde ainda hoje reside. Há muitos anos, antes de entrar para a Polícia de Segurança Pública, ainda andou no Choupal, em Coimbra, como serrador. Uma vez mais, as deslocações eram feitas na sua “velha amiga”.

Júlio Vilão afirma só recorrer aos dois automóveis que possui para viagens mais longas. De resto, segue o conselho dos seus familiares. “Tenho um filho e dois netos que são médicos e que me aconselham a andar de bicicleta. Dizem-me que mais vale andar meia-hora de bicicleta do que duas horas a pé”. O conselho dos clínicos é seguido à risca e parece estar mesmo a dar um bom resultado.

Garcia Bernardes Guímaro, 65 anos, Tocha

Qualquer entusiasta de bicicletas fica deleitado ao entrar na oficina de Garcia Guímaro. Há-as ali para todos os gostos, desde as indicadas para crianças como para adultos.

O proprietário da loja de reparação já não pedala tanto quanto gostaria, devido a problemas de saúde. No entanto, a paixão com que desempenha o seu ofício é a mesma desde o dia em que abriu a sua oficina, corria o ano de 1975.

“Ainda há muitas pessoas que mandam arranjar as bicicletas antigas. Isto porque o combustível está muito caro…”. No entanto, tem notado que são os coleccionadores os que mais procuram pelos modelos de outros tempos, “com roda tamanho 28”, conhecidos como “pasteleiras”.

O solo plano da Gândara fez daquele meio de transporte o mais apropriado e o mais utilizado por várias famílias durante décadas. “A malta ia de bicicleta às festas da Praia da Tocha”. E lembra-se perfeitamente dos peixeiros que iam à Figueira da Foz, regressando com caixas cheias de sardinhas, colocadas em cima dos suportes metálicos das “pasteleiras”.  “As mulheres iam buscar a ração, os adubos e os sacos de batatas, às vezes com 50 quilos”.

De acordo com Garcia Guímaro, as marcas mais comercializadas antigamente eram a Marsan, Mauper, Humber e Sangal. “Agora é que está tudo rico, só se vêem carros”, observa.

Rosa Oliveira, 71 anos, Fontinha

Desde pequenina que Rosa Oliveira anda de bicicleta, e acredita não haver segredo para se conseguir continuar a pedalar com o avançar dos anos. “Andar a pé, sem a bicicleta, chega a custar mais ainda”, garante.

Faz diariamente alguns quilómetros na sua bicicleta, não dispensando os dois cestos em verga para transportar mercadorias diversas. Pelos caminhos da Freguesia lá vai Rosa Oliveira, exercitando os músculos e inspirando o ar puro.

Trocar o velocípede por outro meio de transporte, como por exemplo um carro, está completamente fora de questão: “Nem sequer tenho carta, nunca aprendi a guiar”. Por isso, e porque já não consegue separar-se da sua companheira, continuará a pedalar enquanto as pernas lho permitirem.

Maria Augusta de Jesus Cardadeira, 75 anos, Febres

De avental axadrezado e mala na mão, Maria Augusta lá vai rua fora, empurrando a sua bicicleta. Damos uma pequena corrida para a apanhar, decide parar e esperar por nós. Anda de bicicleta desde miúda, “ainda andava na escola”, mas a sua primeira “pasteleira” foi-lhe oferecida anos mais tarde, “pelo meu marido, que Deus tem”. Desloca-se para todo o lado na sua “menina”, para perto, dentro da Freguesia, e para mais longe, “para Vilamar, São Caetano, Covão do Lobo, ainda dou umas grandes voltas”, garante.

De Febres a Covão do Lobo ainda vão seis quilómetros, mais seis para regressar a casa. Contas feitas, há dias em que Maria Augusta faz mais de 12 quilómetros. E já leva 75 anos. Ainda assim, não lhe doem as pernas nem se queixa dos ossos e maleitas afins: “Parece que me dá força, isto”.

Leva uma vida dedicada à agricultura e há alguns anos era comum vê-la passar “com feixes de couves à cabeça”. Quando chove torna-se mais complicada a condução do veículo, “pois tenho que levar o guarda-chuva numa das mãos, para não ficar encharcadinha”, mas com os anos de prática lá vai conseguindo. “Graças a Deus nunca dei nenhuma queda nem tive nenhum acidente”. Que a sua sorte não mude, é o que desejamos.

Maria Isília da Cruz Manata, 62 anos, Pedreira

“Desde os sete anos que ando de bicicleta. Aprendi com o meu pai, na bicicleta dele, mas assim a andar de lado, pendurada no quadro. Não me atrevia a subir para cima dela, que era muito pequena ainda”, recorda. Mais tarde teve direito a uma bicicleta só para si, aos 12 anos, quando começou a trabalhar: “Ia para Cantanhede, andava lá aos dias a ganhar o pão. Foi então que o meu pai me comprou uma bicicleta”. Todos os dias, durante anos, foi esse o seu itinerário. “Íamos de manhã e vínhamos à noite. Durante o dia cavávamos vinha”, relembra. Fizesse sol ou chuva, calor ou frio, Maria Isília lá ia, montada na sua bicicleta, percorrendo os caminhos Gândara fora.

“Se chovesse a roupa enxugava no corpo”, brinca. Assume que hoje a sua “pasteleira” não é o seu único meio de transporte, mas para distâncias curtas é o predilecto. “Tenho uma bicicleta eléctrica, pois às vezes já me vão doendo as pernas de pedalar”. Ainda assim, para ir da Pedreira ao centro da vila de Febres, não prescinde da companhia da sua velhinha “amiga”: “É uma maravilha, faz-nos muito bem e trabalha os músculos. É melhor que andar de carro, faz melhor e sai mais barato”. A despesa com a “pasteleira” não chega à que se tem com a manutenção de um automóvel, mas as idas ao mecânico também são necessárias: “Ainda agora levou duas câmaras e dois pneus novos, para andar como se quer”. Apostamos que o investimento ficou muito aquém daquele que teria que suportar se a “revisão” fosse feita num carro.

Maria Idalina Santos, 79 anos, Arrancada

“Desde os 15 anos que ando de bicicleta”, diz Maria Idalina. Aos 79 anos, a sua energia é contagiante. “Ia trabalhar para as terras, com feixes à cabeça e na bicicleta, com o almoço também, com os meninos ao colo”, atira, deixando-nos sem palavras por alguns instantes, enquanto tentamos visualizar a imagem daquela mulher carregada de couves, marmitas e crianças.

Ali ao lado, as amigas e colegas nas aulas de actividade física para seniores confirmam com acenos de cabeça. “É verdade, também eu andei assim. Andávamos com feixes de erva em cima da cabeça, sem mãos a segurá-los nem nada”, partilha uma delas. Parece-nos um arriscado exercício de equilibrismo, por isso aconselhamos: não tente essa acrobacia em casa.

“Tínhamos uma ginástica incrível…”. Ainda hoje Maria Idalina trabalha nos campos, mas os tempos de transportar feixes à cabeça já lá vão. Quanto à sua companheira de aventuras, não pretende separar-se dela tão cedo: “A bicicleta leva-me para todo o lado. Se paro de andar de bicicleta acaba a minha vida”. Nunca conheceu outro meio de transporte, apesar da insistência dos filhos para que comprasse uma motorizada. Apesar de alguns arranhões e um ou outro braço partido, nem pensar em arrumar a bicicleta: “Nada disso! Eu caio, eu levanto-me”.

Palmira Rua Soares Vicente, 65 anos, Sanguinheira

Palmira Vicente anda de bicicleta desde que se lembra: “Foi uma vida toda a andar de bicicleta, desde pequenita”. Tem uma mota mas a bicicleta continua a ser o seu transporte predilecto. “Poupa-se no combustível, que está muito caro. E além do mais faz bem à saúde. Nestas idades sofremos mais, e o exercício faz-nos muito bem”.

Da Sanguinheira para o trabalho, em Balsas, e de lá para Febres. Até Covão do Lobo, concelho de Vagos, quando a necessidade o dita. “Faço estes percursos assim. Trabalho numa vacaria há mais de 20 anos, em Balsas. Não sei quantos quilómetros faço, mas devem ser uns poucos”. Mesmo quando chove: “Estamos habituados a andar de bicicleta, por isso não nos custa nada”.

Licínio Jesus Miranda, 67 anos, Barracão

“Comprei a minha primeira bicicleta no Barracão, tinha uns 15 anitos”, revela Licínio Miranda. “Vivi 40 anos em França, perto de Paris, e mesmo lá andava de bicicleta”. Há oito anos que decidiu regressar à Gândara natal, percorrendo todos os dias perto de sete quilómetros, sobretudo “entre Febres e S. Caetano”. Quando está de chuva, é a mesma coisa: “É como ter um carro descapotável”, brinca.

A boa disposição mantém-se quando lhe perguntamos se nunca pensou render-se às comodidades do automóvel: “Este é que é o meu táxi. Poupa-se muito no combustível, mas também é verdade que às vezes temos que largar algum dinheiro na oficina”, assevera. Garante que as reparações não são baratas mas, bem vistas as coisas, os prós superam largamente os contras.

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