Leonor Parreiral tem uma característica peculiar: uma facilidade imensa em fazer as malas e partir. Rumo a outro País, a outra paixão, em busca de outro sonho e de outra vida. Fê-lo quando trocou França por Portugal, ainda que por imposição dos pais, e quando deixou Portugal e rumou à Suíça. Voltaria a fazê-lo quando se mudou para os EUA, e novamente no regresso a Portugal. Por estes dias, fixou-se em Ançã e dá asas à sua paixão artística: a fotografia. Mas não se surpreenderia se, um dia, voltasse a sentir o desejo de partir. O destino, esse, será onde a levar o próximo sonho. 

As memórias de infância de Leonor Parreiral reportam, naturalmente, a França, o país que a viu nascer e onde viveu até aos 13 anos de idade. Recorda as brincadeiras na rua, com bandos de outras crianças, e a relação próxima, de quase adoração, que tinha com a sua irmã mais velha, Rita. “A Rue Blanche era um recanto de aventura, cheio de outras crianças, de várias nacionalidades. Estávamos sempre a brincar na rua, onde existia um pátio, um antigo mosteiro com uma igreja gótica de acesso proibido, muralhas, uma passagem secreta para quintais e espaços verdes, onde de cerejeiras enormes pendiam baloiços artesanais. Enfim, era um sítio ideal para brincadeiras”, conta.

Leonor e Rita eram muito amigas, partilhavam tudo. “Menos os doces, a minha irmã era muito gulosa”, brinca. “Aventurávamo-nos juntas em todas as brincadeiras. Algumas eram um pouco arriscadas, como quando íamos apanhar fruta aos pomares, correndo o risco de que as vacas e bois corressem atrás de nós, como chegou a acontecer”. As bonecas e as conversas de meninas não interessavam muito a Leonor. Preferia jogar à bola, ou às escondidas, mas não se considera “Maria rapaz”. “Adorava, vestidos, saias e acessórios de menina”, diz. Outro dos seus entreténs de infância passava por “explorar um lar de idosos gerido por freiras, onde a minha mãe trabalhava. Animava os velhinhos com peças de teatro, cantando e lendo histórias”.

Portugal era, por esses dias, destino de férias. “Vinha praticamente todos os anos a Ançã, os meus pais sempre fizeram questão de que conhecêssemos a terra deles, a cultura e a família. Era muito diferente, Autun era bastante mais avançada e a própria mentalidade das pessoas era diferente”, relembra. Apesar das diferenças, Leonor gostava das visitas a Portugal, das brincadeiras com os amigos, da descoberta de novos primos e primas em cada esquina de Ançã. Até que, aos 13 anos, o cenário das férias passa a ser o seu mundo do dia-a-dia: “Os meus pais decidiram regressar. Coincidiu com um período em que queria ser bailarina, aprender bailado, e fiquei muito triste. Acabei por desistir completamente da dança”.

Divergências linguísticas

A vinda para Ançã deu-se num período particularmente complicado, numa idade em que é especialmente difícil deixar para trás amigos e hábitos. “Foi como se me tivessem cortado as pernas, a integração nessa idade é sempre um pouco complicada. Cá comecei por sentir que só tinha dificuldades e não tinha nada que me apoiasse. Sobretudo no Português”. No ensino secundário, em Cantanhede, as aulas eram um suplício. As bases que tinha da “Língua de Camões” eram insuficientes para acompanhar o discurso dos professores. “Quando era chamada a ler nas aulas, era a risota geral. Era com cada calinada… Mas nunca reprovei. Em França era excelente aluna e acabei por conseguir acompanhar”, assume.

Leonor ultrapassou todas as adversidades e acabou por entrar em Psicologia, na Universidade de Coimbra. Isto depois de ter sonhado ser médica, veterinária e bióloga. Cedo percebeu que o seu destino não era ser psicóloga, momento em que mudou para a ARCA – Escola Universitária das Artes de Coimbra, para o curso de Artes Plásticas. Em simultâneo, foi fazendo cursos e formações na área da Fotografia. Mas o gosto pelas formas de expressão artística vem ainda dos tempos de França. “Em miúda tinha bastante jeito para desenho e pintura, tanto que aos dez anos ganhei um prémio de carácter nacional. O desafio era pintar o local onde vivia. Pintei a minha rua, com as outras adjacentes, incluindo a catedral de S. Lázaro, com cores vivas e luminosas”. A sua interpretação da Rue Blanche valeu-lhe um prémio e deixou, desde então, o bichinho da pintura dentro de si.

Enquanto estudante na ARCA participou num outro concurso, promovido internacionalmente pela Alliance Française, que também viria a vencer. O seu quadro integrou exposições em diversos locais, viajando de tal forma que Leonor acabaria por lhe perder o rasto: “Era um prémio para estudantes e o tema eram os direitos humanos. A uma dada altura não fazia ideia de onde andava o meu quadro”, brinca. Ao mesmo tempo ia aprofundando o seu interesse pela fotografia: “Lembro- -me de o meu pai ter uma máquina fotográfica, e eu gostava muito quando saíamos ou íamos dar um passeio e tirávamos fotos uns aos outros. Quando tive oportunidade de ter uma máquina minha, nunca mais a larguei”.

De malas aviadas

O curso na ARCA acabaria por ser interrompido, já que o espírito inquieto de Leonor tinha na ideia um novo projecto. “Fui desistindo de algumas coisas, parando e regressando a outras, enfim… feliz ou infelizmente fui vivendo várias experiências a nível profissional”, desabafa. No seu olhar vislumbramos, por instantes, o brilho de quem não desistiu, mas sim mudou de rumo. Correu atrás de um sonho novo, tentou dar vida a uma nova paixão. E, por isso, fez as malas. “Fui para a Suíça, onde vivi três anos. Estudava Artes, fiz cursos de Desenho e Pintura, e também trabalhava”. Quando lhe perguntamos o que a move, o que a faz trocar um país por outro e o que tem por garantido por aquilo que poderá vir a ser, Leonor tem dificuldade em encontrar palavras para explicar o que lhe vai na alma.

“Sou uma sonhadora, sempre fui. Quando não estou feliz, não estou bem num sítio, tenho que mudar. Sei que nem todas as pessoas o fazem, mas não conseguiria viver de outra forma”, partilha. “Adapto-me bem em qualquer lado e em qualquer ambiente. Sou uma pessoa simples, tão depressa estou a falar com o doutor, como com o agricultor. O segredo é ir ao encontro daquilo que sinto”. Na Suíça começou a desenvolver uma nova paixão: a Arquitectura. Voltou a Portugal e à ARCA, onde frequentou Arquitectura. Depois de uma visita aos Estados Unidos da América para o baptizado de um familiar, decidiu que o local merecia um segunda visita, por conta própria: “Decidi ir lá nas férias, não com o intuito de ficar de vez. No entanto fiz amizades marcantes”, revela, com a voz embargada.

“Tinha lá a minha única irmã e fui ficando. Acabei por perder o início do ano lectivo cá e decidi, então, ficar por lá”. “Lá” é Newark, estado de Nova Jérsia, onde é sobejamente conhecida a comunidade de portugueses. Ingressou na Universidade de Kean, estudou (do princípio ao fim) Arquitectura e Design de Interiores, e por lá continuou, dedicando-se também à fotografia. “Lá vivi muito dividida entre a Arquitectura e a Fotografia. Acabei por ir conciliando os dois. Nunca pus a máquina de lado e ia sempre dando uma ajuda a colegas que tinham estúdios”. Em 2004 regressou a Portugal, com a ideia de abrir um ateliê de Arquitectura e Fotografia. Antes disso, trabalhou durante alguns anos como arquitecta numa grande empresa nacional de pavimentos e revestimentos. “Não durei lá muito tempo… gosto de crescer, de inovar, de trabalhar. Lá havia muita inércia, não me adaptei muito bem”.

Escrita de luz

Foi quando decidiu abrir o seu próprio estúdio. Tem trabalhado sobretudo na área da fotografia, apesar de colaborar nalguns projectos de arquitectura. “Em tempos dedicava-me à Arquitectura e a Fotografia ficava em segundo plano. Hoje é o contrário”. Fotografa sobretudo eventos e faz alguns trabalhos de estúdio, “acaba por ser o que paga as contas”, mas a sua veia criativa fá-la pender para o campo da fotografia artística e de paisagens. Já expôs por diversas vezes, contando entre a mais marcante uma exposição que fez em Nova Iorque. “Foi numa galeria para artistas de renome. Marcou-me muito. Foi uma exposição sobre os Descobrimentos, sobre Portugal e o Mundo. Era muito simbólica e teve críticas muito boas”.

Figueira da Foz, Golegã e Ançã foram outros locais onde gostou de expor, tendo actualmente uma mostra de 30 imagens de sua autoria na Casa Municipal da Cultura de Cantanhede [ver caixa]. Quanto ao futuro e à possibilidade de voltar a fazer as malas, Leonor deixa todas as opções em aberto. “Neste momento quero ficar por aqui mais um bocadinho. Não posso dizer que me sinto propriamente ançanense, mas também nunca me senti francesa ou americana. Sou uma cidadã do mundo, gostava de viver em vários sítios”. Caso volte a ter que partir, há algo que jamais deixará para trás: “A minha máquina fotográfica irá sempre comigo. Levarei também algumas fotografias das pessoas que me são queridas”. Para que o coração não esqueça quem os olhos deixam de ver.

Estranha forma de vida

Durante o período que viveu nos EUA, Leonor Parreiral privou com uma das maiores figuras da cultura portuguesa, Amália Rodrigues. “Foi muito especial para mim. Ela esteve na minha exposição em Nova Iorque, foi um dos últimos actos públicos a que assistiu [faleceu pouco depois]”. Leonor foi uma espécie de fotógrafa oficial de Amália durante dois anos, acompanhando as visitas que a diva fazia à “terra do Tio Sam”. A relação profissional deu lugar a uma bonita amizade. “Tínhamos amigos comuns. Fotografei-a em estúdio, entre amigos e em convívios privados, e também em ocasiões públicas. Recordo que era uma mulher muito aberta, muito querida e acessível, que não mudava a sua maneira de ser ou a sua postura por ser figura pública”.

A fotógrafa cresceu a ouvir Amália, artista muito apreciada em França, sobretudo depois do memorável concerto que deu na década de 50, no Olympia de Paris. “A Voz de Portugal”, como ficou conhecida, “não gostava de ser fotografada, por isso eu respeitava muito a sua privacidade e os momentos mais íntimos. Admiro-a muito, enquanto artista e enquanto mulher”. Leonor guarda dezenas de fotografias de Amália Rodrigues, mas não tenciona expô-las: “Já pensei nisso, mas sinto que é um tesouro que tenho que preservar, sobretudo pela amizade que acabou por nos ligar. Parece-me que poderia ser entendido como oportunismo da minha parte, usar a imagem de Amália para impulsionar uma exposição”. | FC