É uma figura que gera consenso por terras gandaresas no que a literatura diz respeito. Idalécio Cação, escritor, com uma vasta obra publicada, vai tornar-se o patrono de um prémio que pretende estimular a produção literária. A iniciativa surge no âmbito das comemorações do centenário da criação da Paróquia de São Caetano.

É já no próximo dia 17 de Março que o Centro Equestre de São Caetano vai acolher a apresentação do Prémio Literário Idalécio Cação. Integrado num vasto conjunto de iniciativas comemorativas do 100.º aniversário da elevação de São Caetano a paróquia, o galardão assinala os 50 anos de carreira do seu patrono.

Segundo os organizadores, o projecto resulta de “uma conjugação esforços e de vontades que nasceu na Paróquia e Junta de Freguesia de São Caetano, mas que se estendeu entusiasticamente à Região”, concretamente às Associações de Pais da Escola Secundária de Cantanhede e dos Agrupamentos de Escolas Marquês de Marialva (Cantanhede), Finisterra (Febres) e Mira e aos municípios de Cantanhede, Mira e Figueira da Foz.

Um dos objectivos passa por incentivar a produção literária gandaresa e assim contribuir para a “defesa e enriquecimento do linguajar desta região”. Mas a organização também pretende promover a criatividade no campo da escrita.

O escritor e seu amigo João Cruz, que assina as obras sob o pseudónimo António Canteiro, é apontado por Idalécio Cação como um dos principais dinamizadores da iniciativa. “Ele é um chato que me anda sempre a empurrar para a frente”, brinca.

De facto, a escolha do escritor septuagenário para ser homenageado não foi feita por mero acaso. O patrono do prémio literário já publicou 12 livros e o tema é invariavelmente o mesmo. “Eu não sei escrever sobre outra coisa. Desde crónicas, romances, contos e um glossário sobre termos gandareses, a Gândara está sempre presente”. 

Para Idalécio Cação, o verdadeiro valor que espera obter do galardão homónimo “é desencadear, sobretudo junto dos mais novos, o vício pela escrita”. Na sua maneira de ver, a procura por uma nova geração de autores faz todo o sentido, até porque “um país onde não se escreva, é um país atrasado”. 

Quanto ao sucesso do projecto, o escritor mostra-se confiante, apesar de reconhecer que “por vezes, as pessoas tenham um certo receio em se exporem à escrita”. Sensível a isso mesmo, porque ele próprio já esteve nesse papel, lança um incentivo aos potenciais candidatos, dizendo que “não devem ter medo”. 

Regras do prémio

O AuriNegra teve acesso ao regulamento do prémio que homenageia um escritor aclamado, cuja inspiração provém de uma Gândara composta pelos concelhos da Figueira da Foz, Montemor-o-Velho, Cantanhede, Mira e Vagos. Aliás, uma das primeiras regras prende-se com a temática dos textos, que deverão ter “como pano de fundo a região da Gândara”.

São dois os escalões etários que poderão participar no concurso que terá como modalidade de escrita o conto. Por adultos, são entendidas as pessoas com idade superior a 18 anos e, por jovens, as que completem 18 anos até ao dia 31 de Agosto de 2012. Serão admitidos escritores de todo o País, de países de expressão oficial portuguesa ou oriundos de outras latitudes, mas que escrevam em Língua Portuguesa.

O vencedor do “Prémio Adulto do Conto” receberá uma quantia monetária de 500 euros, ao passo que a primeiro lugar do “Prémio Jovem do Conto” ganhará 400 euros. Embora não seja uma certeza, os vencedores de ambos os escalões habilitam-se a verem a sua obra editada, não havendo, contudo, “lugar a pagamento de direitos de autor”. “O júri, se assim o entender, poderá ainda atribuir menções honrosas, até ao limite de duas” em cada uma das categorias. Nestes casos, o valor atribuído consistirá em 100 euros, aos quais se juntará a eventualidade de edição do conto.

Por seu lado, os concorrentes terão até ao dia 31 de Agosto de 2012 para apresentarem os contos. De acordo com o regulamento, as obras deverão ter um “número máximo de dez páginas e o mínimo de três”. A cada um dos candidatos ser-       -lhe-á dada a oportunidade de apresentar mais do que um trabalho, desde que em cada um deles utilize um pseudónimo diferente. Ainda assim, haverá apenas espaço para “um prémio, que o júri entender atribuir no âmbito deste regulamento”.

Relativamente ao júri, este integrará Idalécio Cação, bem como representantes das entidades envolvidas no projecto. A divulgação das decisões do jurados acontecerá “na primeira quinzena de Novembro de 2012”.

“Mestre das letras gandaresas”

Idalécio Cação nasceu a 22 de Março de 1933, em Lafrana, freguesia de Moinhos da Gândara (Figueira da Foz). “O lugar onde nasci faz fronteira com o concelho de Cantanhede, de maneira que costumo dizer que sou mais cantanhedense do que figueirense”.

Reside no distrito de Aveiro desde 1954, tendo ali trabalhado durante 25 anos numa empresa do ramo da celulose. “Vinte e cinco anos perdidos”, analisa com uma ponta de arrependimento. Enquanto trabalhador, decidiu aventurar-se no ensino Superior, licenciando-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Leccionou na Universidade do Minho e na de Aveiro, até se reformar em 1996. Pouco antes da aposentação, promoveu um curso de escrita criativa. Dos cerca de 20 alunos que se inscreveram, dois deles tornaram-se escritores: João Cruz e António Castelo-Branco, hoje conhecidos autores gandareses. O que leva o professor a pensar que o curso “não foi tempo mal empregado”. Não foi tempo desperdiçado e Idalécio Cação espera encontrar novos talentos a partir do próximo dia 17 de Março.

Apelidado de “mestre das letras gandaresas” por muitos dos seus pares, desenvolveu ao longo dos anos uma ideia do que significa ser escritor. “Ser escritor é ser comedido e saber entroncar a vida e as suas vivências naquilo que escreve. Costumo dizer que a escrita contém sempre uma lição de vida. Sou incapaz de escrever qualquer coisa que não tenha sentido”. Palavras sábias e, quem sabe, um bom conselho para os candidatos ao Prémio Idalécio Cação. E vai mais longe. “Tudo o que eu escrevo, tem uma razão de ser: escrever sobre uma região que há poucos anos era desconhecida”. A Carlos de Oliveira agradece a tarefa de ter “desbravado” o caminho e de ter dado “a independência à Gândara”. Há ainda outra personalidade a que Idalécio Cação reconhece igual mérito: Fernanda Cravidão, actual professora na Universidade de Coimbra, cuja tese de doutoramento mostra, pela primeira vez, os limites geográficos da Região pela qual cada vez mais escritores se deixam apaixonar. | LM