O AuriNegra acompanhou, na manhã de 24 de Fevereiro, uma patrulha da Guarda Nacional Republicana de Cantanhede afecta à Secção de Programas Especiais, em concreto do programa de apoio a idosos que vivem sós. Porque por detrás dos números existem pessoas, quisemos conhecer as histórias e as vidas que a solidão teima em esconder.

“Idoso encontrado morto em casa”, “Corpo de idosa, em avançado estado de decomposição, encontrado em casa”, “Acamada chamou cinco dias pelo marido morto”. São títulos reais, de notícias reais, que nos chocam por aquilo que escondem: a solidão de quem a sociedade deixou de considerar útil, de quem a família deixou de procurar, ou de quem nem sequer tem alguém a quem possa chamar família ou amigo. O egoísmo e o conceito de produtividade por que se avalia a utilidade dos seres humanos empurram estas pessoas para um mundo à parte, uma existência nas sombras com a solidão por companheira. Tornam-se invisíveis para os demais e são, inevitavelmente, esquecidos.

O cenário desolador traçado pelos sociólogos do País, quando tentam, em programas televisivos ou em declarações aos jornais, explicar este “fenómeno”, devia fazer-nos parar e pensar. Mas como se explica o inexplicável? Como se justifica o abandono e a negligência a que votamos os nossos idosos? Os nossos próprios avós, pais e tios? Chocam-nos os números negros das pessoas que vivem os últimos anos das suas vidas nestas circunstâncias mas, na verdade, para nós não passam disso mesmo: números negros. Porque com cada idoso que morre só, no silêncio, fica uma história por contar, quisemos conhecer algumas das vidas que se escondem por detrás dos números.

“Sozinha no meio desta gândara”

Só no concelho de Cantanhede, a Guarda Nacional Republicana (GNR) tem sinalizados 132 idosos que residem sós, ou sem a companhia de alguém que lhes possa prestar auxílio e cuidados em caso de necessidade. São pessoas que o Destacamento Territorial de Cantanhede identificou, no âmbito do Censos Sénior, realizado como medida complementar do programa Apoio 65 – Idosos em Segurança [ver caixa].  Pouco depois das nove da manhã, seguimos num dos carros de patrulha rumo à Malhada de Baixo, freguesia de Covões. Vamos visitar Maria do Céu Chastres, de 82 anos, que vive numa casa isolada junto a um pinhal, na companhia de um filho surdo–mudo, com 48 anos e um problema grave de alcoolismo.

Deixamos para trás o casario e enveredamos por um caminho em terra, que culmina na casa de Maria do Céu. Recebe-nos com um sorriso nos lábios, enquanto distribui cumprimentos pelos militares da patrulha, já seus conhecidos. Feitas as apresentações, Céu da Malhada, como diz ser conhecida, começa a contar-nos a última que “aprontou” o seu filho. “Bebe muito, logo em jejum, e depois não toma a medicação”, desabafa. Surdo-mudo, amigo da bebida e com problemas psiquiátricos, é a sua maior preocupação: “O que vai ser dele quando eu morrer?”, pergunta-nos. Gostávamos de ter a resposta, de tranquilizar Maria do Céu, mas morrem-nos as palavras ainda antes de as proferirmos.

“Não tenho medo de viver aqui, sozinha no meio desta gândara. Já fiz muita coisa nesta vida, fui peixeira, veleira, tremoceira, vendi sal e doces, fui padeira mais de 20 anos. Saía daqui de casa às cinco da manhã, fizesse frio, chuva ou trovoada. Nunca fui casada mas todos me respeitam, mas agora, com esta idade, começam a faltar-me as forças”, desabafa. Os militares são ouvintes atentos e respondem quando a ocasião o exige. “Gosto muito de receber estas visitas, sabe muito bem. Mas às vezes penso, ‘pobres dos homens, andam a ter tanto trabalho connosco’”. Maria do Céu percebe que o fim da visita se aproxima. Puxa mais um assunto de conversa mas tem mesmo que ser, não nos podemos deter mais. “Gostava de um dia poder fechar os olhos e saber que ele ficava bem, que tomavam conta dele”, diz-nos, emocionada, em jeito de súplica. Entramos no carro em silêncio, com a sensação de que por mais que se faça, há ainda tanto que fica por fazer.

Triste é a noite

Encontrámos Maria Rosa Cardoso de enxada na mão, na companhia da sua irmã mais velha, Maria Anunciação Cardoso. Maria Rosa tem 74 anos e Maria Anunciação tem 79, são ambas viúvas, e vivem as duas sozinhas. Vale-lhes viverem a escassos metros uma da outra. “Há sete anos que vivo sozinha, que é desde que morreu a minha mãe. O meu marido já tinha falecido antes, já lá vão uns 15 anos”, conta-nos a mais nova. Tem uma filha em Verdemilho, próximo de Aveiro, e dois netos rapazes, que a visitam “quase todos os domingos”. Maria Rosa é um dos casos menos problemáticos, mas não esconde alguma tristeza por viver só: “Quando vem a noite é o pior. A solidão dói muito. Se não for a televisão, que nos vai distraindo, é uma escuridão total”, partilha. A irmã concorda. Há nove anos que se deita e acorda sozinha, sem alguém a quem dar as boas noites e desejar um bom dia.

Tem dois filhos, um deles emigrado no Canadá, que vê de quando em quando. A companhia da irmã é que lhe vai aquecendo o coração: “De dia andamos quase sempre juntas”, diz Maria Anunciação. A visita da GNR também é apreciada: “Fazem-nos mais felizes, sempre dá para conversar”, confirma Maria Rosa. “O dinheiro da reforma vai todo em medicamentos e nos médicos, safa-se a pinguita, que é o que nos faz andar”, brinca. Aproxima-se a hora de almoço e ainda nos falta uma visita. Despedimo-nos, e voltamos a fazer-nos à estrada. “Obrigada! Voltem sempre”, ouvimos, enquanto deixamos as irmãs Cardoso para trás. Segue-se Outil e um dos casos “bicudos”.

30 anos de solidão

Na orla da floresta, junto a um caminho estreito, encontramos a casa de Alzira. Uma barreira de troncos e galhos, qual dique construído por castores, faz as vezes de portão, assinalando a entrada nos domínios da solitária senhora. Um dos militares chama por Alzira, recebendo em resposta um coro de latidos e algumas miadelas tímidas. A casa está rodeada de chapas, tábuas e arames, uma espécie de barreira improvisada contra olhares curiosos e “amigos do alheio”. No quintal, Alzira responde. Passado alguns segundos, está ao nosso lado, limpando as mãos ensanguentadas: “Estava a tratar de umas galinhas”, justifica.

Tem 73 anos e já perdeu a conta a quantos desses viveu só: “Há muito que vivo por minha conta, desde que a minha filha saiu de casa. Há seguramente 30 anos”, diz. “Ela casou-se e eu fiquei sozinha”. Perguntamos se nunca sente medo, se não teme visitas indesejadas. A resposta é pronta: “Não tenho medo nenhum, ainda tratava era de ensinar uma lição a quem me tentasse roubar”. Os militares explicam que é aconselhável não oferecer resistência, para evitar males maiores, mas a solidão e a necessidade de se desenvencilhar e defender sozinha, tornaram Alzira dura e destemida. “Já tive cinco companheiros, mas já foram todos para o barroco”, atira.

Por estes dias, a sua única companhia sãos os cães e gatos de que se rodeia. “Apanho todos os que andam por aí perdidos ou aqui vêm dar. Os animais são a minha companhia”, assevera. Rosa, Leão, Sapo, Fusca, Joana são alguns dos seus amigos, com quem partilha a sua vida e o seu quotidiano. Eles e os elementos da Secção de Programas Especiais, que são, muitas vezes, as únicas pessoas que cruzam o caminho de Alzira. A patrulha aproxima-se do fim. Despedimo-nos dos nossos “companheiros de viagem” e retomamos a nossa rotina assaltados por um misto de emoções: tristeza e frustração, por sabermos que como estas quatro idosas há milhares em todo o País; e alegria e optimismo, por sentirmos que, ainda que por breves instantes, fomos ouvintes atentos e vimos um sorriso iluminar-lhes o rosto.

“Idosos em Segurança” no concelho de Cantanhede

Um dos Programas Especiais que a GNR de Cantanhede tem no terreno é o Apoio 65 – Idosos em Segurança, que presta assistência e acompanhamento, para além de identificar, seniores que vivem em situação de isolamento, quer geográfico, quer humano. O Censos Sénior, que é feito anualmente e terminou no final de Fevereiro, começa por sinalizar os casos que reúnem as condições para serem posteriormente acompanhados pelos militares da GNR, afectos à SPE – Secção de Programas Especiais (quatro elementos, no caso do Destacamento Territorial de Cantanhede).

Depois, as patrulhas diárias, feitas no período da manhã ou da tarde, tratam de visitar os idosos sinalizados, dispersos por todo o Concelho. Neste momento, estão identificados 132 homens e mulheres que vivem nestas condições, um número que pode crescer quando forem cruzados os dados do mais recente Censos Sénior. “Tentamos visitá-los a todos uma ou duas vezes por mês. Nem sempre é possível, já que ao número reduzido de meios humanos, junta-se o facto de estes quatro militares terem que assegurar o funcionamento dos outros Programas Especiais”, explicou ao AuriNegra Cláudio Lopes, responsável pelo Destacamento Territorial de Cantanhede.

Entre os outros programas de que fala o Tenente, encontram-se Escola Segura, Farmácia Segura e Comércio Seguro, por exemplo, o que faz com que o tempo e os meios tenham que ser extremamente bem geridos para dar resposta a todas as solicitações no âmbito da SPE. Em 2011, eram 144 os idosos sinalizados, número que desceu para 132 no início de 2012, por falecimento dos restantes. “O Programa não se resume a visitar as pessoas sinalizadas. Compreende, também, acções de sensibilização e aconselhamento, nomeadamente no que respeita a burlas, por exemplo”.

Nos casos mais críticos, a GNR entra em contacto com Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS’s), para que prestem os cuidados necessários, quer em termos de higiene e alimentação, quer de acompanhamento médico. “Esta responsabilidade tem que ser partilhada, não pode ser assumida em exclusivo por nós”, defende Cláudio Lopes. Apesar de estarem preparados para este tipo de função e para as situações delicadas com que se deparam, aquilo que vêem e que vivem deixa marcas nos militares da Secção: “Naturalmente cria-se uma ligação, mas temos que aprender a separar as coisas. Não ficamos indiferentes, mas não podemos deixar que as emoções nos controlem”. | FC

Anúncios