Cem. Esta é a média de telefonemas que Maria Carlos recebe e efectua diariamente. “Má hora em que os telemóveis foram inventados”, lamenta. O dia-a-dia da chefe da Divisão de Cultura e do Desporto da Câmara Municipal de Cantanhede é um corrupio de reuniões e tomadas de decisão que, mais cedo ou mais tarde, produzirão efeitos práticos no Município. Fomos ao Museu da Pedra conhecer a historiadora numa dia em que o espaço museológico estava fechado ao público.
“Por vezes, queixo-me que ando sempre ‘stressada’, mas acho que já não conseguia viver sem esta agitação. Se me metessem numa aldeia, só a ouvir os passarinhos a chilrear, acho que não aguentava lá uma semana”, diz Maria Carlos a rir-se. Entre as funções da chefe de Divisão da Cultura e do Desporto da autarquia cantanhedense, encontra-se a coordenação da Casa Municipal da Cultura e do Museu da Pedra. Porém, estas não são as suas únicas responsabilidades: é mãe de uma menina e de um menino e esposa. “Também dá trabalho”, graceja.
Confessa que a sua rotina no emprego implica andar “constantemente a correr entre o gabinete do Museu [da Pedra] e o gabinete das Piscinas [Municipais]”. Move-a, no entanto, o facto de estar a fazer aquilo de que realmente gosta, na cidade em que sempre sonhou exercer a sua profissão.
Corria o ano de 1971 quando Zaida Chieira Pêgo deu à luz duas gémeas, ambas de seu nome Maria. “Acho que só quem tem um irmão gémeo verdadeiro sabe o que é a alegria e o privilégio de poder partilhar uma vida a dois. Temos um irmão mais velho, com quem nos damos muito bem”.
Apesar de ter nascido e praticamente sempre ter vivido em Coimbra, as suas memórias mais antigas remetem para Poutena, concelho de Anadia, a terra onde nasceu a mãe e onde a família costumava passar férias. “Vínhamos muitas vezes a Cantanhede e guardo muitas e boas memórias desta cidade. Um dia mais tarde, quando me formei, comentei que o local onde gostava de trabalhar era a Câmara Municipal de Cantanhede”.
Falar da infância de Maria Carlos implica referir, também, a meninice da sua irmã. A cumplicidade que a une à gémea dura desde que se lembra de si, descrevendo-a como a outra metade que a completa. “Para alguém me conhecer verdadeiramente, terá de conviver comigo e com a minha irmã. Uma coisa é conhecer-nos isoladamente nos nossos locais de trabalho, outra coisa é conhecer-nos num contexto familiar. Nós somos diferentes quando estamos as duas juntas. Somos muito mais extrovertidas e mais brincalhonas. Pregamos muitas partidas…”.
Uma dessas partidas durou um ano lectivo inteiro. Ambas frequentavam um estágio na Escola Secundária de Jaime Cortesão, na “cidade do Mondego”, após terem concluído a licenciatura em História, na variante de Arqueologia. Até aos 25 anos de idade, altura em que seguiram rumos diferentes, Maria Carlos confidencia que a primeira coisa que fazia de manhã era pintar um sinal no rosto, semelhante ao verdadeiro da irmã, para que ninguém as distinguisse. “Os nossos alunos nunca sabiam qual era a professora deles. Mesmo a nossa orientadora, só no último dia de estágio é que confessou que nunca nos conseguiu distinguir, a não ser por um sinal no pescoço, porque do outro sabia. No Inverno, quando usávamos gola alta, disse-nos que ficava aflita”.
Se dúvidas ainda restassem sobre a profundidade da relação entre as irmãs, certamente se dissipariam por causa de um outro aspecto curioso, no mínimo. Com apenas seis anos, a pequena Maria Carlos descobriu a facilidade que tinha em pronunciar palavras do fim para o princípio. Deu-nos o seguinte exemplo: “Café é ‘éfac’”. “Aos 12 anos, incentivei a minha irmã a aprender essa ‘linguagem’. Falamos as duas, fluentemente, ao contrário. Ainda hoje o fazemos, sempre que é conveniente”, explica com um ar travesso.
Na Universidade, encontraram uma turma unida, composta por 20 alunos. Os anos académicos ficaram ainda marcados pelos vários eventos dinamizados na FLUC. “O curso de Arqueo-logia distinguiu-se dos outros”. “Acabámos por ser seleccionados para ir representar a Universidade no sarau dos ‘quintanistas’”.
A experiência no ramo do ensino é classificada como “um ano em que aprendi a ganhar muita responsabilidade e muito sentido de dever. Gostei muito de dar aulas, mas entendi que não era aquilo que queria para sempre. Sobretudo, porque a área já não estava muito boa. Era difícil para os professores da área de História arranjarem colocação definitiva. E, depois, eu achava que estava mais vocacionada para trabalhar numa área que me permitisse o contacto com o associativismo, com outro tipo de dinâmica e instituições. Por isso é que decidi continuar a estudar”.
Cultura em boa forma
Regressou à FLUC e inscreveu-se novamente em História, desta vez no ramo de História de Arte, com o intuito de se especializar em museologia. Pela primeira vez nas vidas das gémeas, seguiram caminhos diferentes, embora o objectivo fosse ficarem juntas no futuro. “Nenhuma autarquia iria contratar duas arqueólogas”, explica.
Enquanto estudava, foi requisitada pela Câmara Municipal de Sever de Vouga para desempenhar o cargo de arqueóloga. Admite ter-se dedicado com afinco à investigação, chegando mesmo a editar cinco livros. “Mas estava a contrato e surgiu a possibilidade de me candidatar a um concurso para o quadro efectivo em Abrantes. Candidatei-me e fiquei em primeiro lugar”. Durante esse ano (1997) casou-se, mas quase não teve tempo para aproveitar a lua-de-mel. O seu marido trabalhava no Porto, o que permitia ao casal ver-se apenas aos fins-de-semana.
Em Abrantes, sentia-se concretizada profissionalmente. “Entrei como arqueóloga e, como estava a concluir o curso de História de Arte, tornei-me logo directora do Museu D. Lopo de Almeida e coordenadora do gabinete de Arqueologia”. Tudo corria “às mil maravilhas”, à excepção de um pormenor: continuava por cumprir o desejo de ir para Cantanhede. “Não conhecia as pessoas que cá trabalhavam, mas tinha boas memórias da cidade em si”. No início de 1999, acabou por ser chamada para uma entrevista conduzida pelos então presidente da Câmara e vereador da Cultura, Jorge Catarino e Maia Gomes, respectivamente. “Assim que concluí o estágio em Abrantes, pedi transferência e fui aceite”.
Ingressou na autarquia cantanhedense como técnica de nível superior de História. Ficou rapidamente incumbida de uma grande tarefa. “Vim com a responsabilidade de continuar a dinamizar a Casa Municipal da Cultura, dando-lhe uma nova ‘roupagem’, mas também para abrir o Museu da Pedra. Havia um edifício e um projecto extremamente interessante, mas não havia espólio”.
Dois anos volvidos sobre a sua chegada a terras gandaresas, Maria Carlos assumiu a chefia da Divisão da Cultura e do Desporto, até 2003. “Entretanto, houve uma restruturação dos serviços. O Desporto e a Cultura começaram a crescer muito e o Município dividiu as duas pastas”. Contudo, em 2011 voltou a acumular as duas áreas. “São áreas afins porque há muitas associações que têm ambas as valências”.
Com os dossiês desportivos de novo em cima da sua mesa, deparou-se com novas exigências. “Em termos de equipamentos desportivos, a realidade que larguei em 2003 é completamente díspar da que vim apanhar em 2011”, analisa, referindo-se ao assinalável aumento do número de infra-estruturas criadas, como os complexos desportivos de Cantanhede, Tocha e Febres, bem como os campos de ténis e o campo de golfe, este dois últimos também na sede do Concelho. “Tenho excelentes colegas na área do Desporto e da Cultura, que são fortes ‘braços-direitos’, porque senão era impensável suportar a sobrecarga de ambas as áreas”.
Relativamente à componente cultural, a historiadora avança que a Autarquia está no bom caminho. “A área da Cultura é, normalmente, descurada na maioria dos municípios, o que não acontece em Cantanhede. Não estou aqui a defender a minha dama, estou a dizer o que é real-mente verdade”. Aponta como um dos seus maiores orgulhos aquilo que tem sido feito para atrair as camadas mais jovens aos eventos culturais. “Cada vez mais temos de lutar contra as facilidades que as crianças têm para se entreter em casa”. Em sua opinião, o gosto pelos livros, concertos e espectáculos em geral tem de ser desenvolvido desde tenra idade.
A estratégia parece estar bem delineada, deixando antever bastante esforço, dedicação e pouco tempo livre. “É muito raro haver um fim-de-semana que não venha a Cantanhede. Chego a vir, de manhã, a um evento desportivo e, de tarde ou à noite, a um evento cultural. Muitas vezes, a estratégia passa por trazer a família”.
O terceiro “filho”
“Eu digo que o Museu acaba por ser um terceiro ‘filho’ porque o acompanhei desde o início. Cada peça e cada legenda que aqui está tem um bocadinho de mim”. Para preparar a inauguração do espaço, Maria Carlos solicitou a ajuda de especialistas, entre eles Adília Arcão, antiga directora do Museu Machado Castro, em Coimbra, e Helena Henriques, docente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. “Foi ela que nos apresentou o professor Galopim de Carvalho. Desde então, não há iniciativa que esteja relacionada com as áreas da paleontologia e da geologia em que o professor não esteja associado a nós”.
Definida a estrutura do Museu da Pedra e reunido o espólio, chegou o momento de abrir as portas ao público, no dia 20 de Outubro de 2001. “Na abertura tivemos cá o professor Galopim de Carvalho e o escultor João Cutileiro. Foram eles que cortaram a fita. Lembro-me que tinha planeado fazer uma visita guiada, o que foi impossível. Estavam centenas de pessoas à espera de conhecer as instalações e desisti da ideia”.
O Museu da Pedra é considerado uma referência a nível nacional, funcionando como um acervo de testemunhos paleontológicos e de obras de arte feitas em “pedra de Ançã”. Ainda em 2001, foi distinguido com a Menção Honrosa de Melhor Museu Português do Triénio 1999/2001, atribuída pela Associação Portuguesa de Museologia. Mais tarde, em 2006, chegou a vez da ProGEO − Associação Europeia para a Preservação do Património Geológico, distinguir o Museu com o Prémio Nacional de Geoconservação.
Em bicos de pés
Maria Carlos começou a frequentar aulas de dança bem cedo e, desde então, nunca mais se afastou dessa arte. O ballet clássico foi o primeiro estilo que aprendeu, tendo como colega, claro, a irmã Maria Manuel. “Na altura, em Coimbra, só se podia entrar na dança quando se entrasse na escola primária, portanto nós entrámos com seis anos”. Do ballet passaram para a dança jazz e, de há alguns anos a esta parte, são coreógrafas no Centro Norton de Matos e no Colégio São José. Feitas as contas, são já 36 anos a movimentarem-se ao som e compasso da música.
Já nos tempos da FLUC tinham tido oportunidade de aplicarem os seus conhecimentos na área da dança para imprimir novos ritmos aos eventos organizados pela turma de Arqueologia. “Estes espectáculos dinamizados no âmbito do curso eram pensados só para Coimbra. Nos grupos de dança a que pertencemos, chegámos a ir actuar duas vezes nos Estados Unidos da América”. As viagens à terra do “Tio Sam” foram feitas através do Centro Cultural e Recreativo de Poutena, cuja valência de dança foi assegurada pelas duas “Marias” durante vários anos. O dinheiro obtido das actuações serviu para ajudar a financiar a construção do Centro de Dia da associação a que estavam ligadas. | LM



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