De Norte a Sul do País, são vários os Carnavais que ganharam notoriedade ao longo dos anos. Dos mais tradicionais, como o transmontano, aos luso-brasileiros, como o da Mealhada, passando pelos que ficaram conhecidos pela sua carga satírica, caso do de Torres Vedras, há desfiles para todos os gostos. Em ano de crise e de instabilidade financeira (e social), e em que o Governo decidiu suprimir o feriado da terça-feira de Carnaval, os foliões portugueses estão prontos para (ainda assim) fazerem a festa.

As origens do Carnaval são obscuras, perdendo-se no tempo e no espaço, e estão normalmente associadas ao paganismo. Há quem reporte ao Antigo Egipto, aos rituais de adoração aos deuses Ísis e Osíris, e há quem encontre dados e registos que apontam para festividades carnavalescas na civilização grega. Certo é que na Roma Antiga, já depois de o Cristianismo ser instituído como religião oficial do Império, há registos históricos que descrevem a celebração do Carnaval, uma adaptação da tradição romana da Saturnália, em que havia um desfile pelas ruas da cidade composto por grupos de pessoas disfarçadas e marcaradas.

Mais recentemente, na Idade Média, o Carnaval começou a ser celebrado um pouco por todo o mundo, sobretudo pelos cristãos, que o consideravam o tempo de dizer “adeus à carne”, ou carne vale, em latim. Era o período que antecedia a Quaresma, tempo de jejum e de penitência, sendo, por isso, uma festa repleta de excessos, em que os foliões se entregavam aos prazeres da carne. Tinha, em geral, a duração de três dias, em concreto os que antecediam a “Quarta-feira de Cinzas”, dias que eram chamados de “gordos”, sobretudo a terça-feira, marcada por festas, desfiles e banquetes, em que homens e mulheres comiam e bebiam em abundância, brincavam e cantavam. A terça-feira “gorda” era muito popular em França, onde ficou conhecida por “Mardi Gras”, nome que ainda hoje tem o Carnaval nos países e regiões francófonos. Exemplo disso mesmo é a conhecida festa carnavalesca de Nova Orleães, Estados Unidos da América, o Mardi Gras em que mulheres mostram partes do corpo em troca da oferta de colares.

Actualmente, os festejos do Carnaval generalizaram-se, havendo tradições próprias nos mais diversos pontos do Globo. Um dos carnavais mais famosos e que atraem mais turistas é o de Veneza, em Itália, em que o cenário mágico da cidade propicia bailes e festas em palacetes, e as máscaras clássicas, típicas do Renascimento, são adereço obrigatório. Num registo diferente, mais frenético e mais quente, o Carnaval brasileiro, sobretudo o do Rio de Janeiro, atrai multidões ao Sambódromo. Muita música e agitação, muito samba e muitos corpos despidos, muita cor, brilho e fantasia. E muitos excessos, pois claro. As Escolas de Samba preparam os seus desfiles com um ano de antecedência. Assim que acaba um Carnaval, começa a projectar-se o próximo. Temas, trajes, músicas e coreo-grafias, tudo é preparado e pensado ao mais ínfimo detalhe para que, no “Dia D”, nada falhe e os milhões de pessoas que assistem ao espectáculo, um pouco por todo o mundo, fiquem deleitados e assombrados com tamanho festival de luz, cor, samba e sensualidade.

Caretos e matrafonas

Em Portugal, à semelhança do que acontece, por exemplo, no que diz respeito à gastronomia, a diversidade de Carnavais é mais que muita. A Norte, na pequena aldeia de Podence, concelho de Macedo de Cavaleiros, a Festa dos Rapazes traz às ruas do lugar os típicos caretos, homens mascarados com mantos de franjas espessas e coloridas, cobertos de badalos e chocalhos de vários tamanhos e feitios e com o rosto tapado por máscaras diabólicas. O Entrudo Chocalheiro, como é conhecido, atrai centenas de visitantes à pequena Freguesia, muitos dos quais, sobretudos as mulheres, acabam por regressar a casa com algumas nódoas negras, fruto de terem sido “chocalhados”.

Mais a Sul, o Carnaval de Ovar é outro dos que atraem foliões de todo o País. Casa os desfiles mais tradicionais com as raízes da festa brasileira, havendo samba mas também muitos grupos de mascarados, músicos e bailarinos, num “mar de gente” que invade as ruas da Cidade. Em Estarreja, o Carnaval sai à rua desde o século XIX, mas foi na década de setenta do século passado que começou a ganhar notoriedade. Os carros alegóricos bem decorados e os “reis” da festa cem por cento nacionais garantem a animação e o espectáculo. Torres Vedras tem, provavelmente, o Carnaval mais mordaz e viperino de Portugal, com a classe política e as figuras de proa da sociedade a serem caricaturadas e, não raras vezes, apresentadas em poses menos ortodoxas. As matrafonas, homens disfarçados grosseiramente de mulheres, e os cabeçudos, figuras desproporcionais feitas em pasta de papel, cujo desfile é acompanhado pelos grupos de músicos “Zés Pereiras”, são outras imagens de marca de Torres Vedras, um dos carnavais mais portugueses de Portugal, em que o samba ainda não marca o ritmo do desfile.

Onde o samba é, realmente, rei e senhor das sonoridades, é no Carnaval da Mealhada, ao contrário do que acontece no seu congénere de Torres Vedras. Provavelmente o Carnaval menos português de Portugal, é, sem dúvida, o mais brasileiro. As Escolas de Samba animam a festa e, apesar do frio que normalmente se faz sentir em Fevereiro em terras bairradinas, os corpos também se apresentam consideravelmente despidos. Os “reis” carnavalescos costumam vir do outro lado do Atlântico, figuras conhecidas de quem assiste a telenovelas brasileiras que vêm dar um ar da sua graça e, com sorte, um pezinho de dança. Instituído em 1971, o Carnaval luso-brasileiro é um dos mais apreciados do País, tendo trazido à Bairrada estrelas brasileiras como Marcos Palmeira, Cristiana Oliveira, Mauricio Mattar, Lima Duarte e Danton Mello. Este ano, Anderson Di Rizzi será o rei, actor que actualmente interpreta “Sargento Xavier” em “Morde e Assopra”, telenovela transmitida pela SIC. A cantora portuguesa Micaela faz as vezes de rainha. No Sambódromo, no dia 19 (domingo) e no dia 21 (terça-feira), desfilarão quatro Escolas de Samba: “Batuque” e “Sócios da Mangueira”, da Mealhada, e “Samba no Pé” e “Amigos da Tijuca”, do concelho de Cantanhede.

Apesar do clima de instabilidade e de crise generalizada, os portugueses parecem estar preparados para brincar e dançar no Carnaval que aí vem. Mesmo sem feriado nem tolerância de ponto, nos Municípios em que a festa tem tradição os próprios autarcas garantem o direito dos seus munícipes a serem foliões. Passos Coelho, o nosso Primeiro, apontou a crise como principal razão para acabar com o feriado do Entrudo, medida (muito) pouco popular, que já custou o cargo a um outro Primeiro, hoje Presidente. Afinal, com sacrifícios em cima de sacrifícios, e cortes atrás de cortes, os portugueses só queriam um dia em que pudessem fazer de conta que eram outra coisa qualquer, em que pudessem esquecer, por horas, a triste realidade do País em que vivem. E como até é Carnaval, ninguém tem por que levar a mal!

“Samba no Pé” pronta para a festa

Com pouco mais de seis anos de existência, o Grémio Recreativo Escola de Samba (GRES) “Samba no Pé” é uma das quatro Escolas que irão desfilar na edição de 2012 do Carnaval da Mealhada. Este ano o tema escolhido foi “Elementos Essenciais da Vida”, a saber a água, o ar, a terra e o fogo. Fátima Baptista, presidente do GRES, explicou ao AuriNegra que depois de escolhido o tema, o projecto para todo o desfile, que inclui a sinopse, as coreografias e os trajes, é criado no Brasil. Em Sepins, freguesia sede da Escola, são confeccionados os fatos e os adereços, sendo que “todo o material, tecidos e aplicações, é adquirido por nós”. Também a música é alvo de uma adaptação para se identificar com o GRES “Samba no Pé”, já que não é original da Escola mas tem, obrigatoriamente, o seu nome mencionado algures na letra.

O “gosto pelo Brasil e pelo Carnaval, bem como pelo samba e pelos ritmos brasileiros” esteve na origem da Escola, um projecto que nasceu do convívio e da amizade entre colegas com a mesma paixão: o Carnaval e a diversão a ele associada. Depois do “nascimento”, em 2005, a Escola foi apoiada pela Associação Carnaval da Bairrada, que atribui uma determinada quantia a cada escola que integra o desfile carnavalesco. Aos 90 elementos que vão mostrar o que valem no Sambódromo, juntam-se mais dez elementos que apoiam a confecção e preparação nos bastidores do desfile. Uma empreitada destas requer muita dedicação e muita disponibilidade, já que nos dois meses que antecedem o Carnaval, a azafama é diária. Depois de um dia de trabalho há, por isso, que reunir forças e motivação para um serão rodeado de cola, arames, fitas e tecidos, sempre ao som da batucada e do refrão entoado pela bateria.

A Escola “Samba no Pé” reúne elementos “de diversos pontos de Cantanhede e até de Concelhos vizinhos” e é “das que desfilam na Mealhada a mais recente”. O trabalho é minucioso e o desfile é preparado ao pormenor. Ala por ala, elemento por elemento, dos “mirins”, os mais pequenitos, às “baianas”, as senhoras de meia-idade. A Comissão da Frente abre a festa, seguida das primeiras alas e do Mestre Sala e da Porta-bandeira. “Tudo tem que correr bem, não pode haver falhas. Estamos a ser avaliados e pontuados, portanto é muito importante que não haja desconcentrações”. Azul, branco, amarelo e vermelho serão as cores predominantes nos desfiles de 19 e 21 de Fevereiro, com os tecidos a encaixarem numa categoria especial: “Bonito e barato, é isso que procuramos”, esclarece um dos elementos do GRES. Quando perguntamos se todos os figurantes sabem sambar, a resposta não se faz esperar: “Uns sambam… outros tropeçam”. Nos bastidores, dezenas de mãos trabalham com afinco para que tudo esteja pronto a tempo e horas. O “carnavalesco”, elemento fundamental e responsável pela concretização e materialização do que vem consignado no projecto, Bruno Vigário, vai “comandando as tropas”. Afinal, já falta muito pouco para o samba sair à rua.

“Amigos da Tijuca” em contagem decrescente

Ali ao lado de Sepins, na freguesia vizinha de Murtede, mais concretamente em Enxofães, tem casa o GRES “Amigos da Tijuca”. O pequeno lugar tornou-se conhecido na Região pelo seu Festival do Negalho, mas a Escola de Samba local também tem levado longe o nome de Enxofães. Hugo Idalécio, um dos fundadores da colectividade, recorda o que esteve na origem do GRES “Amigos da Tijuca”: “Tínhamos gosto pela arte carnavalesca e o facto de estarmos perto do Carnaval da Mealhada também nos influenciou. Sobretudo porque foi quem nos deu todas as condições necessárias para começarmos, no nosso primeiro ano”. Um apoio que se traduziu, por exemplo, no empréstimo de instrumentos musicais, um investimento considerável que deita por terra as aspirações de algumas Escolas.

O desfile começa a ser preparado com bastante antecedência, com o tema a ser definido um ou dois meses depois do Carnaval. “Depois, em Junho ou Julho, manda-se fazer o projecto, e em Setembro, que é o mês do nosso aniversário, começa-se a trabalhar”, explica o presidente da “Amigos da Tijuca”. O tema para este ano é “Surpresa”, sendo difícil, como seria de esperar, perceber o que vai acontecer. Ainda assim, tentámos que Hugo Idalécio levantasse um pouco o véu: “Vamos ter muitas surpresas, todas elas boas. Procurámos ideias que encaixassem no perfil dos nossos figurantes e da nossa Escola, enfim, na nossa identidade”. Os 120 elementos envolvidos no trabalho não têm, por estes dias, mãos a medir. Os 100 que vão estar na ribalta, nos dias em que há desfile na Mealhada (19 e 21), começam a sentir o nervoso miudinho de estar em frente de centenas de pessoas.

No salão de Enxofães reúnem-se, nos ensaios e preparativos, figurantes de todas as idades. “Temos crianças com cinco anos, que vão na ala dos ‘mirins’, e senhoras com 80, que vão na ala das ‘baianas’. O desfile começa com a Comissão de Frente, a ala que apresenta o tema da Escola, depois vêm o Mestre Sala e a Porta-bandeira, que é a pessoa que empunha o nosso estandarte, as nossas cores e o nosso símbolo”. O Mestre Sala guarda a bandeira, não a perdendo de vista, e tem uma coreografia específica, com movimentos próprios. Depois entra em cena a Ala da Frente, seguida da Madrinha da Bateria e da Bateria. Seguem-se os cantores e carro do som e as Alas n.ºs 1, 2 e 3. O desfile é fechado com as baianas e com o carro alegórico. “A Madrinha da Bateria tem que ser uma pessoa que ame a bandeira, que perdure quantos mais anos possíveis. Além disso, tem um papel importantíssimo pois é coreógrafa de todas as Alas e tem que sambar muito bem”. A festa não se faz sem esforço, por isso às horas dispendidas, junta-se o investimento financeiro. Há apoio por parte da Comissão do Carnaval da Mealhada, a que se juntam verbas da Junta de Freguesia local e da Comissão de Festas, mas os apoios ficam sempre aquém da despesa, que este ano “rondará os 14 mil euros, sendo que estamos a contar receber oito mil”. Apesar de tudo a crise ainda não conseguiu beliscar o Carnaval dos “Amigos da Tijuca”, que estão já em contagem decrescente para a folia deste ano. “Enquanto nos sentirmos bem no Carnaval da Mealhada e enquanto nos quiserem por lá, não queremos outro”. | FC

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