Luís Filipe Patrão Cruz Reis nasceu em Vilamar, a 22 de Janeiro de 1961. Cursou enfermagem em Coimbra e começou por exercer a sua profissão no Hospital dos Covões. O desejo de permanecer junto da sua mulher fê-lo trocar a “cidade dos estudantes” por Cantanhede. No Hospital do Arcebispo João Crisóstomo passou por vários serviços e terminou nos Cuidados Paliativos. Especializado em medicina de reabilitação há 20 anos, foi recentemente convidado para o Conselho de Administração do Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais. O futebol e os automóveis clássicos são duas das suas maiores paixões que, apesar de tudo, não roubam o lugar cimeiro ocupado pela sua família.
O enfermeiro especialista Luís Patrão integra, a partir de hoje (sexta-feira, 3 de Fevereiro), o Conselho de Administração do Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais, na Tocha. Antes de aceitar o cargo, a sua carreira passou pelo Hospital do Arcebispo João Crisóstomo de Cantanhede, na cidade onde vive há 26 anos. Contudo, o seu coração está em Vilamar, a terra que o viu nascer e à qual regressa sempre que pode. Diz que a sua família é o centro do seu mundo, sendo a mulher e os dois filhos que lhe proporcionam a estabilidade necessária para enfrentar as agruras da vida. Outra coisa que não dispensa são os passeios nos seus automóveis antigos, pertencendo à direcção do clube Opel Clássico Portugal.
O céu estava limpo, o que ajudava a aquecer mais um dia de Inverno. A calcorrear os caminhos do Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro, na Tocha, por entre frondosas árvores, Luís Patrão deu também um “passeio” pela sua vida. O cenário não podia ser mais agradável, embora o Enfermeiro-Director confesse ainda não ter tido tempo para conhecer, na totalidade, o seu novo local de trabalho. Juntamente com o médico Luís André Rodrigues (presidente) e o advogado João Alegre de Sá, assumiu funções no Conselho de Administração do Rovisco Pais em meados do passado mês de Janeiro. Por entre os dias agitados, marcados por reuniões e outros compromissos, conseguiu arranjar uns minutos para falar com o AuriNegra.
Luís Patrão nasceu em 1961, em Vilamar, concelho de Cantanhede, no mesmo ano em que Ann Dunham deu à luz um bebé chamado Barack Obama. A carreira profissional afastou-o da sua terra natal mas, sempre que possível, regressa à sua vila. “Quando quero respirar um bocado de ar puro, retemperar forças e falar com os meus amigos, vou a Vilamar. Apesar de viver em Cantanhede há 26 anos, ainda me considero um vilamarense. Sempre fui bem recebido em Cantanhede, mas aqueles amigos de infância, que nos marcaram, continuam em Vilamar. E é lá que tenho a minha família mais chegada”.
A bem da verdade, nunca se quis desligar das suas raízes e, há dois anos, aceitou ser presidente da Associação Desportiva de Vilamar. “Depois, por vários factores, e com alguma pena, tive de me afastar. Além de muitas outras coisas, conseguimos criar a única escola de ballet do Concelho, que tinha uma sucursal na cidade de Cantanhede, e fundámos a única escola de futebol que não estava ligada a nenhum clube”.
Filho de um ourives ambulante, já falecido, e de uma professora primária, agradece hoje, comovido, a educação que os progenitores lhe facultaram. “O meu pai era uma pessoa com um grande sentido de justiça. Transmitiu-me valores como a amizade e a honestidade. A educação que os meus pais me deram foi uma das traves-mestras que fizeram com que a minha vida corresse sem sobressaltos”. Ciente da importância que a união familiar teve no seu desenvolvimento pessoal, fez questão de cultivar o mesmo sentimento quando chegou a altura de constituir a sua família. “A estabilidade da minha esposa e dos meus filhos é que me pode dar alguma segurança para atingir outros voos”.
Da sua infância e juventude guarda memórias agradáveis, nomeadamente dos momentos em que pedalava na sua bicicleta e jogava à bola num campo de futebol improvisado no meio de um pinhal. Quando frequentava o ensino Liceal, em Cantanhede, a rotina diária consistia em sair de casa bem cedo para só regressar no final das aulas. “Apanhávamos a camioneta do ‘Zé’ Maria dos Santos de manhã e só voltávamos à hora de almoço ou ao fim da tarde. Os tempos não são como agora, eram mais difíceis. Nós dávamos uma volta grande: saíamos de Vilamar, passávamos por Febres e Camarneira, onde havia um centro de paragem de camionetas, e aí juntavam-se os alunos que vinham dos Covões. Só depois é que seguíamos todos para Cantanhede”.
Desistir, nunca!
Antes de concluir o liceu foi afectado por uma doença da qual ainda hoje lhe custa falar e que o obrigou a pôr os livros de lado nesse ano lectivo. Porém, o contacto com médicos e enfermeiros despertou-lhe o interesse pela área da Saúde. O facto de o seu irmão mais velho, Egídio Patrão, actual presidente da Junta de Vilamar, estar por essa altura a terminar o curso de enfermagem, foi o “empurrão” que faltava.
Desistiu da ideia de se matricular em Educação Física e, em Coimbra, tal como o seu irmão, estudou na Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto. A sua passagem pela “cidade dos estudantes” foi pautada por alguma auto-disciplina e moderação. “Vinha de uma doença que se prolongou por um ano e isso acabou por influenciar a forma calma e pacífica com que abordei o curso. Ao fim-de-semana voltava sempre a casa. Durante os três anos em Coimbra tive os meus exageros, como qualquer um, mas no geral levava uma vida regrada”.
No último ano do curso estagiou no serviço de pneumologia do Hospital dos Covões, em Coimbra, sob a alçada de um enfermeiro que o inspirou, e até exerceu alguma influência para que Luís Patrão ali permanecesse. “Acabei por lá ficar. Por pena minha, só durante seis meses. Acabei o curso em Dezembro de 1984, em Janeiro de 1985 comecei a trabalhar, mas depois em Julho vim-me embora. Na vida temos de fazer opções profissionais ou pessoais. Eu fiz uma opção pessoal que acabou por ter algum sucesso profissional”.
Em Setembro de 1985, quando se casou, a sua mulher já trabalhava na Santa Casa da Misericórdia de Cantanhede. O desejo de se manter próximo da sua esposa falou mais alto e concorreu para um lugar no Hospital do Arcebispo João Crisóstomo. Os 26 anos na unidade hospitalar cantanhedense foram, segundo o próprio, inesquecíveis. Chegou numa época em que só havia “meia dúzia de enfermeiros”, tendo no decurso das décadas seguintes aplicado os seus conhecimentos em diversos serviços. Acompanhou o desenvolvimento do Hospital, quer em termos de instalações quer em valências, e nos últimos tempos exercia a sua actividade num dos serviços mais penosos para os profissionais da Saúde: os Cuidados Paliativos.
“Tal como nos tempos com o enfermeiro Sansana no hospital dos Covões, ali voltei a encontrar uma verdadeira equipa”. Confessa que ter de lidar constantemente com doentes terminais é uma experiência difícil e desgastante que exige uma enorme força psicológica. “Nunca se pode desistir, há sempre qualquer coisa a fazer, mesmo que seja só não deixar o doente desistir. Mas também defendo que na sua fase final o doente deve ser dono da sua vontade. No meio disto, a grande função dos Cuidados Paliativos é que as pessoas cheguem ao fim com a maior serenidade e calma possível. E eu trabalhava com uma super-equipa, que não regateava esforços nem horários para que as pessoas tivessem um final condigno”.
No centro da reabilitação
Estava há cinco anos a exercer enfermagem em Cantanhede quando lhe surgiu a possibilidade de obter uma bolsa de estudo para tirar uma especialidade. Afirma ter optado por medicina de reabilitação devido à sua paixão pelo desporto. Na sua juventude, representou as equipas de futebol de Vilamar e de Febres, chegando a ser federado por uns tempos. “O meu padrinho queria levar-me a fazer uns testes num clube de Coimbra, mas a minha mãe achava que eu tinha de estudar e não jogar à bola”. Se os familiares e amigos lhe gabavam as qualidades de futebolista, ele próprio não tinha tanta certeza do seu talento. Pelo menos restavam-lhe dúvidas sobre o seu fair-play. “Eu tinha uma máxima que dizia que à frente de um jogador estão duas coisas que mexem: uma é a bola e a outra é o adversário, e só uma é que pode passar. Daí pode perceber-se que eu era um jogador que jogava muito duro e era muito castigado”. Quem sabe se, no seu subconsciente, despontou a necessidade de seguir o ramo da reabilitação como forma de redenção pelas faltas que cometeu no relvado…
A par da sua nobre missão em tornar o menos dolorosos possível os últimas dias de vida dos doentes internados, o enfermeiro dedicava-se ainda à reabilitação física dos utentes. Não foi de estranhar, portanto, o convite endereçado pelo Presidente do Conselho Directivo da Administração Regional de Saúde do Centro para que Luís Patrão integrasse a administração do Rovisco Pais. “Desde há muito que defendo que os cargos directivos dos hospitais, e não só, devem ser ocupados sempre que possível por pessoas da região. O dr. José Tereso conseguiu conciliar isso com duas pessoas do Concelho e um dos profissionais de maior prestígio a nível nacional no que diz respeito à medicina de reabilitação”.
Há pouco mais de duas semanas a cumprir funções no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro, o agora enfermeiro-director avança que, pelo que já se apercebeu, a unidade está no bom caminho. Ainda assim, a nova administração pretende continuar a aumentar a excelência dos serviços ali prestados. “Muito se pode fazer ainda aqui, mas terá de ser com uma entre-ajuda das várias profissões que aqui jogam”. Uma das primeiras decisões práticas que a Direcção terá de tomar tem a ver com as 30 camas por inaugurar nos Cuidados Continuados. “Neste momento, ainda não sabemos para onde as vamos direccionar. Mas que as vamos tentar disponibilizar aos utentes, isso vamos”.
“Wir leben Autos”
O gosto de Luís Patrão por automóveis antigos ganhou contornos de paixão ao adquirir um Morris Mini 850, de 1965. “Depois achei que o Mini não me satisfazia”. Enquanto pesquisava por um modelo desportivo, por coincidência um amigo seu falou-lhe num Opel GT 1900, de 1969. “Sinceramente, nem sabia como era o carro. Ele disse-me que era feito na Europa para combater os da Corvette e que ganhava as corridas todas nos anos 60”.
O enfermeiro desistiu da ideia de comprar um automóvel da marca MG e deixou-se deslumbrar pela máquina made in Alemanha. Mais recentemente, sucumbiu ao impulso de ter outro clássico da Opel, desta vez um Commodore 2500, de 1967, com mudanças automáticas.
De há quatro a esta parte, faz parte do clube Opel Clássico Portugal, com sede em Lisboa, e dois anos volvidos entrou para a direcção. “Tenho dinamizado várias iniciativas do clube aqui nesta zona”. Entre elas, Luís Patrão destaca um passeio em Cantanhede, outro realizado na última edição da Expofacic e um de cariz solidário, a favor da PRODECO – Progresso e Desenvolvimento de Covões, que juntou 70 viaturas de várias marcas.
“É um divertimento que proporciona fins-de-semana agradáveis. Não se pode dizer que é um desporto muito caro para quem perceber alguma coisa de mecânica. A mim, como não sei nada, sai-me um bocadinho mais caro”. Parte da diversão dos amantes de veículos antigos consiste em procurar peças, quer seja em feiras ou em sucatas.
O maior sonho dos elementos do clube é uma visita à fábrica da insígnia alemã, em Ruesselsheim, pois, tal como o slogan “Wir leben Autos” (“nós vivemos carros”, numa tradução livre), eles próprios reconhecem a influência que a Opel tem nas suas vidas. | LM