Desde criança que Paulo Gameiro sonhava ser cientista, vestir a bata branca e passar horas a fio no laboratório. Depois da licenciatura em Bioquímica na Universidade de Coimbra, o sonho tornou-se real em Boston, onde integra uma equipa de investigadores de todo o mundo que deu, recentemente, um passo de gigante no estudo do cancro.

“Uma equipa de investigadores internacionais, que integra o português Paulo Gameiro, descobriu como se alimentam as células cancerígenas quando escasseia o oxigénio, abrindo assim novas perspectivas ao tratamento do cancro”. Foi assim que foi apresentado o resultado de mais de dois anos de investigação, recentemente publicado na prestigiada revista científica “Nature”. O trabalho dos cientistas e investigadores, na esmagadora maioria das vezes anónimo e sem rosto, ganha, subitamente, notoriedade. Foi assim porque os resultados o ditaram, porque a descoberta o justifica e porque lá longe, em Boston, no seio dessa equipa de homens e mulheres de bata branca, estava um português.

Paulo Gameiro nasceu em Lisboa a 1 de Março de 1986, dias antes de Stefani Germa-notta vir ao mundo em Nova Iorque. Lady Gaga, como é conhecida por milhões em todo o mundo, viria a distinguir-se no mundo do espectáculo. Paulo Gameiro procura dar o seu contributo no mundo da ciência e da investigação. A sua paixão pelo laboratório surgiu cedo: “A verdade é que sempre sonhei com uma vida de cientista, de bioquímico, a fazer experiências”, confessa ao AuriNegra. “Sempre me vi num laboratório, uma visão que pode ser redutora e que muitas vezes leva à pergunta ‘estarei a fazer o que mais quero e consigo?’. Penso que isso acontece em todas as profissões”.

Questões e dúvidas à parte, por estes dias é a este universo formidável que Paulo Gameiro se dedica de corpo e alma. O primeiro “sinal” veio quando descobriu os principais segredos da matéria: “Decidi seguir o caminho da Ciência quando aos 13 anos me apercebi de que nós éramos feitos de átomos. Mais tarde entendi que a bioquímica era a abordagem que me fascinava, e que queria seguir, para entender o corpo humano e as doenças”. Treze anos e uma licenciatura em Bioquímica pela Universidade de Coimbra depois, o investigador está onde e como quer, ou como se costuma dizer por terras do “Tio Sam”, está a viver o sonho.

Boston é, por agora, a sua “casa”, mas a cidade de Coimbra deixou marcas e saudade: “Vivi mesmo muito a vida académica e um dos meus sonhos é ter uma máquina do tempo para voltar atrás e viver tudo igual”. As recordações são muitas, aliás quase todas as que guarda de Coimbra entraram em definitivo para o livro das suas memórias. A “emigração” surge de forma natural, um passo na direcção do seu objectivo de aprender mais e, acima de tudo, viver mais. “A ida para o estrangeiro foi muito fácil, algo que sempre quis. Estar no estrangeiro é que foi outra conversa ao inicio… O meu objectivo em ir para o estrangeiro foi, à partida, um pouco mais imaturo, já que não se prendia com as possíveis condições em Portugal. Pensei que queria ir para aprender mais e ter outras experiências de vida”, recorda.

Células eficientes

Em Boston, os dias de Paulo dividem-se entre o MIT – Massachusetts Institute of Technology, e o Massachusetts General Hospital, onde estão localizados os dois laboratórios em que trabalha e em que tem sido desenvolvida a investigação cujos resultados foram recentemente publicados. “Vou para um sítio ou para o outro mediante o trabalho. Às vezes confundo-me e ando a fazer estafetas três vezes ao dia”, brinca. “É um dia normal, como o de tantos outros. Talvez um pouco mais frio”. Pedimos que nos explique, de forma simples e adequada a leigos, o que se passou nesses laboratórios nos últimos dois anos e meio.

“O trabalho foca-se nos mecanismos que permitem às células cancerígenas proliferar em condições de pouco oxigénio, ou hipóxia. A hipóxia é um ambiente característico dos tumores, que resulta da insuficiente irrigação sanguínea. Isto gera um ambiente de stress celular, mas a verdade é que os tumores são ‘programados’ para crescer, e crescem mesmo em hipóxia, metabolizando nutrientes de modo mais eficiente”, explica. Esta especificidade das células cancerígenas pode ajudar a perceber os seus mecanismos de proliferação, sendo uma mais-valia para estudos futuros e possíveis passos no sentido de encontrar uma solução para este crescimento anómalo.

“As células em hipóxia produzem gordura principalmente a partir de um aminoácido, a glutamina”, acrescenta. A esperança agora é que esta descoberta “possa ter implicações terapêuticas no futuro”. Entretanto, Paulo Gameiro vai continuando a investigar e “contribuir para o conhecimento”. Nos tempos livres, como qualquer português de gema, gosta de dar uns toques na bola. Quanto ao futuro, o regresso a Portugal é uma forte possibilidade.  | FC

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