Mário Silva nasceu a 29 de Novembro de 1929 em Bencanta, Coimbra. Tinha apenas cinco anos quando descobriu a sua aptidão para as artes. Ainda frequentou a Universidade de Coimbra, acabando por abandonar o curso de Engenharia Geográfica para dar total atenção à pintura, escultura, cerâmica, artes gráficas e arte pública monumental. A sua primeira exposição individual realizou-se em Coimbra, em meados da década de 1950, e desde então as suas obras percorreram vários salões mundiais. O estilo muito próprio, pautado pelo uso de cores quentes, valeu-lhe o reconhecimento nacional e internacional.
Os 82 anos de vida parecem não ter passado por ele. Rebelde e com um humor corrosivo, Mário Silva não resiste em contar uma piada e a soltar, logo de seguida, um ruidoso riso. Maçom assumido, membro do Grande Oriente Lusitano, com o nome de “Picasso”, falou-nos um pouco sobre a sua experiência numa sociedade secreta. A sua memória já o trai por vezes, mas a vitalidade certamente faz corar muitos homens com metade da sua idade. Se a escultura foi posta um pouco de lado, não se pode dizer o mesmo da pintura, arte que continua a praticar em Lavos, na Figueira da Foz. Já expôs em diversos países e algumas das suas obras encontram-se espalhadas pelos quatro cantos do Mundo, tanto em museus como em colecções privadas. Diz ser um “agnóstico romano” por acreditar na existência de Jesus Cristo, mas não na de Deus. Aliás, a admiração é tanta que a sua colecção pessoal de crucifixos chegou recentemente aos 100 exemplares. Fomos recebidos na sua casa-atelier sem qualquer tipo de cerimónias e poucos minutos depois já éramos tratados como amigos de longa data. E nem o “Pinto da Costa” (o cão de estimação) estranhou a nossa presença.
AuriNegra (AN) – Nasceu em Bencanta, corria o ano de 1929. Que memórias guarda da sua infância?
Mário Silva (MS) – A memória que melhor guardo é o local onde nasci, exactamente ao lado da “casa do juiz”. Convidaram-me para fazer lá agora uma exposição… Fiz a instrução na antiga igreja, que agora não existe. Lembro-me perfeitamente de ser miúdo e ir lá e ver aqueles trajes e respeitar aquela malta toda da igreja. Eu nunca fui baptizado. Então, no ano passado, decidi “auto-baptizar-me”. Meti uma hóstia na boca… (risos). Sou “agnóstico romano”.
AN – “Romano” porquê?
MS – Tem a ver com os crucifixos que colecciono. Considero-me agnóstico, não sou ateu. Acredito em Cristo, mas não acredito em Deus. Há provas de que Cristo existiu. Ora, quanto ao Deus que o matou… isso já não sei. Já pintei três ou quatro Ceias e uma das mais recentes é a “Ante-penúltima Ceia”, com o Cristo nu. Mas em vez dos apóstolos tem as “epístolas”, também elas todas nuas. Pedi ao D. Albino Cleto que me excomungasse, mas ele não quis (risos).
AN – Voltando à sua infância, considera ter sido um período feliz?
MS – A minha mãe morreu tinha eu três meses e depois fui criado pela minha tia Isabel, que vivia com os meus avós paternos, em Coimbra. Por isso é que eu gosto de desenhar tantas mulheres com mamas, porque eu nunca mamei (risos). Entretanto, o meu pai regressou de Paris e conheceu uma senhora alentejana, a D. Maria, e eu e a minha irmã fomos viver com eles. Tratava-a por “mãeinha”, porque não era mãe nem madrinha. Desse segundo casamento nasceram mais três raparigas e um rapaz que já morreu.
AN – É do conhecimento público que alguns artigos escritos pelo seu pai, também chamado Mário Silva, foram contestados por António de Oliveira Salazar, então no início de uma carreira de docente na Universidade de Coimbra (UC). O seu pai acreditava que se tratou de uma tentativa de censura ou mesmo uma perseguição?
MS – Tanto o meu pai como eu fomos perseguidos pelo Salazar. O meu pai era professor assistente na Faculdade de Ciências e começou a escrever sobre o Lamarck e a evolução das espécies num jornal de Coimbra. Isto em 1920. Passado uma semana, esses artigos eram derrotados pelo jornal dos padres, escrito pelo Salazar e pelo Cerejeira. Os textos vinham assinados por um professor assistente da Faculdade de Direito. Esse senhor, que não estava a gostar da brincadeira, chamou o meu pai e disse-lhe que não era ele o autor dos artigos e pediu-lhe para ter cautela. A partir daí começou uma guerra. Depois o meu pai foi para Paris trabalhar com a Madame Curie. Quando regressou a Portugal, voltou para o cargo de assistente na Faculdade. Acabou por se doutorar com base no trabalho que desenvolveu em França. Quando apresentou a sua tese aos catedráticos de Coimbra eles disseram: “Isto não está nada descoberto”. Então ele agarrou num livro da Madame Curie onde se lia: “Isto é um trabalho do meu querido amigo Mário Silva”. Eles ficaram à rasca e deram-lhe 19 valores. Depois disso ainda tentou que a Madame Curie viesse a Coimbra, mas isso não chegou a acontecer. Quando o Salazar já era ministro das Finanças quis construir o Instituto Português para o Estudo do Cancro em Lisboa. O meu pai queria inaugurar um instituto semelhante em Coimbra, baptizado por “Curie”, mas o Governo não deixou.
AN – O seu pai acabaria por ser detido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE)…
MS – Sim, em 1950. Esteve cinco meses numa cadeia no Porto. O chefe da PIDE do Porto interrogou-o e percebeu que ele não era comunista. Por ter gostado dele e por ver que era um tipo inteligente e que se dava bem com toda a gente, libertou-o. Quando o Salazar soube demitiu o gajo da PIDE. Este episódio não é conhecido por muita gente.
AN – O próprio mestre Mário Silva viria a ser preso. O que aconteceu para ir parar à cadeia?
MS – Sim, fui preso no Porto, em 1962, e depois transportado de comboio para Coimbra. Tínhamos perdido recentemente Goa, Damão e Diu e eu andava a passear-me no Porto com um barrete e um cachimbo indiano. Mas não foi só por causa disso que me prenderam. Eu namorava com uma alemã que trabalhava para a Krupp, uma empresa que fabricava armamento antes da Segunda Guerra Mundial. Quando cheguei a Coimbra perguntaram-me onde é que estavam as armas e quais eram as minhas relações com a senhora. Eu respondi: “sexuais”. É o que ficou escrito no relatório (risos).
AN – Matriculou-se em engenharia na UC. Mas nunca terminou o curso. O apelou das artes falou mais alto?
MS – Entrei para o curso de Engenharia Geográfica e depois mudei para o de Matemática. Não acabei nem um nem outro. Falta-me a cadeira de Mecânica Celeste para terminar engenharia. Por causa da pintura chumbei muitas vezes no liceu e entrei muito tarde para a Universidade. Já entrei com 26 ou 27 anos.
AN – Que idade tinha quando realizou a sua primeira exposição individual?
MS – Tinha para aí uns 25 anos. Expus no segundo piso do café Nicola, em Coimbra.
AN – Durante o período de estudante universitário co-fundou o Círculo de Artes Plásticas e as secções de Ballet e de Jazz da Associação Académica de Coimbra (AAC). Apreciava assim tanto ballet?
MS – Criei a secção de ballet porque na altura namorava com uma bailarina e queria que ela viesse dar aulas para Coimbra (risos). Ela era de Lisboa.
AN – E conseguiu?
MS – Sim, senhor. Quanto ao Círculo de Artes Plásticas, agarrei-me à Gulbenkian para arranjar financiamento, uma vez que o Estado não podia dar dinheiro. O director da Gulbenkian, que era advogado em Lisboa, namorava com uma amiga minha de Coimbra, que nos apresentou. Entretanto, um amigo meu foi para a fundação e achou que o Circulo de Artes Plásticas devia receber um subsídio vitalício.
AN – Na altura em que frequentava o ensino Superior a sua carreira de artista já ia avançada?
MS – Comecei a ser artista plástico com cinco anos. O meu pai estava em França e vinha cá passar as férias. Uma vez trouxe–me um Petit Larousse [dicionário enciclopédico]. Vi então pela primeira vez as ilustrações das bandeiras de todos os países do Mundo a cores. Rasguei aquilo, colei as bandeiras e fiz um quadro abstracto, como dizia a “mãeinha”. Foi daí que veio a minha paixão pela cor.
AN – E a escultura?
MS – Era miúdo e já fazia réplicas de cidades em barro. Lembro-me bem de ir para o pátio, ao lado das capoeiras, e brincar com as miniaturas de carros que me davam nessas cidades. Na primeira vez que fiz uma escultura acabei por inventar uma nova técnica.
AN – Em que consiste essa técnica?
MS – Arranjo um bloco de esferovite e depois vou-o queimando para desenhar rostos ou o que quiser. Ganhei um primeiro prémio em Gabicce Mare, Itália, em 1971, graças a esse processo. Tínhamos cinco dias para fazer uma escultura pequenina. Eu fiz uma em esferovite com dois metros. Depois deixei de usar essa técnica porque, mesmo usando máscara, tive problemas nos pulmões.
AN – Contou-me há pouco que antes de ir para a Holanda viveu durante um ano na Suécia. O que fez durante esse período?
MS – Gostava muito de assistir à chegada a Coimbra de excursões vindas do estrangeiro. Costumava levar as meninas para as repúblicas estudantis para dar uns beijinhos, mas não tínhamos relações sexuais, na altura era impossível. Então pensei “por que é que não vou para a Suécia? Há lá estas miúdas tão giras…”. Uma das vezes convenci uma espanhola que vivia ao pé de França para me meter na camioneta. E assim fui. Levei comigo três ou quatro quadros meus e um muda de roupa. Depois de França fui à boleia até a Suécia. Na Dinamarca chateei-me porque ninguém me dava boleia. Os condutores apontavam para a minha barba e diziam que não. Depois lá consegui ir de comboio até Amsterdão, onde fiquei um dia antes de seguir para a Suécia. Quando ia de barco encontrei um grupo de portugueses que também ia para a Suécia de férias, alguns deles médicos que conhecia de Coimbra. Integrei-me no “portuguese group” durante uma semana até arranjar estadia numa casa abandonada com mais três gajos: um sueco, um dinamarquês e um polaco. Depois mudei-me de casa.
AN – Tinha um emprego ou vivia apenas da arte?
MS – Fui criado de hotel no Hilton de Estocolmo. Quando o senhor Hilton veio inaugurar o hotel, vesti um traje árabe e fiz sangria para a comitiva, uma coisa que eles não conheciam. Primeiro bebi eu e depois dei a beber ao dono da cadeia Hilton. Ele ficou muito espantado com a cor do vinho. Os jornais suecos publicaram artigos a dizer que Mário Silva estava ali a estudar e a pintar, mostrando a minha foto a servir o senhor. Fiz aquela fita toda para aparecer nos jornais.
AN – Chegou a expor na Suécia?
MS – Fiz só uma exposição, curiosamente num sítio onde nunca tinham feito. Levei apenas 30 contos e era o preço que eles pediam para expor durante um dia numa galeria. Uma vez fui entrevistado por uma jornalista brasileira para a rádio do Estado sueco. Sugeri expor nas instalações da rádio, mas ela disse-me que para isso era preciso a autorização do rei. E lá fui eu falar com o rei (risos). Fui à embaixada de Portugal pedir umas credenciais e depois fui até ao palácio real. Quando lá cheguei pensavam que era doido, mas lá expliquei o que se passava. O rei mandou-me entrar e, em pleno Verão, encontrei-o a tratar da horta. Achou muita piada ao meu péssimo inglês e lá me deu a autorização. Passado um ano regressei a Portugal e depois é que fui para a Holanda. Dessa vez já fui de comboio e levei vários quadros. Ali fiz várias exposições, em Amsterdão e Roterdão, durante um ano e meio.
AN – Sei que viajou para outros países. Um deles o Brasil, certo?
MS – Quando vim da Suécia casei-me passado algum tempo com a minha primeira mulher, com quem tive uma filha que fundou a editora 101 Noites. Depois de a minha mulher morrer conheci a a actual esposa, mãe do meu rapaz, e fomos para o Brasil. Depois do 25 de Abril, a classe média em Portugal só comprava frigoríficos e autoclismos para casa, ninguém comprava quadros. Os ricos tinham fugido para o Brasil e eu fui ter com eles. Em 1973 tinha feito uma exposição em Angola onde ganhei três mil contos, muito dinheiro para a altura. Ainda hoje é. Em Maio de 1974 voltei a Luanda para reaver esse dinheiro que não me deixaram trazer para Portugal e tive de o gastar lá. De Angola fui para o Brasil, Argentina, Roma e Madrid.
AN – É verdade que antes do 25 de Abril vestiu-se de homem-rã e desfilou pelas ruas de Coimbra?
MS – Vesti, sim senhor. Tinha uma exposição de quadros alusivos à agua. Convidei o bispo para inaugurar a exposição. E o meu pai também lá foi… Quando eu saio vestido de homem-rã, em vez de beijar a mão ao bispo cumprimentei-o com o fato cujas mãos eram os dedos ligados por membranas das rãs. O bispo fugiu… eram só desgraças (risos).
AN – A sua carreira artística teve um grande impulso na década de 1960. Ainda se sente emocionalmente ligado a esses anos?
MS – Sim. Isso ainda se vê em certos quadros que pinto. Esses anos moldaram a minha personalidade. Os valores da liberdade, igualdade e fraternidade… E nessa altura, como sempre, tive o apoio do meu pai que nunca quis reprimir a minha arte.
AN – Tem obras patentes em alguns museus, um deles nos Estados Unidos da América, mais concretamente em Boston, e já recebeu um elevado número de prémios. Em que medida todos esses galardões são importantes para si?
MS – São importantes porque reconhecem algum mérito na minha pintura.
AN – É membro do Grande Oriente Lusitano (GOL). O seu avô pertencia a uma sociedade secreta mas, segundo me contou, o seu pai não. A partir de que momento quis ser maçom?
MS – Era miúdo e fiquei curioso depois de ver o Norton de Matos de avental. Sou maçom há uns trinta anos, embora neste momento esteja “adormecido”. Quando quiser volto ao activo. A minha iniciação aconteceu em Coja. Quando o António Arnaut escreveu um livro sobre a maçonaria pediu-me para lhe desenhar a capa e perguntou-me se podia dizer que eu era maçom. Eu disse-lhe que sim, sem qualquer problema. Muita gente ficou admirada. A partir daí sempre o admiti, mesmo em entrevistas para jornais. A minha alcunha no GOL é “Picasso”, por ser o meu artista favorito, a par de Vieira da Silva. Por outro lado, quando um membro de uma sociedade secreta pretende que ninguém o saiba, o seu passado só pode tornar-se público depois de ele morrer.
AN – Li numa nota biográfica que “consagra a existência a uma acção cultural, humanística e libertária, de contestação ao establishment”. Vê-se a si próprio como um inconformado ou um rebelde?
MS – Talvez as duas coisas, mas mais um rebelde. Quis ser sempre do contra, em quase tudo…
AN – Mestre Mário Silva, antes de terminarmos a nossa conversa pode contar-nos qual o segredo da sua jovialidade? Pratica exercício físico e tem cuidado com a alimentação?
MS – Deixei de praticar exercício físico no ano passado. Costumava ir nadar uma hora na piscina. Sempre pratiquei desporto. Joguei futebol e râguebi na AAC, mas depois magoei-me e tive de ser operado ao joelho. Como mais peixe do que carne e muitas verduras. Só bebo vinho tinto e champanhe. Levo uma vida regrada e não dispenso uma sesta a seguir ao almoço. | LM



Deixe um comentário
Comments feed for this article