José Maria Maia Gomes nasceu a 10 de Janeiro de 1953, em Casal do João, freguesia da Tocha. Filho mais velho de agricultores, viveu na Gândara até aos 17 anos, altura em que entrou no curso de enfermagem em Coimbra. O amor à terra natal fê-lo regressar à Gândara para exercer a profissão para a qual tinha estudado. 

Casado, pai de duas filhas e avô, conseguiu aliar a carreira profissional à vida de empresário e de político. Depois de ser vice-presidente da Câmara foi eleito primeiro secretário da Assembleia Municipal de Cantanhede, posição que ainda ocupa. A família, o associativismo, a Praia da Tocha e o futebol são indispensáveis na sua vida.

Fomos recebidos na casa de férias de Maia Gomes, situada na “sua” Praia da Tocha. Com o mar como cenário, o ex-vice-presidente da Câmara e actual primeiro secretário da Assembleia Municipal de Cantanhede levou-nos a fazer uma viagem até às suas primeiras memórias da região que o viu nascer. Essa mesma Gândara onde foi enfermeiro, dirigente associativo, empresário e autarca, e que marcou de forma indelével a sua personalidade.

Para se perceber a paixão de Maia Gomes pela região da Gândara, que o faz dizer com orgulho ser um “gandarês de gema”, é preciso recuar algumas décadas. Nasceu no seio de uma família de pequenos agricultores que retiravam da terra o seu sustento, “sempre à custa de grandes labutas diárias e com os resultados sempre dependentes do tempo que se fazia sentir”. Os “tempos difíceis” da década de 1950, como agora recorda, e as origens humildes não o impediram de passar uma infância feliz, durante a qual teve a oportunidade de formar o seu carácter. “Desde pequenino que os meus pais me incutiram aqueles princípios necessários para ser um homem, assentes nos valores da honestidade, da partilha, do trabalho e do cumprimento da palavra dada. Nessa altura, a palavra dada, que era selada com um aperto de mão, valia tanto como uma escritura”.         

Fora das horas dedicadas à aprendizagem, na escola primária da Tocha, divertia-se a jogar à bola, ao pião e a tantos outros jogos tradicionais, mas também ajudava nos trabalhos agrícolas, sempre que era necessário. Deu continuidade aos estudos no Colégio Infante de Sagres, em Cantanhede, e deslocava-se com os colegas num dos meios de transporte mais tradicionais da Região. “Íamos, em grupo, de bicicleta, quando os meus pés ainda mal chegavam aos pedais”. Junto aos jovens seguia, invariavelmente, a pasta de cabedal com o material escolar e a lancheira com o almoço. Nos dias de chuva, a única diferença era o fato de oleado que envergavam. “Nessa época, a camioneta de carreira só fazia uma viagem e não era compatível com os horários das aulas”, esclarece. “Foram tempos inesquecíveis, de brincadeiras pelo caminho, corridas de bicicleta… Enfim, são coisas que  hoje, quando nos reunimos, recordamos com muita saudade”.  

Mudou-se para Coimbra para estudar na Escola de Enfermagem Ângelo da Fonseca, sendo que a escolha do curso tinha um objectivo específico. “Sou do tempo em que havia uma grande apreensão pela Guerra Colonial. Eu acabei por não ir porque o 25 de Abril aconteceu quando eu tinha 20 anos. Mas previamente, até por influência do meu falecido pai, escolhi enfermagem pela hipótese de durante a tropa não ir para o mato, que era o grande medo. Normalmente, os enfermeiros com formação ficavam nos grandes hospitais”. Ainda assim, aliado ao aspecto pragmático juntaram-se outros no momento de escolher o curso. “Eu também gostava. E havia uma grande tradição na zona da Tocha de escolha de enfermagem, muito por força do Hospital Rovisco Pais”.

Os anos na “cidade do conhecimento” foram por si classificados de excepcionais. “Quando cheguei a Coimbra tinha 17 anos incompletos. Acabei o curso e comecei a trabalhar nos Hospitais da Universidade de Coimbra com 20 anos”. Pelo meio, aos fins-de-semana, aproveitava o tempo para estar com a mulher com quem se viria a casar e a ter duas filhas. O namoro com a jovem residente numa povoação vizinha da Tocha, que estudava na Figueira da Foz, intensificou-  -se graças às idas a bailes e outras festas populares. Mas também por via da correspondência trocada, isto quando o selo “custava dez tostões”. A partir do momento em que a sua actual esposa também foi estudar para Coimbra, a relação fortaleceu-se ainda mais. A marca deixada por aquela cidade faz com que hoje vão lá, por vezes, “só para matar saudades dos locais por onde andávamos”. 

 

O apelo irresistível 

Coimbra costuma despertar um sentimento de afecto a quem lá passa, mas no caso do casal gandarês outro apelo mostrou-se mais forte. Maia Gomes passou a trabalhar no Centro de Saúde de Cadima, já com o intuito de construir casa na freguesia da Tocha e por lá fazer vida. “Somos gandareses e gostamos muito da nossa terra”, sublinha. Tinha o enfermeiro 23 anos quando se casou com a professora do Ensino Primário e dois anos mais tarde foi pai da primeira filha, experiência que se repetiria dois anos e meio depois.

Cadima revelou-se uma “experiência muito interessante” por várias razões, sendo uma delas as reminiscências que trazia da sua infância passada num meio rural. “Do ponto de vista profissional, foi extremamente gratificante encontrar pessoas humildes, mas muito respeitadoras, embora com muitas carências de saúde”. 

No decorrer dos 14 anos na “capital do tremoço” aproveitou para se especializar em enfermagem de reabilitação e fisioterapia, frequentando o respectivo curso em Alcoitão, nos anos de 1979 e 1980. “A minha esposa teve um papel extraordinário. Eu pus sempre algumas reservas em ir porque tínhamos duas filhas muito novas, mas ela incentivou-me sempre”. 

Os conhecimentos que trouxe da Escola Superior de Saúde do Alcoitão foram-lhe úteis para abrir o Centro de Recuperação de Cantanhede, em 1981. Com o avançar dos anos, e com o aumento do volume de trabalho, acabou por criar uma sociedade com uns colegas. “Ao fim de 30 anos, decidi afastar-me. Havia necessidade de um novo projecto e como nenhuma das minhas filhas tinha caminhado para aquela área, acabei por ceder a minha quota aos outros sócios”. Apesar de estar desligado da unidade privada de medicina de reabilitação, o carinho que nutre por ela nunca se desvaneceu, recordando o facto de ter sido “a terceira” a ser licenciada a nível nacional. A bem da verdade, Maia Gomes refere-se sempre de maneira apaixonada, com um brilho nos olhos, a todos os projectos em que esteve envolvido.

Para continuar a progredir na sua carreira profissional concorreu ao Hospital de Cantanhede, corria o ano de 1988. Por ser o único enfermeiro-chefe durante algum tempo, chefiou diversos serviços, nomeadamente o de Urgência. “Entretanto fui fazer uma pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde para poder ascender ao topo da carreira”,  assumindo o cargo de enfermeiro-supervisor “relativamente novo”.    

Do associativismo à política 

As décadas no hospital cantanhedense foram divididas com as experiências no mundo da política local. Contudo, o gosto pelo trabalho em prol da comunidade iniciou-se no associativismo. Não tinha 25 anos e no seu currículo já constava o cargo de presidente da Associação Recreativa e Cultural “1.º de Maio”, da Tocha. Seguiram-se os cargos na Associação Desportiva Amadora da Tocha e no apoio à fundação da Associação de Moradores de Casal do João e Povoeiras. Mais recentemente, foi vice-presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede, durante três anos, integrou o grupo fundador da Associação de Desenvolvimento, Progresso e Vida, da qual é agora presidente da Assembleia-Geral (após a saída de José Tereso para a Administração Regional de Saúde do Centro), e é vice-presidente da Associação de Futebol de Coimbra, tendo à sua responsabilidade a área do futsal. “O associativismo sempre teve e continua a ter um papel muito importante na minha vida”.

A chegada de Maia Gomes à política activa aconteceu em 1988, pelas mãos do então sócio no Centro de Recuperação de Cantanhede, Luís Patrão, depois deste o ter convencido a filiar-se no Partido Social Democrata (PSD). O passo seguinte consistiu em fazer parte da Comissão Política da Secção de Cantanhede do PSD. “À excepção de um mandato, tenho sempre feito parte das comissões políticas da concelhia. Actualmente, sou o vice-presidente. Também pertenci, por duas vezes, à comissão política distrital do PSD”. 

Em 1993 foi eleito deputado à Assembleia Municipal de Cantanhede e o “bichinho” nunca mais o largou. Manteve o cargo até 1997 e no ano seguinte tornou-se vereador na presidência da Câmara de Jorge Catarino, posição mantida durante dois mandatos, à excepção de 2004 e 2005, quando assumiu a vice-presidência da Câmara. De responsável pelos pelouros da Cultura, Desporto, Associativismo e Grandes Eventos, passou a ser o número dois da autarquia, substituindo João Sá. “O João Moura [actual presidente da Câmara] ficou com os meus pelouros e eu fiquei com os do João Sá, na área administrativa e financeira”. “Foram oito anos excepcionais. Julgo que fizemos um trabalho espectacular, de grande desenvolvimento do Concelho. Isto teve muito a mão do Jorge Catarino, que é uma pessoa brilhante, de grande carácter, com uma capacidade de trabalho incrível e um grande líder. Também soube construir uma grande equipa”.     

Aposentado do Hospital de Cantanhede desde 2006 é, nos dias que correm, o primeiro secretário da Assembleia Municipal, coadjuvando Jorge Catarino na gestão das sessões onde está presente uma nova geração de políticos em que deposita grandes esperanças. O último “cargo” que “aceitou” desempenhar é, sem dúvida, o que lhe dá mais prazer: ser avô. “Ouvimos falar o quão é bom ser avô, mas quando o experimentamos supera todas as expectativas”.   

 

A praia, os chutos e os pontapés

“A Praia da Tocha é uma paixão que já vem dos meus antepassados”. Os domingos eram dias sagrados no decorrer da meninice de Maia Gomes e o antigo palheiro da sua avó funcionava como uma segunda casa. Lembra-se de ter quatro ou cinco anos e vir da Tocha sentado numa almofada ajeitada por cima do varão da bicicleta do seu pai. “Chegava cá com as pernas dormentes. A minha mãe vinha sentada no suporte com o cesto da comida ao colo, a ‘condensa’, e o meu pai vinha sempre a dizer-lhe: ‘Vai olhando, não venha a Guarda Republicana por aí’. É que, naquela época, as bicicletas eram multadas se transportassem mais que um passageiro…”

Na sua memória guarda as vezes que os pais ajudavam na arte xávega e, ao nível gastronómico, as batatas assadas na areia permanecem uma imagem tão viva que quase lhe consegue tocar. O pitéu era ultimado na taberna do “Toino Puto”, proprietário do “único palheiro de primeiro andar que existia no areal da praia e que está imortalizado numa pintura de Júlio Resende”.

“A Praia da Tocha é tão importante para as pessoas da Tocha que, se repararmos, um número significativo de famílias tem casa nos dois locais”, mesmo que distem uns meros sete quilómetros um do outro.

O futebol é outra das paixões de Maia Gomes, uma “apetência especial” que deu os primeiros sinais quando andava na escola primária. Uma vez que não havia formação para os escalões mais novos, só pôde pôr em prática os seus dotes de futebolista mais a sério aos 17 anos.

No União Desportiva da Tocha foi jogador por mais de duas décadas, treinador, director e até enfermeiro massagista. “Ainda jogo nos veteranos”. Vestiu também as camisolas d’”Os Marialvas” e do Cadima, embora o clube da Tocha seja o que lhe está no coração, tanto que recentemente aceitou o desafio de pesquisar e reunir pedaços da sua história para darem origem a uma publicação.

“Curiosamente, foi no futebol que conheci o Jorge Catarino e o João Sá, numa altura em que o concelho de Cantanhede tinha quatro equipas na 3.ª Divisão Nacional: Tocha, “Marialvas”, Febres e Ançã. Troquei algumas caneladas com o Jorge Catarino quando ele jogava pelo Febres, e com o João Sá, pelo Ançã. Foi assim que nos conhecemos, longe de imaginar que quase vinte anos mais tarde viríamos a fazer parte da mesma equipa na Câmara Municipal”.

 

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