Alfredo Pinheiro Marques nasceu a 24 de Agosto de 1956, em Figueiró da Granja, concelho de Fornos de Algodres. Filho mais novo de um casal de docentes do ensino Primário, cresceu na Beira Alta e depois seguiu para Coimbra. Frequentou o curso de Direito e esteve envolvido em vários projectos na área cultural, antes de se inscrever em História, a sua verdadeira paixão. Casado, sem filhos, já percorreu vários países em congressos e foi coordenador científico do Comissariado de Portugal para a Expo 92. A residir na Figueira da Foz, fundou, em 1995, o Centro de Estudos do Mar e desde então tem publicado dezenas de livros e artigos sobre os pescadores portugueses.
Foi no meio do espólio do Centro de Estudos do Mar e das Navegações Luís de Albuquerque (CEMAR), instituição que Alfredo Pinheiro Marques dirige, que ficámos a conhecer o seu percurso de vida. Uma vida que começou na Beira Alta e que agora passa mais pela Figueira da Foz e Mira, sendo esta última considerada pelo próprio como a sua terra “adoptiva”, e onde recebeu a Medalha de Ouro de Mérito do Município. Figura polémica para alguns e homem de convicções fortes para outros, o historiador é, sem sombra de dúvida, uma pessoa dinâmica, determinada e sem “papas na língua”.
Seria uma tarefa hercúlea ousar descrever todos os assuntos que despertam interesse a Alfredo Pinheiro Marques, isto por serem muitos e variados. Ainda assim, há alguns que saltam à vista de quem visita o seu espantoso escritório na biblioteca do CEMAR, na Figueira da Foz. É o caso da cultura nipónica, de onde se destaca uma réplica em tamanho real de um local para o treino de artes marciais, o designado dojo. Um fascínio que até já levou o historiador a frequentar aulas de língua japonesa e que surgiu no seguimento de um artigo da sua autoria sobre a cartografia portuguesa do Japão, publicado numa edição especial do Correio da UNESCO por si coordenada em 1989. A propósito de publicações, para além das científicas, as mais numerosas, o seu currículo conta com 28 textos pessoais e literários, aos quais se juntam 142 artigos de opinião, divulgação e de circunstância, muitos deles na revista Sábado e no, entretanto extinto, Jornal de Coimbra.
Objectos índios, miniaturas das sagas cinematográficas “Guerra das Estrelas” e “Senhor dos Anéis”, LP ’s (muitos) de Leonard Cohen, o seu cantautor de eleição, misturam-se numa harmonia difícil de explicar com mapas antigos e uma imensidão de documentos e livros disponíveis para o público consultar. Aquele é o seu “mundo”, multicultural como não podia deixar de ser, não fosse a cartografia uma das suas maiores paixões. E a forma, quase hipnotizante, com que fala da História e das suas estórias desarma os mais desprevenidos.
Já desembarcou em dezenas de países para participar em congressos ou em reuniões científicas. Mas parece ser na vila de Mira que descobriu o seu “porto de abrigo”, tendo na última década e meia ali desenvolvido um notável trabalho de investigação junto da comunidade de pescadores. No entanto, não foi à beira-mar que o investigador cresceu.
Corria o ano de 1956, quando a pequena aldeia de Figueiró da Granja, no sopé da Serra da Estrela, viu nascer Alfredo Pinheiro Marques. Filho de dois professores do ensino Primário, confessa ter tido, desde novo, contacto com a Cultura. “Alguém disse, creio que Jorge Luís Borges: ‘O Mundo é a biblioteca de nossa casa’. É por isso que é importante haver bibliotecas nas casas das pessoas. No meu caso li ‘A Cidade e as Serras’ [de Eça de Queirós]. Já vivia na serra e fiquei cheio de vontade de ir para a cidade”, brinca.
Ainda na Beira Alta dedicou-se de corpo e alma ao “desporto-rei”, criando um clube de futebol na sua aldeia “a imitar a Académica de Coimbra. Mais tarde deixei de gostar de futebol e hoje em dia considero-o um cancro da sociedade portuguesa”. Aos 17 anos, depois de concluído o Secundário no Liceu Nacional de Viseu, partiu rumo à “cidade dos estudantes”. “O horizonte de todos os beirões, nessa época, era estudar, crescer e esperar ir para Coimbra”.
O sonho e a desilusão
Por vontade do seu pai, outrora delegado escolar e também Presidente da Câmara Municipal de Fornos de Algodres, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (UC), a poucos meses do 25 de Abril de 1974. “Estive no centro dos acontecimentos. Observava e participava tanto quanto era possível a um jovem participar”. Nos anos seguintes envolveu-se em várias causas e integrou a direcção do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra. “Somos considerados precursores na arte do pós 25 de Abril. Colaborei com o meu amigo Ernesto de Sousa na célebre Alternativa Zero, em 1977. Antes disso, tínhamos feito a Semana de Arte na Rua, em 1975”.
Direito acabaria por não se revelar a sua inclinação, tendo abandonado o curso ao fim de três anos para abraçar a área que o seduzia desde a infância: a História. A prova disso mesmo, recorda, foi a leitura de uma enciclopédia quando tinha 12 anos de idade. “À medida que os volumes iam chegando eu lia-os. Parece uma coisa um pouco ridícula, mas pode ter uma grande utilidade. Dá-nos uma grande ginástica mental. É evidente que não li a enciclopédia inteira, deixava escapar os artigos mais científicos, de mineralogia e coisas desse género. Mas os de zoologia também lia…”.
A bússola da sua vida apontou para a Faculdade de Letras da UC (FLUC) e a sua atenção passou a estar mais virada para os acontecimentos do passado. Pôs de lado as actividades ligadas ao meio das artes plásticas e nunca quis exibir nenhuma das suas obras gráficas. Resume os tempos ligados à organização de eventos e produção artística como “uma fuga ao Direito”.
Enquanto cursou História assistiu às aulas de alguns professores que hoje considera seus mestres, como é o caso de Maria Helena da Rocha Pereira e Salvador Dias Arnault, seu orientador. Essa etapa foi concluída, em 1981, com a nota final de 17 valores, e veio a ser contratado como docente da FLUC um ano mais tarde. Logo em 1987, lançou a obra “Guia da História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa”, pela Biblioteca Nacional de Portugal. “Era o guia da minha área científica e que até então em Portugal nunca ninguém havia elaborado”.
Curiosamente, a sua carreira de historiador despontou sob a influência de um professor da Faculdade de Ciências da UC. Luís de Albuquerque forneceu ao discípulo as bases necessárias para se especializar em cartografia antiga, descobrimentos geográficos e navegações. “É o meu verdadeiro mestre nesta área da cartografia”, afirma com orgulho. “Era o continuador de uma escola, chamada Centro de Estudos de Cartografia Antiga, que existia no Departamento de Matemática”, remontando ao tempo de Armando Cortesão, co-autor dos volumes que compõem a monumental obra “Portugaliae Monumenta Cartographica”. Esta publicação elaborada em parceria com o almirante Avelino Teixeira da Mota reúne, em seis volumes, as reproduções dos principais mapas desenhados pelos portugueses na época dos Descobrimentos. Desde os finais da década de 80, Alfredo Pinheiro Marques tornou-se o responsável pela apresentação e adendas de actualização das reedições dessa obra colossal da cartografia. “Desde 1961, esses volumes são usados por Portugal como prendas de Estado oferecidas aos líderes estrangeiros”.
“Eu sou a única pessoa da Faculdade de Letras [de Coimbra] que passou para a escola de Armando Cortesão e Luís de Albuquerque. Provavelmente, isso é também uma boa explicação para a razão de nunca ter tido boas relações com a minha própria escola”. A desilusão com a “cidade do Mondego” fê-lo acompanhar o mentor para Lisboa, apesar de manter o cargo de professor universitário.
Uma questão de memória
Os anos na capital foram profícuos e as iniciativas desenvolvidas a nível internacional passaram a ser uma constante. Em 1992, foi nomeado coordenador científico executivo do Comissariado de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha, Espanha. “Depois afastei–me, discretamente, e já não fui responsável pela versão final do Pavilhão de Portugal na EXPO 92”. Entretanto, a sua vida sofreu um duro golpe com a morte do confidente e mentor, então Presidente do Conselho Científico da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP). Pinheiro Marques manteve a sua colaboração com a Comissão até se ver envolvido num episódio que fez correr muita tinta na imprensa nacional. No cerne da polémica esteve um texto seu, intitulado “A Maldição da Memória e a Criação do Mito – O Infante D. Pedro e o Infante D. Henrique nos Descobrimentos”, solicitado para um número especial da revista “Oceanos” da CNCDP. Um artigo que nunca chegou a “ver” a luz do dia nessa revista, por decisão do director da publicação, Vasco Graça Moura, levando o historiador a acusá-lo de censura. “A partir daí passei, da noite para o dia, de um autor oficial e oficioso para um autor maldito”.
“Como resposta” lançou, em 1995, “A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses”, que considera o livro “mais significativo” que escreveu “em toda a sua vida”. Nessa obra teve a oportunidade de explanar a sua tese em que, basicamente, destaca a relevância do infante D. Pedro, e do seu neto e herdeiro D. João II, em detrimento do Infante D. Henrique, tradicionalmente tido como o precursor dos Descobrimentos. “Nunca até hoje nada do que escrevi foi contestado, ou me foi apontado qualquer erro ou ignorância, por ninguém, em nenhuma obra publicada. Se alguém disser que sou um historiador polémico, só me posso rir”.
Alfredo Pinheiro Marques nunca foi homem de baixar os braços e, já longe de Lisboa, deu continuidade aos seus projectos na área da cartografia. Com mais tempo livre teve a oportunidade de se debruçar sobre outra matéria central nos Descobrimentos, desta vez relacionada com o Atlas Miller. “Em minha opinião, foi feito por um grupo de cartógrafos e um pintor do rei D. Manuel para a sua jovem terceira esposa, D. Leonor, irmã do imperador Carlos V. Foi uma prenda luxuosa e impressionante, mas que tem um sentido mais complexo do que parece. Há ali um logro geopolítico, uma tentativa de ludibriar a coroa de Castela, convencendo Carlos V a não executar a viagem de Fernão de Magalhães. O objectivo era fazer circular informação errónea, tentando convencer os castelhanos de que não era possível circum-navegar o planeta. E, portanto, valia mais desistirem e não mandarem a expedição. Não foi conseguido, porque eles fizeram mesmo a viagem. Portanto, o Atlas Miller, o mais célebre da época dos Descobrimentos, afinal não serviu para nada!”. Ou, como o jornal espanhol El País titulou: “Atlas para chegar a nenhuma parte…”.
Desde 2002, mantém uma parceria com uma editora sediada em Barcelona, com a qual já colaborou em duas obras. “A Moleiro Editor é o líder mundial em termos de edições luxuosas de mapas antigos”, explica.
“Durante a última dúzia de anos enriqueci-me com outro tipo de experiências”, em vez da docência no Departamento de História da UC. Descobriu “um mundo completamente diferente, muito mais rico, que é aquilo a que chamo ‘o mundo dos mais pobres dos pobres’, os pescadores, sobretudo os da arte do arrasto para terra”. “Tive a felicidade de encontrar esta gente de Mira, Tocha, Furadouro… desde Espinho à Vieira, e a honra de passar a ser um gandarês adoptivo”.
Se é mar…
O CEMAR nasceu pelas mãos de Alfredo Pinheiro Marques no ano de 1995, assumindo-se como uma associação científica privada sem fins lucrativos. A sua sede foi transferida para Mira, no ano de 2007, mantendo-se em Buarcos (Figueira da Foz) o seu arquivo, biblioteca e centro de documentação. A juntar a essas funções, o CEMAR está direccionado para a investigação e acção cultural, embora o ponto de partida seja sempre o mesmo: o “mar e o que, através dele, fizeram e fazem os portugueses”.
Uma das particularidades daquela associação é a proximidade que tem mantido com as instituições e comunidades onde actua, nomeadamente na Figueira da Foz, Mira, Praia de Mira, Coimbra, Montemor-o-Velho, Penela e Aveiro. No caso de Mira, o derradeiro reconhecimento à figura de Alfredo Pinheiro Marques aconteceu em 2008, com o município a entregar-lhe a Medalha de Ouro de Mérito. Enquanto centro de edição e distribuição, o CEMAR é responsável por mais de 50 publicações, e no âmbito dos eventos já são mais de uma dezena os colóquios e outros encontros organizados.
De acordo com o Director, que viu o seu projecto ganhar o estatuto de utilidade pública, o centro de estudos irá ter uma nova instalação museológica autónoma, baptizada “Casa do Infante Dom Pedro”, embora ainda não haja uma data certa para a sua edificação nem esteja decidido onde se localizará. | LM



3 comentários
Comments feed for this article
Dezembro 26, 2011 às 23:30
alcard8
Tenho muito prazer em ter o Professor Pinheiro Marques como meu conterraneo.
Isto de Historia ja lhe vem de sua familia, pois foi um seu tio-avo; o Monsenhor Pinheiro Marques, a investigar a historia local e a publicar a primeira e ate hoje unica, monografia do nosso municipio (Fornos de Algodres) em 1936.
Parabens pelo excelente trabalho e um abraco dalgodrense.
Fevereiro 12, 2012 às 14:11
José Paulo Costa Paz
Olá Alfredo, tropecei aqui no artigo e envio-te um abraço
Zé Paulo Costa Paz
Dezembro 12, 2012 às 18:18
Antonio Guilherme Gonzalez
Professor Pinheiro Marques após leitura do seu livro sobre as Inscrições na torre de menagem do castelo de Olivença e tendo eu próprio “descoberto” este ano aqueles interessantes registos tentei em vão entrar em contacto consigo.
Será que me poderia contactar para antonio_guilherme10@hotmail.com ou para o telem. 918302227 ?
Muito grato pela atenção.
António Gonzalez