A Casa de Chá da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Coimbra, em pleno Parque de Santa Cruz, é um espaço único e de referência na Cidade. Ambiente calmo e relaxante, um cenário idílico e atendimento especial cuidado e personalizado, são alguns ingredientes desta receita de sucesso.

A antiga Casa do Guarda do Parque de Santa Cruz, espaço verde no coração de Coimbra por muitos conhecido por Jardim da Sereia, acolhe, desde o início de Fevereiro, a Casa de Chá da APPACDM – Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental. O cenário é idílico, qual floresta de conto de fadas que envolve a pequena casa branca como um manto verde e brilhante. A atmosfera é mágica, as árvores frondosas e os esguios bambus que resguardam a Casa de Chá conferem-lhe uma aura de mistério e conforto, fazendo-nos sentir protegidos do mundo exterior, para lá dos muros de vegetação que circundam o espaço.

Sentados na esplanada ou olhando através de uma janela, absorvemos a pacatez e a tranquilidade do Jardim, vislumbramos a Fonte recortada para lá da nossa “muralha” vegetal, percebemos algumas sombras que se movem como que num outro plano. Invade-nos uma tranquilidade inenarrável. A luz de uma tarde fria de Inverno, filtrada por entre folhas e ramos, aquece timidamente o nosso rosto. Dentro da casa, o tempo parece não ter valor. Quem vai não se importa de esperar, quem atende não conhece pressas e gestos súbitos e repentinos.

Forrada a papel de parede de cores vivas, a própria sala é um convite a deixarmo-nos ficar, a saborearmos o momento juntamente com os deliciosos bolos caseiros que ali são servidos. Bolacha, mel, canela, todos com óptimo aspecto e ainda melhor sabor, acompanhados por um dos 30 chás disponíveis ou um chocolate quente fumegante. Paulinho, um dos utentes da Associação, é um dos empregados de mesa de serviço. Não sabe escrever, estendendo, por isso, um papel e uma caneta a cada um dos visitantes da Casa de Chá. O sorriso e a doçura com que cumpre as suas funções deixam saudades, num mundo e num tempo em que por detrás dos balcões estão, cada vez mais, máquinas em vez de seres humanos.

É na Casa de Chá e depois de bebermos do seu ambiente que encontramos Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra, que prontamente nos explica a génese deste projecto: “É um projecto com muitos anos, que surgiu com a ideia de construir na Casa do Guarda do Jardim um restaurante da APPACDM. Entretanto houve alguns problemas legais, porque o guarda não queria abandonar a casa, mas depois de resolvidas essas questões assumimos um compromisso com a Câmara de Coimbra, no caso com o Dr. Carlos Encarnação, em que a Autarquia ficaria responsável pelas obras, já que não tínhamos condições para o fazer, e nós ficaríamos com o usufruto do espaço”, recorda.

O autarca de Coimbra “abraçou o projecto com ambos os braços, que acabaria por ser adaptado aos tempos que correm, já que o projecto inicial era de maior dimensão e implicava custos de manutenção mais elevados”, confessa a responsável. O que a Casa de Chá pode ter perdido em dimensão, ganhou, seguramente, em proximidade e intimidade, com funcionários e clientes a estabelecerem na maior parte das situações relações de amizade e familiaridade num ambiente informal e descontraído, que nos faz sentir em casa, desde que pela primeira vez transpomos a bonita porta envidraçada.

Espaço de respeito e aprendizagem

“Este é um espaço muito importante para nós. Primeiro, porque os funcionários deste espaço são jovens do Centro de Actividades Ocupacionais (CAO), que aqui trabalham a tempo inteiro, ou jovens da nossa área de formação profissional, que aqui têm acesso à componente prática dos seus cursos”, diz. Para além de ser um espaço que permite a integração dos jovens utentes da APPACDM em contexto real de trabalho, dá a conhecer a Associação e aproxima-a da comunidade: “Queremos que a Instituição vá para dentro da comunidade e queremos que a comunidade venha para dentro da Instituição, e este é um espaço que privilegia estes dois movimentos. Para já traz os nossos jovens para dentro de Coimbra, num dos mais bonitos espaços da cidade, e depois obriga as pessoas a virem para dentro da APPACDM”.

A Instituição está, aliás, muito presente e viva em toda a Casa de Chá, das paredes em que estão impressos a missão e os valores da Associação, aos próprios jovens que ali trabalham e são o rosto da diferença que muitos não querem encarar. “Este é um aspecto muito importante para nós, pois a deficiência mental é das mais dificilmente integráveis. São jovens que reagem de maneira diferente daquilo que estávamos à espera e isso ainda não é bem aceite. Este espaço acaba por fazer com que nos adaptemos ao ritmo deles, algo que é muito importante e que nos faz perceber que se fizermos esse esforço eles são pessoas tão úteis ou mais do que nós, tão simpáticas ou mais do que nós”, assegura.

Este é um processo de aprendizagem contínua que beneficia ambas as partes envolvidas. Do lado dos jovens com deficiência mental, aprende-se a conhecer a realidade e vive-se o sentimento de utilidade e de valor para o outro. Do lado dos visitantes, aprende-se a respeitar e a ser mais tolerante, a encarar, olhos nos olhos, a diferença. “A Casa de Chá tem sido muito bem recebida, tem feito sentir que a população de Coimbra abraçou, desde o início, este projecto. As pessoas que cá vêm, fazem-no com a disposição de inclusão e de aceitar a diferença, sabem que devem vir com uma perspectiva diferente”. Esta é uma experiência que deixa marcas em todos os intervenientes mas que tem um impacto especialmente forte nos jovens que por ali passam.

“Os jovens do Centro de Actividades Ocupacionais têm deficiência moderada a profunda, que são os que trabalham aqui a tempo inteiro, neste momento o Paulo e o Bruno. Para eles esta é uma experiência extremamente gratificante, sentimos que eles cresceram enquanto pessoas. Sentem-se trabalhadores, sentem que passaram a um nível superior de aprendizagem e de vida. A nível de auto-estima também acontece algo extraordinário, pois eles sentem, talvez pela primeira vez, que podem ser úteis e integrarem-se activamente na sociedade”. O trabalho é uma importante ferramenta de integração social, mas infelizmente não está ao alcance de todos. No caso dos utentes dos CAO’s, está ao alcance de muito poucos, o que se tem revelado como mais um obstáculo à realização pessoal e profissional do cidadão com deficiência mental. “No mundo competitivo em que vivemos, estes jovens têm cada vez menos espaço”, confirma Helena Albuquerque.

Sabores de inclusão

“Este é um espaço em que queremos que as pessoas se sintam bem, em que o ambiente natural e humano seja aproveitado. Aqui não há funcionários a despachar o cliente nem com maus modos, pois uma característica dos nossos jovens é que aquilo que fazem, fazem com vontade e com alegria”, assegura a presidente da Associação. A lista de aromas e sabores é vasta, com destaque para os gelados, crepes e bolos que são especialidade da casa, a que se juntam sumos naturais, batidos com leite de vaca ou de soja, chocolates quentes diversos e três dezenas de chás e infusões naturais. Os licores caseiros, as caipirinhas e as sangrias adoçam os finais de tarde ou inícios de noite de quem procura um espaço diferente para partilhar um momento especial.

Fátima Rebelo está ligada à APPACDM há 22 anos, “profissionalmente mas sempre com vocação e muita dedicação”, conta ao AuriNegra. É uma das responsáveis pela Casa de Chá e está desde 1996 ligada à Formação Profissional da Associação, actualmente na área de Serviço de Mesa. Tem como missão orientar e apoiar os jovens que ali estagiam e trabalham, assumindo que este é um trabalho “muito gratificante” e que o Paulo e o Bruno são “uma preciosa ajuda nos afazeres do estabelecimento”. Paulinho, o funcionário de serviço na tarde em que nos deslocámos à Casa de Chá, está entretido a repor garrafas de água no expositor, que começavam a escassear. “O Paulo está muito integrado, está a gostar muito da experiência e já revela muita autonomia”, confirma Fátima Rebelo.

Para além do serviço de cafetaria, a Casa de Chá oferece refeições ligeiras e o menu do dia, sempre no período de almoço, com a refeição completa a custar seis euros. As saladas e sandes especiais são uma alternativa mais ligeira para quem pretende uma refeição económica mas de elevado valor nutricional. Se à variada oferta juntarmos a simpatia e o calor com que fomos recebidos, não esquecendo o maravilhoso cenário envolvente, temos a certeza que mais dia, menos dia, os nossos passos vão levar-nos de novo ao Parque de Santa Cruz, para mais momentos especiais e “miminhos” à la carte. Os sabores da inclusão também se podem provar e saborear e são recomendados para todos os tipos de dieta.

Pro-actividade precisa-se

A Casa de Chá pertence ao sector empresarial da APPACDM de Coimbra, a que se juntam a Clínica de Reabilitação Física de S. Silvestre, uma empresa de lavagem automóvel, uma rede de recolha de óleos usados e uma empresa de manutenção de espaços verdes, a que se junta uma unidade hoteleira na Tocha. “Cedo percebemos que a sobrevivência da Instituição passava por esta angariação de fundos não dependentes dos Estado, que nos possibilita dar aos nossos jovens a qualidade de assistência que eles necessitam”. Este é um sector que a Associação pretende desenvolver cada vez mais, já que os responsáveis vão sentido cada vez mais que “o Estado está a sufocar”. “Se não tivéssemos este sector empresarial lucrativo possivelmente já teríamos fechado. As Instituições têm, cada vez mais, que arranjar maneira de se auto-financiarem”, defende.

No horizonte encontra-se, para já, a criação de um lar residencial em Arganil, que permitirá acolher entre 20 e 25 cidadãos com deficiência mental. “Os jovens com deficiência estão a atingir cada vez mais longevidade, porque são tratados condignamente e a medicina permite que ultrapassem alguns problemas de saúde. Por isso precisamos de estruturas que os possam acolher, como os lares residenciais”. Na zona de Arganil, a dispersão dos utentes, o fraco serviço de transportes públicos e as longas distâncias a percorrer fazem com que muitos dos jovens não cheguem a sair de suas casas para frequentarem o Centro de Actividades Ocupacionais. O lar residencial é, por isso, uma necessidade urgente para a APPACDM de Coimbra. “Esperamos que em dois anos possamos ter os jovens de Arganil instalados no novo lar residencial. Assim a Tutela perceba a urgência do nosso projecto”. | FC