Maurício Lemos não teve um percurso igual ao de tantos outros sacerdotes. Nascido no Brasil, cursou Engenharia Civil, Direito e foi gestor. A vida boémia e os negócios da família deixaram de fazer sentido após um episódio trágico que vivenciou de perto. A fragilidade da vida fê-lo reflectir sobre a sua própria existência e, para surpresa de alguns familiares, inscreveu-se no Seminário. Foi ordenado sacerdote aos 49 anos e é pároco em Febres há dois anos. Entretanto, venceu uma luta contra o cancro.

Os antepassados de Maurício Lemos saíram de Bragança há mais de um século para Passos, no Brasil. Foi na pequena paróquia, hoje uma das cidades mais populosas do estado de Minas Gerais, que o homem que viria a ser padre em Febres passou os primeiros anos de vida. Nasceu em 20 de Julho de 1957. “Sou garotão!”, diz sem resistir em soltar uma forte gargalhada.

Filho de um advogado, confessa ter tido uma infância “muito feliz”. Recorda a biblioteca do seu progenitor, composta por “cinco mil livros”, entre eles muitos sobre filosofia e teologia. “A minha mãe era pianista e uma mulher bastante culta, apesar de não ter um curso superior”. “Venho de uma família privilegiada, não só pela cultura, mas também pelos recursos”. Muitos dos seus nove irmãos e irmãs alcançaram carreiras de sucesso, o que leva o padre a dizer, em jeito de brincadeira, que é “o mais burro lá de casa”. 

Aos 11 anos conheceu a dor de perder um ente querido, com o falecimento do irmão mais velho. “Era formado em telecomunicações. Foi o melhor aluno de uma escola em Santa Rita do Sapucaí. Quando recebeu o diploma, na volta para casa teve um acidente e morreu”. Quatro anos depois outra tragédia viria a abater-se sobre a família Lemos. Na sequência do desaparecimento do filho mais velho, a mãe do jovem Maurício perdeu “a alegria de viver” e acabou por deixar o mundo dos vivos.

Uma parte da adolescência de Maurício Lemos já foi passada em Belo Horizonte. “Os filhos cresceram e ali havia universidades. O ‘papai’ foi para nós estudarmos melhor”. O seu pai, que além de causídico era também empresário, “tinha uma rede de drogarias e uma indústria de fármacos”. No entanto, não se passaram muitos anos até se mudarem de “malas e bagagens” para o Rio de Janeiro.

Na cidade “carioca” completou o ensino Secundário e seguiu para Engenharia Civil, embora não tenha terminado o curso superior. “Ficou faltando umas ‘materiazinhas’ para pegar o diploma. Nessa altura eu já era responsável por uma empresa de consultoria…”. Apesar de os negócios da família lhe roubarem bastante tempo, ainda se aventurou a estudar Direito. Admite ter sentido um fascínio pela área, mas antevendo o seu futuro no seio de uma “Justiça muito morosa”, preferiu manter–se  como gestor.

Depois de ter terminado a relação com uma namorada, passou a dedicar-se ainda mais ao trabalho. E à boémia. “Trabalhava muito e ganhava igual aos meus irmãos que tinham família. Saía para a noite, tinha uma casa na praia, em Búzios, e isso propiciava ter muitos contactos com mulheres bonitas. Frequentava os melhores lugares do Rio de Janeiro…”, recorda.

A presença inexplicável

O “chamamento”, como gosta de descrever, surgiu após outro duro golpe, dessa vez com a irmã Maria “Teresinha” que não resistiu a um parto. “Todos os meus irmãos sofreram muito, mas aquilo a mim calou-me a nível existencial”. Deixou o seu apartamento para mudar a residência para casa do pai e as idas à missa passaram a ser uma constante. “Voltei a ler os grandes clássicos da literatura. Em vez de ir para os clubes nocturnos comecei a ir ao teatro… a ir mais para o lado da cultura”. 

Apaixonou-se por São Francisco e diz ter lido uma das suas obras “umas vinte vezes”. “Comecei a rezar mais. Subia para uma mata perto de casa com a Bíblia ou outros livros de meditação e passava lá as manhãs. Fui mudando… os valores foram mudando. Até que um certo dia, numa eucaristia, senti uma presença de Jesus tão grande, mas tão grande que é difícil descrever”. 

Antes de ponderar seguir uma carreira religiosa ainda se empenhou em actividades junto dos mais carenciados, no município de Niterói. “O meu pai ficava felicíssimo, mas os meus irmãos não me apoiaram. Achavam que estava ficando doido. Levava mendigos para dentro de casa. Uma vez a minha madrasta ia-me matando por ter levado uma criança”.   

Com 32 anos e já com a experiência de muitos retiros espirituais decidiu, finalmente, entrar para o Seminário da Ordem dos Palotinos, tendo frequentado o noviciado em Paraná. Um percalço no grupo empresarial familiar obrigou-o a abandonar a sua formação antes de ser ordenado padre. Reassumiu o seu cargo de gestor durante oito anos e voltou a enamorar-se por uma mulher. “Estava praticamente casado e com casa feita. Mas nunca larguei a religião. Quando ia à igreja e via um padre a celebrar a missa ficava com os olhos cheios de lágrimas”.   

O seu director espiritual dos tempos do seminário haveria de ser transferido para a paróquia onde Maurício Lemos vivia (a que acolhia o Padre João Pedro, agora em Febres) e a “fome juntou-se com a vontade comer”. “Não voltei para os Palotinos. O meu pai tinha acabado de morrer e fui para Belo Horizonte estudar teologia”. 

Sem contratempos e, como era sua vontade, foi ordenado padre diocesano, aos 49 anos. “Tive a oportunidade de voltar atrás”. A vontade de ser missionário e trabalhar com os mais desfavorecidos levou-o a filiar-se na União do Apostolado Católico. Contra a sua vontade, quis o destino que poucos anos depois viesse para Febres. “Vim por obediência. O João Pedro mandou e não arredou pé”. 

Há dois anos enquanto sacerdote na unidade paroquial de Febres, Vilamar, Corticeiro de Cima, São Caetano e Praia de Mira, faz um balanço bastante positivo. “A realidade daqui é tão parecida com a da minha infância que passado um mês de cá estar já era conhecido de todo o mundo. É tudo muito igual, senti-me em casa e bem acolhido pelo povo”. E a devoção à Nossa Senhora de Febres é tanta que lhe atribui a responsabilidade pela cura de um cancro na próstata que o afectou recentemente. “O povo fez vigílias e rezou muito por mim. Acho que o destino era mesmo vir para cá. Seria aqui que teria os médicos e a assistência espiritual do povo”. No Verão passado fez os primeiros votos para integrar a Sociedade do Apostolado Católico e ser palotino. | LM

Anúncios