João dos Reis Alegre de Sá nasceu em Ançã, Cantanhede, no dia 6 de Outubro de 1957, apenas dois dias depois do primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik, ser enviado para o espaço pela União Soviética. Foi naquela bonita vila histórica que cresceu, por entre brincadeiras e cadernos escolares, namorou junto à fonte, casou e é lá que ainda hoje vive. Cursou Direito na Universidade de Coimbra e cedo descobriu a sua vocação dentro do mundo da Lei: escolheu a área de gestão hospitalar, carreira que iniciou nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Os bons serviços lá prestados levaram-no até Castelo Branco, onde foi um dos responsáveis pelo “renascer das cinzas” do Hospital Amato Lusitano.
João Alegre de Sá não esconde a paixão pela terra que o viu nascer. Brilham–lhe os olhos quando fala de Ançã, vila encantadora que é sinónimo de água cristalina e abundante, e foi junto da Fonte local que quis ser fotografado para este trabalho jornalístico. Foi ali que lançou a âncora da sua vida e dos seus afectos, e onde fez questão de regressar sempre. Cursou Direito e seguiu o caminho da gestão hospitalar, tendo passado por unidades como os Hospitais da Universidade de Coimbra, o Hospital Amato Lusitano em Castelo Branco e o Rovisco Pais, na Tocha.
Recebe-nos com um sorriso rasgado, bem-disposto, e vai agradecendo a honra de termos pensado nele, João Alegre de Sá, para esta rubrica do nosso Jornal. Justificamos a escolha, dizemos que era incontornável. Afinal tem um percurso notável na área da gestão hospitalar, foi vice-presidente da Autarquia de Cantanhede, é sobejamente conhecido das gentes do Concelho e, como se não bastasse, foi durante alguns anos a alegria dos adeptos do Clube de Futebol Os Marialvas, primeiro, e do Ferryaço, o “seu” Ançã Futebol Clube, depois. Só este “currículo” já chegaria, mas João Alegre de Sá mostrou merecer estar nestas páginas por muito mais. É uma pessoa simples, directa e disponível, que ama Ançã e revelou ser um excelente guia para dar a conhecer a beleza e os tesouros que a vila, inegavelmente, detém.
“Passei toda a minha infância em Ançã e são muitas as memórias que guardo desse tempo. Memórias da vivência quotidiana com os meus amigos, crianças também. Não havia jardim-de-infância nem creche, os nossos pais eram pessoas que, na sua maioria, dedicavam-se à agricultura ou a outras actividades que consomem muito tempo, os meus, por exemplo, eram padeiros, e por isso éramos criados uns com os outros, na rua”, recorda. As brincadeiras somavam–se, os brinquedos, esses, eram mais raros e, regra geral, de “produção própria”: “Inventávamos brinquedos e reinventávamos brincadeiras. Desde que estivesse bom tempo, tínhamos que vir para a rua divertir-nos uns com os outros, por isso há sempre vivências e histórias para contar. Naquele tempo os dias eram maiores e julgo que a nossa infância, mais sadia, proporcionava a criação de laços de amizade e solidariedade muito mais fortes do que aqueles que hoje se criam”, defende.
O palco das brincadeiras e do fazer e desfazer de amizades e alianças também deixou a sua marca, indelével, nas lembranças deste homem da Lei. A sua Ançã mudou, não era, há mais de quatro décadas, a mesma de hoje: “Ançã, na minha meninice e adolescência, tinha características bem diversas. As profissões, por exemplo, eram diferentes, as pessoas esperavam com ânsia a chegada do domingo para irem ver o Ferryaço [Ançã Futebol Clube]. Hoje as pessoas têm outros espaços para estarem e mesmo do ponto de vista geográfico e territorial de Ançã, as coisas mudaram muito. Hoje há outro centro social e de encontro dos jovens, dos que no meu tempo eu costumava chamar os ‘mãos nos bolsos’, rapazes e homens que eu via da janela da casa em que vivia, e que ao domingo à tarde se reuniam às dezenas para conversar ou merendar”.
Nem gandareses, nem bairradinos
A infância passou num sopro e cedo chegou a hora de ir para Cantanhede, prosseguir os estudos. Frequentou durante dois anos o Liceu D. Duarte e concluiu, depois, os estudos liceais na Secundária que entretanto abrira. “Integrei-me muito bem em Cantanhede e a minha adolescência lá foi muito rica do ponto de vista social. No Liceu conheci uma realidade muito mais aberta e franca, na fase de transição do Antigo Regime para a Democracia. Vinha habituado a um modelo educativo muito mais rígido do que aquele que encontrei lá. Era um contexto que facilitava a proximidade entre nós, estudantes, e criaram-se relações de amizade e fraternidade que ainda hoje perduram”. Findo o sétimo ano era necessário cumprir o “serviço cívico”, que consistia, “por exemplo, em colaborar com os serviços administrativos de instituições públicas”. O jovem ançanense acabou por cumprir uma espécie de ano cívico forçado, por não estarem abertas candidaturas ao ensino superior, na padaria de seus pais. “Trabalhava de noite e de madrugada, e ao fim do dia treinava pelo Ançã”.
Já se tinha decidido pelas Humanidades e sabia que haveria de cursar Direito em Coimbra. “Interrompi a minha actividade de padeiro e frequentei a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Concluí o curso em 1983”. Não viveu muito a Academia, até porque continuou a residir em Ançã, mas recorda o ressurgimento “da capa e batina, da serenata e da Queima das Fitas. Não posso dizer que não tenha vivido esses momentos, porque vivi, mas não com a intensidade de quem reside perto da Academia”, esclarece. Quanto ao curso escolhido, não se sentiu defraudado, mas a escolha da via profissional revelou-se um pouco menos óbvia. “Ainda fiz o estágio de advocacia, mas cedo percebi que o meu perfil e as minhas características não se coadunavam com o exercício da advocacia. Tem a ver com o carácter de cada um, percebi que não tinha jeito”.
Enquanto procurava e estudava uma alternativa, surgiu a oportunidade de se candidatar a um curso de pós-graduação em Administração Hospitalar. “Tive a felicidade de ter sido um dos 20 candidatos seleccionados, o que se traduz numa alteração no rumo da minha vida. Saio de Ançã e de Coimbra, e sigo para Lisboa, onde, durante um ano e meio frequentei esse curso”. Seguiram-se os estágios, em Viseu e em Coimbra, nas recém-inauguradas instalações dos Hospitais da Universidade de Coimbra. “Nunca tinha visto o edifício e quando lá entrei pela primeira vez dei conta que era verdadeiramente assustador, do ponto de vista da dimensão. No final do estágio fui convidado para celebrar contrato por parte do Conselho de Administração, então presidido pelo Prof. Norberto Canha, ilustre ortopedista”.
Empenho e dedicação
Leonor Beleza assume a pasta da Saúde e é nomeado presidente do Conselho de Administração o Prof. Meliço Silvestre, “mais uma figura incontornável daquele Hospital e que muito admiro. Eu era, então, o mais jovem dos 14 administradores da equipa dos HUC. Fui então chamado pelo Conselho de Administração para ser o gestor da área hoteleira, que integrava, por exemplo, serviços de alimentação, limpeza, rouparia, jardins, segurança e tratamento dos resíduos hospitalares. É uma área que não começou tão grande mas que foi crescendo gradualmente, e na qual trabalhei durante mais de seis anos”. Após uma breve passagem pelo Conselho de Administração do Hospital de Anadia e pela Administração Regional de Saúde do Centro, aceita o desafio de ir implementar uma nova estrutura e um novo projecto no Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco.
“Era um Hospital com mais de 800 funcionários e 200 camas, com uma importância regional enorme, que estava a viver um período muito difícil do ponto de vista da gestão. Fiz as malas e parti para Castelo Branco, apesar de estar bem em Coimbra, muito por obrigação, pela amizade e o respeito que nutria pelo Dr. Lopes Martins, que me endereçou pessoalmente o convite”. Apesar da renitência inicial, acabou por ser uma experiência bastante enriquecedora: “Não estou nada arrependido, foi muito gratificante. Apesar de estar longe da família e dos meus, tive a sorte de integrar uma equipa extraordinária”. O seu desempenho foi, aliás, reconhecido por Castel-Branco da Silveira, o Presidente do Conselho de Administração desse Hospital, que em circular enviada em 1996 expressou o seu “profundo agradecimento e gratidão pelo seu empenhamento, capacidade e competência”.
Nas idas e vindas da vida, regressa a Coimbra, onde trabalhou alguns anos, até receber um convite que o fez trocar a gestão hospitalar pela autárquica. “Fui convidado pelo Dr. Jorge Catarino, meu colega de carteira no Liceu, para integrar a lista candidata à Câmara de Cantanhede. Tomámos posse no início de 1997 para o primeiro mandato”. Recorda como “antecedentes políticos” a ida a Aveiro, com o pai, para assistir a um comício do PSD, em que interveio Sá Carneiro. “Era eu adolescente, julgo que foi um dos primeiros comícios do Partido”. Dos dias enquanto vice-presidente da Autarquia recorda “um projecto extraordinariamente ambicioso e uma equipa fantástica. Acho que este executivo virou a página no concelho de Cantanhede. Em quase todas as áreas tivemos intervenção de grande vulto e apenas quem viveu esse período pode perceber a sua dimensão”.
Fez parte da equipa que transformou o Rovisco Pais no Centro de Reabilitação de referência que é hoje, “sob a presidência do Dr. Santana Maia, personalidade de vulto em diversas áreas, já que foi Bastonário da Ordem dos Médicos e Governador Civil, entre outras funções de destaque”. Hoje está ligado ao Hospital do Arcebispo João Crisóstomo, em Cantanhede, o seu lugar de quadro. Antes de darmos por concluída a conversa, é inevitável o regresso a Ançã: “É lá que gostaria de ser fotografado para o AuriNegra”, confessa João Alegre de Sá. “Por que não?”, pensamos nós, afinal, Ançã acabou por ser transversal ao nosso diálogo. “Eu costumo dizer que nasci, cresci, casei, tive filhos e vivo em Ançã, e por lá continuarei. Penso, sinceramente, que será o meu destino final. Sou um apaixonado pela minha terra”. Há coisas que não se explicam, vivem-se. E o sentimento de quem é ançanense é, sem dúvida, uma dessas coisas.
Bom de bola
João Alegre de Sá teve no futebol uma das suas paixões de mocidade. “Tudo começou por brincadeira, tinha eu os meus dez ou onze anos. O senhor Álvaro Garrido, de Ançã, reunia os miúdos e acompanhava-os aos domingos de manhã no campo do Ferryaço. Foi uma brincadeira que depois não teve continuidade, a minha formação é de futebolista de rua, e a rua era uma grande escola”. Ao contrário do que se possa imaginar, a carreira “mais a sério” não começou no Ançã, mas sim no arqui-inimigo e rival de Cantanhede: “Tive oportunidade de representar o Marialvas na equipa de juniores, eu e mais cinco amigos de Ançã. Encontrámos um ambiente fabuloso, apesar de à época haver grande bairrismo entre Ançã, com os seus valores e as suas aspirações, e Cantanhede. Hoje esse ambiente já não é notório, está bastante esbatido, mas naquele tempo era evidente”, admite. Ançã, que em tempos tinha sido sede de concelho, acabou por aceitar o novo estatuto, de freguesia, e hoje a convivência entre ançanenses e cantanhedenses é pacífica.
As bolas de farrapos, tantas vezes pouco redondas, deram lugar a bolas de futebol “a sério”, e o talento de João Sá falou por si. “Depois de ter sido Campeão Distrital de Juniores no Marialvas, no ano em que fui, em simultâneo, o mais jovem dirigente de sempre do Ançã Futebol Clube com apenas 17 anos, mudei para o clube da minha terra. O Ferryaço subiu aos Nacionais nesse ano e joguei lá durante vários anos, na III Divisão. Tínhamos uma característica que não era comum nas provas nacionais, éramos verdadeiramente amadores, não recebíamos dinheiro algum”. Representou ainda a equipa de veteranos e deixou a sua marca na história do colectivo de Ançã, este defesa central que se gaba pouco das conquistas desportivas que alcançou, mas que fala muito dos grandes amigos que conquistou. | FC



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