Jorge Manuel Barreira dos Santos Rosado  nasceu em Moçambique, a 7 de Dezembro de 1968. Ainda bebé, veio para Portugal e viveu um ano em Lisboa, num período em que o seu pai sofreu um grave acidente que o colocou em coma. Após a recuperação, a família deslocou-se para Chaves e depois para Braga. Terminado o Ensino Secundário seguiu para Coimbra, onde se licenciou em Educação Visual e Tecnológica. É professor há quase duas décadas e reside em Cantanhede. No entanto, é hoje mais conhecido pelo personagem que criou, baptizado como palhaço Kaki. 

Uma roda-viva. É assim que se pode descrever a infância e adolescência de Jorge Rosado. Do Continente africano para Lisboa e depois para o Norte de Portugal, a constante mudança de residência nunca lhe permitiu criar “raízes”. Ainda assim, confessa que essa agitação fez crescer nele uma apetência para se dedicar a várias áreas. A licenciatura em Educação Visual e Tecnológica levou-o a tornar-se professor, uma profissão que diz nunca ter sido o seu sonho, mas que o ajudou a sustentar a sua família. Sendo um homem de interesses variados, há anos descobriu uma nova vocação. Por um mero acaso vestiu-se de palhaço e nunca mais quis largar o traje. Criou um personagem, de seu nome Kaki, e das animações de festas de aniversário passou a actuar em palcos. Apostou fortemente na formação, principalmente no estrangeiro, e já ganhou vários prémios. Como se não bastasse dividir a sua atenção entre a família, a docência e os espectáculos, escolheu enfrentar mais um desafio: o Palhaço de Hospital. Através dele proporciona momentos divertidos a crianças hospitalizadas.

AuriNegra (AN) – Vamos recuar umas décadas até à sua meninice. Que memórias guarda dos anos passados em Braga?

Jorge Rosado (JR) – Sou uma pessoa que não tem muita tendência para reviver o passado, gosto mais de me preocupar com o que posso fazer no futuro. As minhas recordações de infância são um bocado complicadas porque, durante um período da minha vida, andei constantemente a “saltar” de sítio em sítio e acabava por ser complicado criar algumas raízes. Por um lado é mau, mas por outro possibilitou-me arranjar algumas “ferramentas” que me ajudam a travar amizades rapidamente. Gostei muito de Braga. Os meus grandes amigos estão lá. É uma cidade gira e muito virada para a religião, o que me permitiu conhecer essa faceta do ser humano.

AN – Considera-se um homem religioso?

JR – Ao fim de muito tempo a reflectir sobre isso, a grande conclusão a que cheguei é que não sou uma pessoa suficientemente inteligente para dizer que existe ou não um Deus. Tenho amigos de todo o Mundo e de várias religiões e respeito todas as correntes e ideias. Essencialmente, todos procuramos criar uma entidade, seja lá o que for, à qual possamos recorrer nos momentos mais complicados da nossa vida. Gosto mais de estudar essa questão do que propriamente responder a essa pergunta. No entanto, toda a minha formação é católica. Fui sacristão na Sé de Braga e venho de uma família muito religiosa. Mas também não gosto de ser radical no sentido de achar que nós católicos somos os detentores da verdade. O importante é as pessoas encontrarem dentro delas algo que lhes permita sentirem-se bem.

AN – Completou o Ensino Secundário em Braga. Quando é que decidiu qual a área que queria cursar na Universidade?

JR – Sempre tive várias ideias para o meu futuro. Não gosto muito de estar quieto nem de ter o meu cérebro dedicado a uma só área. Tinha o sonho de ser desenhador de automóveis e também gostava muito de desporto. Iniciei o liceu com intenção de seguir engenharia mecânica, mas achei que aquele não era o meu caminho. Repeti o 10.º ano e fui para electrotecnia, mas a meio do ano vi que também não era aquilo que queria. Finalmente, escolhi artes. Acabei por utilizar esse curso para entrar na Escola Superior de Educação de Coimbra, em Educação Visual e Tecnológica, no ramo do ensino.

AN – Como correu a experiên-cia na “cidade dos estudantes”?

JR – Todos os que por lá passam dizem que os marca de forma diferente. Não sou uma pessoa que goste muito de dormir. Estudava, trabalhava e à noite aproveitava para me divertir.

AN – Qual era o seu emprego?

JR – Mesmo não tendo formação na área, durante um período cheguei a estar à frente de um ginásio na parte de musculação para os atletas de body combat. Na altura era um estudioso, principalmente da alimentação desportiva. Foi a partir daí que comecei a responder a perguntas de pessoas e a ajudá-las.

AN – Não deixa de ser curioso ter-se dedicado a duas áreas tão diferentes…

JR – Isso tem a ver com a questão de ter mudado várias vezes de local, o que criou em mim uma necessidade de “disparar em vários sentidos”. Também já me debrucei sobre a informática, a fazer páginas para a Internet. Há um episódio muito interessante que explica isso. No meu 11.º ano tirei seis valores a Geometria Descritiva, isto quando pensava ir para a Faculdade de Belas-Artes do Porto. Nesse Verão, durante o dia trabalhei para o meu pai, que tinha uma oficina de mecânica automóvel, e à noite tinha explicações. Em Setembro, após três meses de estudo, fiz a cadeira com 12. No 12.º ano meti na cabeça que ia aplicar-me na disciplina. No final desse ano lectivo, a nível nacional houve três ou quatro alunos com 19,5 valores e eu fui um deles. O que quero dizer com isto é que quando há algo que acho aliciante, eu dedico-me de corpo e alma.

AN – Concluiu a licenciatura e começou logo a leccionar. Sempre quis ser professor?

JR – Não, nunca. Aliás, nos tempos de estudante era um bocado rebelde contra eles. No meu 9.º ano, um professor de Filosofia disse-me que poderia vir a ser um professor mais ou menos porque sabia o que não gostava neles. Isso marcou-me. Mas, assumidamente, ser professor nunca foi o meu sonho. Precisava de trabalhar, já tinha uma filha e a minha ex-mulher estava desempregada. Alguém tinha de sustentar a família e surgiu essa hipótese.

AN – Onde foi colocado?

JR – No primeiro ano em Montemor-o-Velho, depois em Febres. Foi lá que fiz grandes amizades. Gostei imenso. As pessoas de Febres são muito simpáticas. Actualmente dou aulas em Mira.

AN – Como surgiu a paixão pelas artes circenses?

JR – Em 1992, apresentei um projecto aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) para animar os doentes. Mas nunca responderam ao meu pedido. A principal razão que me levou a materializar alguns “bichinhos” que tinha escondidos dentro de mim foi quando me divorciei da ex-mulher. A situação não foi fácil para os dois e houve uma altura em que achava que ia perder as minhas duas filhas. Esse sentimento de perda e impotência, de querer vê-las e não poder, fez-me perder 20 quilos. E trouxe em mim uma vontade de querer animar crianças, principalmente em situações complicadas. Por outro lado, também nasceu pela necessidade de ter uma outra actividade profissional que permitisse colmatar os encargos que passei a ter.

AN – Em que momento da sua vida nasceu o palhaço Kaki?

JR – Nasceu há cerca de sete anos. Uma pessoa amiga estava a organizar uma festa de aniversário e disse-me que não conseguia arranjar um palhaço. Convidou-me e eu aceitei. Isto foi a uma terça ou a uma quarta-feira e a festa era no sábado. Durante esses dias quase não dormi a fazer roupas, a pensar como me havia de pintar. Lembro-me de ter feito uma mala de cartão com a ajuda da minha mulher. E então fui animar essa festa. Foi uma “palhaçada”, digamos. Não tinha experiência nenhuma, mas a coisa começou a espalhar-se. Construí uma página para a Internet e comecei a receber alguns pedidos. Seis meses depois, soube que um enormíssimo palhaço ia dar um curso em Barcelona. Esta minha paixão levou-me a ir com a minha esposa, uma figura muito importante na minha vida. Lembro-me de serem cinco da manhã e já estar à porta da companhia de teatro. Estava muito entusiasmado. Tive a sorte de ter logo formação com um “tubarão”, o Alex Navarro, que já trabalhou no Cirque du Soleil. Ao regressar a Portugal criei o personagem Kaki.

AN – Qual a origem do nome e quais as suas características?

JR – Quando andava a pesquisar nomes tinha uma lista com várias propostas. Um dia vinha no elevador com a minha filha e ela saiu-se com essa palavra. Depois vim a saber que é um fruto brasileiro. Mais recentemente descobri que em israelita significa porcaria. O Kaki bebe um pouco do palhaço tradicional, ou seja, é trapalhão, provocador, mas foge à imagem de partir pratos, ser agressivo e fazer barulho. É falador, fala até demais. Enfim, vai buscar muito ao Jorge Rosado, mas é mais extrovertido.

AN – Quem visitar o seu Website facilmente percebe que frequenta muitas formações. Este aspecto é muito importante? 

JR – Tenho um amigo que é contra isso, acha que um palhaço deve ser livre. Todos os anos recebo formação porque “parar é morrer”. Aprendemos sempre algo novo e também nos obriga a estarmos constantemente atentos e a querermos saber mais. Principalmente porque tenho contactado com profissionais em que cada um tem uma visão diferente da profissão. Não gosto de dizer que sou o palhaço da alegria, infantil, poético ou calado. Acho que vou buscar um pouco a todas essas maneiras diferentes de representar.

AN – As formações que frequenta são em Portugal?

JR – Não. Essencialmente no estrangeiro. A última formação que tive foi em Outubro, em Israel.

AN – No nosso país essa vertente ainda não tem muita expressão?

JR – Durante algum tempo, o Chapitô, em Lisboa, dedicava–se a essa área. Depois, na fase inicial da minha carreira, passou a dar mais atenção ao meritório trabalho de recuperação de meninos de rua e com problemas de toxicodependência. Pôs um pouco de lado a parte da formação. Só havia muito raramente.

AN – O que é preciso dominar para se ser um bom palhaço?

JR – Para mim, ser palhaço é como ser médico. O nível de dedicação, estudo e trabalho é semelhante. Temos de estudar a psicologia humana para quando chegarmos a um determinado espaço tirarmos rapidamente uma fotografia do tipo de pessoas que temos à nossa frente. Uma coisa que tenho aprendido com uma recente experiência a trabalhar para um grupo empresarial é recorrer só à palavra e não à mimica ou a truques. É preciso saber “ler” as pessoas e saber se estão a achar ou não piada. Também temos de saber estar e projectar a nossa voz. É preciso possuir uma visão a quatro dimensões, isto é, como se estivéssemos suspensos numa grua a ver o que se passa à nossa volta para nos adaptarmos. A nossa função é a mesma de um músico ou de um mágico: animar e trazer as pessoas de um mundo cada vez mais triste e deprimido para um estado de espírito diferente.

AN – Gosta do mediatismo?

JR – Não, até me causa um pouco de pânico. Quando considerar estar preparado, posso vir a aceitar trabalhar na televisão. Trabalhar no mundo do espectáculo iria obrigar a estar mais tempo fora de casa. Mas não é esse o meu objectivo. A minha atenção está toda virada para a minha família. Esta é a vida que idealizei.

AN – Isso quer dizer que já recebeu convites para a televisão?

JR – Ainda há pouco tempo recebi um do canal Panda.

AN – É um artista que faz espectáculos um pouco por todo o País e já foi distinguido com vários prémios. No entanto, diz que pouca gente da sua área de residência conhece o seu trabalho. Por que será?

JR – O meu nome começou a ser falado em alguns meios e eu fiz tudo para passar despercebido em Cantanhede. Talvez por uma questão de segurança que me permitisse manter uma zona de conforto.

AN – O seu projecto mais recente, de cariz voluntário, chama-se Palhaço de Hospital. Descreve-o como sendo o mais ambicioso. Em que consiste? 

JR – Esse projecto mexe comigo. É a experiência mais bonita da minha vida. Trabalho com os HUC, a Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, a Acreditar, e com a Associação Amigos dos Queimados. Gosto de contactar com crianças que estão num estado frágil. Sempre que tenho um tempo livre dedico-me a isto. Eu já tenho um cachê que a maior parte das pessoas não consegue pagar. Por isso é que cada vez mais sou requisitado para grandes empresas. Acabo por trabalhar para pessoas que têm a sorte de a vida lhes sorrir. A seguir o meu coração precisa de ser compensado e isso acontece quando vou ao hospital e estou com as crianças internadas. Neste momento estou a estudar uma ideia no sentido de poder visitar mais assiduamente o Hospital Pediátrico de Coimbra ou a casa da Acreditar. Na área da investigação gostava de recolher dados, por forma a que as instituições que estão a nascer, e que precisam de chegar a um patrocinador, possam ter estudos que mostrem a importância de um palhaço na recuperação de uma criança.