Ília Figueira Pessoa nasceu em Fontinha, Febres, a 12 de Novembro de 1936. Ainda não tinha 10 anos e já era empregada doméstica, profissão que ainda hoje desempenha. Conheceu as agruras da vida bem cedo e a falta de tempo livre não lhe permitiu completar o Ensino Primário em criança. Decidiu aceitar o desafio de frequentar aulas para poder leccionar a catequese e, aos 21 anos, deu a sua primeira lição. A quase totalidade da sua carreira enquanto catequista foi passada na paróquia de Febres. Em 2004 decidiu abandonar o ensino religioso, mas a vocação nunca foi posta de lado. Hoje, são muitos os que recordam o papel importante que a D. Ília teve nas suas vidas.   

Ília Pessoa é uma daquelas pessoas que “transpira” humildade. A simplicidade do seu carácter chega a ser desarmante e a fé por que se rege parece inabalável. Desde tenra idade conhece o que custa a vida, tendo abdicado de muitos prazeres em nome do trabalho. Enquanto jovem mulher agarrou a oportunidade de se tonar catequista e apenas deixou de o ser no dia em que decidiu afastar-se. Apesar de já não leccionar, diz continuar a passar a palavra de Jesus Cristo a todos os que a rodeiam.

Uns cadernos antigos e uma bíblia são colocados em cima da mesa da sala de sua casa, na Fontinha, a terra que a viu nascer. Mesmo antes de começar a nossa conversa, e apenas alguns minutos após nos apresentarmos, tornava-se clara a importância atribuída aos anos que passou como porta-voz da mensagem de Cristo. Ília Pessoa perdeu a conta ao número de crianças e jovens com que contactou, ao longo de várias décadas de catequese. Pode não saber quantos alunos ensinou, mas dos seus rostos não se esquece, Mesmo que, por vezes, a memória a traia, conforme nos avisou. Do lado dos “seus” petizes, as recordações são gratas. Basta falar com alguns habitantes da freguesia de Febres, onde exerceu a missão de evangelizar durante várias décadas, para perceber o carinho que nutrem pela catequista.

A septuagenária é filha de uma doméstica e de um vendedor ambulante de ouro, que mais tarde se dedicaria, pon-tualmente, à carpintaria. É a segunda filha mais velha do casal, à qual se juntam três irmãos. Em jeito de homenagem póstuma, o nome do seu pai, Carlos Gomes Pessoa, foi atribuído à travessa que acolhe a moradia da D. Ília, como é mais conhecida. “Era um homem muito sério”, recorda, com natural orgulho.

Enquanto outros meninos e meninas preenchiam as horas livres com as tradicionais brincadeiras dos petizes, a jovem contribuía para o orçamento familiar. “Como tinha muito trabalho, só fiz a terceira classe”. Por altura do sexto ano de catequese, foi “servir para o padrinho”. “Também ia guardar os meninos de um tio, na Pedreira, a ganhar três escudos por cada tarde”. Com apenas 11 anos saiu da sua aldeia natal rumo a Amor, concelho de Leiria, indo ajudar uma família originária de Arrancada nas lides domésticas. Cuidava de cinco crianças, tratava dos quintais e ainda prestava auxílio na loja do patrão. A seu cargo estavam também as refeições diárias para os funcionários do estabelecimento comercial. As solicitações pareciam multiplicar-se e, mesmo para uma jovem não habituada a queixumes, as responsabilidades começavam a pesar. Cientes disso mesmo, os empregadores acabaram por contratar outra trabalhadora para auxiliar a incansável moça.

As saudades bateram mais forte sendo que, ao fim de dois anos, regressou para juntos dos seus. Voltou para um ambiente socioeconómico bastante diferente daquele que caracteriza a localidade da Fontinha na actuali-dade. “Era o maior lugar da freguesia de Febres, com mais casas e mais pessoas. Agora não. A população está envelhecida. Muitos emigraram e só vêm cá de tempos a tempos”. 

O convite irrecusável

Com 15 anos arranjou novo emprego, na Quinta dos Tarelhos, Cantanhede, como empregada doméstica de uma senhora que, mesmo não o sendo, tratava por “madrinha”. “Morei lá durante 13 anos e servi ainda mais nove”. 

No entanto, embora escassos, havia momentos de descontracção. “O meu divertimento era com a minha ‘tia’ Lurdes e duas senhoras solteiras, que vinham seroar, bordar e ler. Até se tapava o relógio da cozinha, para não se verem as horas. Era um convívio sadio porque eram pessoas religiosas e boas. Eu sentia-me bem, ali com elas”. E, pontualmente, também havia direito a umas curtas viagens. “Depois de o meu ‘padrinho’ morrer, quando a minha  ‘madrinha ‘ ia passear levava-me sempre consigo. Passeios realizados, principalmente, para umas termas no Norte de Portugal. “Parece mal dizê-lo, mas dava a impressão que lhe queria tanto como à minha mãe. Passei a minha mocidade com ela…”. 

Houve tempos em que Ília Pessoa chegou a cuidar de “mais de 12 casas”. “As pessoas dizem–me que estou velha e que não paro. Então, pois não… A minha reforma é muito pequenina…”, confessa. Pelo meio de tantas responsabilidades acabaria por descobrir, através da “tia” Lurdes Perpétua, uma vocação para a qual estava talhada. “Ela convidou-me a ir às reuniões em Cantanhede, ao domingo, para aprender a dar a catequese. Aprendíamos mais sobre a vida de Jesus Cristo para podermos transmitir às nossas crianças”. Por vezes chegou a frequentar retiros espirituais, dirigidos a catequistas, no Colégio São Teotónio, em Coimbra. “Havia sempre algum padre, umas vezes de Coimbra, outras vezes de outros lados, a dar os temas da catequese. Não podíamos andar com conversas, só falávamos o que era mesmo preciso. Pagávamos um tanto e ficávamos lá durante dois dias. Depois voltávamos ao domingo à tarde”.

Sublinha que a formação destinada às catequistas é um processo contínuo, não podendo ser adquirida num período de tempo pré-estabelecido. “Com 74 anos, sei que falho muitas vezes. Em nova, devia falhar ainda mais…”. As sessões de preparação para leccionar consistiam no estudo dos “temas das lições”, sempre com a Bíblia presente. Na Praia de Mira concluiu o curso de iniciação a catequista, embora já tivesse dado os primeiros passos a espalhar a doutrina cristã, na localidade de Franciscas. “Devia ter 18 anos de idade”. A primeira lição da sua inteira responsabilidade, com 21 anos de idade, provocou-lhe alguma angústia, tendo até pedido para ser acompanhada. “Preparava as aulas num papel de rascunho, pois aprendi nas reuniões e nos retiros que não devemos usar o guia”. Apesar da forma modesta com que se refere à sua acção, a verdade é que a D. Ília marcou sucessivas gerações de jovens. E hoje, até os que não são praticantes dos seus ensinamentos, recordam-na com carinho e admiração.

A religião em Febres

De grupos mais pequenos, constituídos por elementos com idades compreendidas entre os 7 e os 9 anos de idade, passou a lidar com classes maiores, na paróquia febreense. Antes de ali leccionar, por indicação do pároco, ficou-se uns tempos pela localidade de onde é natural. “Agora há menos meninos, mas naquela altura os grupos eram bons”. Em todo o caso, deslocava-se várias vezes à sede da freguesia, regra geral “de dois em dois meses, sempre que havia reuniões para as confissões. Quando chegava a altura dos ensaios para a comunhão solene também ia com eles”.

Quando o padre Norberto a enviou para a Febres já foi com o intuito de dar a catequese a níveis superiores. Ao longo de várias décadas, até 2004, ano em que decidiu afastar-se, contactou com várias gerações e ganhou o carinho dos seus pupilos. “Sempre me julguei incapaz de ser fiel à catequese. Tinha a impressão que não iria ser a melhor catequista. Ainda hoje julgo isso… Sei que há muitas catequistas muito melhores do que eu”, desabafa. A verdade é que, por exemplo, quando completou 30 anos de ensino religioso, o padre Norberto, já falecido, organizou uma festa em sua homenagem. “Foram todos os meus meninos e meninas da catequese”. Pelo meio cumpriu um sonho com vários anos: completar o Ensino Primário.

De uma vida pautada por muito esforço e dedicação guarda as melhores recordações. Sempre que encontra os ex-alunos afirma dirigir-se a eles por “tu”. “Não tenho o costume de os tratar por ‘senhor’ ou isto ou aquilo”. Afinal, são os “filhos” que nunca teve e para os quais foi confidente e figura materna nos anos mais importantes das suas jovens idades. Quando confrontada com o facto de o seu nome trazer boas recordações e colocar um sorriso no rosto de muitos homens e mulheres, responde com a simplicidade que parece estar colada à sua personalidade: “Glória ao Senhor por isso”. Na véspera de completar 75 anos (amanhã, dia 12 de Novembro) continua a ser empregada doméstica e a deslocar-se de bicicleta, o meio de transporte utilizado desde nova. Nas habitações dos seus “patrões”, não se limita a fazer limpeza ou a cozinhar. A bem da verdade, a transmissão da palavra e dos ensinamentos de Jesus Cristo são encarados com respeito e atenção por todos. | LM

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