Já arrancaram os trabalhos para tentar deter o avanço do mar e a erosão das dunas que ameaçam as habitações do Bairro do Norte, na Praia de Mira. A Ministra do Ambiente, Assunção Cristas, esteve no local (em visita que o AuriNegra acompanhou) e garantiu que a segurança de pessoas e bens tem “prioridade máxima”. Já o Presidente da Câmara de Mira tem dúvidas quanto ao sucesso das medidas de protecção.
A Ministra do Ambiente deslocou-se à Praia de Mira, no passado dia 4 de Novembro, para “dar o sinal de que todos os meios possíveis serão disponibilizados para fazer as obras imediatas, que já arrancaram”. Assunção Cristas reconheceu o “grande perigo” da situação assinalada há vários meses e apontou como “prioridade máxima” a “salvaguarda de pessoas e bens”.
No terreno, observou a solução arranjada: reforçar o cordão dunar, com a colocação de 4.500 sacos com areia, cada um com o peso de uma tonelada, até à altura de quatro metros. O monte de areia funciona, neste momento, como a única protecção das habitações localizadas a cerca de 50 metros do areal. “Este caso de Mira é muito relevante e sensível, pela sua perigosidade. Temos mesmo aqui ao lado casas e isso para nós é o fundamental e o prioritário”.
Questionada pelos jornalistas sobre quando será colocada em marcha uma solução definitiva para o problema, a governante avançou estarem a ser estudadas “soluções mais de fundo” do “ponto de vista científico”. “Estamos neste momento a tratar do que pode ser tratado, que é conter a fúria do mar e a fúria das marés”, sublinhou.
Quando confrontada com o atraso no arranque das obras, a cargo do Instituto da Água (INAG), Assunção Cristas insistiu na mesma ideia. “Estamos a fazer o possível com os meios possíveis”, disse, acrescentando que “tudo o que podemos alocar para o terreno está a ser colocado”.
Menos confiante está João Reigota, presidente da Câmara Municipal de Mira, recordando que foi o seu executivo a alertar o INAG para a situação que aflige os moradores daquele bairro, na sua maioria pescadores. “Na altura manifestámos a nossa preocupação”, lembrou, embora referisse que o Instituto tem estado “sempre na primeira linha na defesa disto”.
O autarca criticou o impasse na emissão do despacho governamental que daria a “luz verde” para o início da empreitada, principalmente numa altura “em que o mar estava, de uma forma perigosa, quase a atacar as casas”. O que motivou “um Verão preocupante”. Ainda assim, o edil aplaudiu “o que se está a fazer”, pois “é melhor fazer qualquer coisa do que não fazer nada. Estar parado, de braços cruzados, é que não resolve nada”. No entanto, mantém reservas quanto à solução encontrada para suster o mar revolto na localidade piscatória. “Não acredito que isto vá resolver. O problema é grave, profundo, e com a Natureza não se brinca”, avisou. Para João Reigota, “o que está a ser feito é para reduzir o impacto e para tentar adiar o problema”, sustentou. “Se o mar romper aqui é uma tragédia”.
Trezentos mil euros para combater o mar
Na praia encontram-se a laborar três máquinas e alguns operários, numa intervenção que pretende criar uma espécie de parede paralela às dunas, ao longo de 450 metros. Prevê-se que os trabalhos durem cerca de três meses e que impliquem um custo de 300 mil euros. A empreitada foi entregue ao INAG que, por sua vez, contratou uma equipa externa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, conforme explicou ao AuriNegra Miguel Grego, Vereador da autarquia de Mira, responsável pela pasta do Ambiente. “Foi o professor Veloso Gomes que assinou esta solução”, considerada como inovadora. “Nós achamos que é preciso ter coragem para os técnicos usarem soluções novas”.
Após a primeira fase vai-se “cobrir todo este gabião de sacos com toneladas de areia”, por forma a “não só estabilizar a base da duna, mas também colocar outra areia que possa ser comida pelo mar”.
Miguel Grego lembrou que o perigo foi detectado no final do mês de Julho, tendo o executivo camarário sido alertado pelos moradores de uma corrente atípica que estaria a causar a erosão das dunas na zona do Bairro do Norte. “Aí víamos a duna a regredir diariamente. Perante esse cenário, era necessária uma intervenção célere”. Sem querer comentar o atraso no início das obras, o Vereador optou por congratular-se com o arranque dos trabalhos.
Paula Miranda é uma das habitantes que tem a sua moradia a escassos metros do areal. “Só tenho a duna a proteger a minha casa”. Mãe de três crianças, afirmou ao AuriNegra que nos últimos tempos tem vivido aterrorizada. “Tenho medo de um dia estar a dormir e o mar galgar e nós não termos para onde ir”. A moradora da Praia de Mira também teme que a operação adoptada não resolva definitivamente a situação, até porque, alertou, “ainda estamos à espera das marés-vivas!”. | LM