A Feira dos 23, uma das tradicionais feiras mensais de Coimbra, continua a atrair gente, vendedores e compradores, dos mais diversos locais. Vestuário, móveis, alfaias agrícolas, ferramentas, frutas e legumes, bacalhau e aves de capoeira são apenas alguns dos produtos que por ali se comercializam a preços convidativos. Ao dia 23 de cada mês, todos os caminhos parecem ir dar a Bencanta.   

Gente, gente, gente e mais gente. Foi assim na última edição da tradicional Feira dos 23, que em Outubro se realizou no sábado, 22, já que 23 era dia santo. A Bencanta, Coimbra, encheu-se de carros e de pessoas e foi pequena para tantos visitantes. Tal como a Feira dos 7, a dos 23 continua a atrair muita gente com a sua oferta diversificada e os preços muito competitivos. Ali é possível encontrar de tudo um pouco, das peças de roupa ao calçado, passando pelas ferramentas e utensílios agrícolas, sem esquecer as utilidades domésticas, as frutas fresquinhas e os legumes viçosos. Por estes dias aparece muita azeitona, curtida e por curtir, e azeite virgem, do bom, com acidez que não ultrapassa os 0,5 graus.

Joaquim da Conceição Rosa vem de Vila Nova de Poiares. É comerciante de produtos alimentares, em concreto azeite, azeitona, arroz e batata. “Nesta época a procura maior é para a azeitona, pois está na altura da colheita. Todo o ano temos procura da curtida, mas agora aparece a por curtir, para que cada um lhe dê o tratamento que entende”, explica. Interrompemos a conversa, pois vem lá freguesia e não queremos atrapalhar o negócio. Mais clientela para a azeitona. Queremos saber que tipos de azeitona vende, e Joaquim Rosa passa a apresentar o seu produto: “Vendo galega ou bical, que é a mais escurinha, carrasquinha ou negrinha de freixo, típica da região do Alto Douro, e cordovil da Beira Baixa. São todas espécies portuguesas mas a mais típica daqui da nossa Região é a galega”.

Os fregueses parecem satisfeitos com o produto, e o preço também não tem gerado grande contestação: “A azeitona curtida vendo toda a dois euros o quilo, a por curtir vendo a metade. Ainda assim vende-se muito mal, o povo não tem dinheiro”. Mais um cliente, como que para contrariar o vendedor. “Está rijinha? Como vai?”. Aqui muita da clientela já é conhecida. Só de Feira dos 23 leva 11 anos, mas na venda de azeite e azeitona para estabelecimentos e comércio vão mais de 30. Vende azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro a pouco mais de três euros o litro, arroz do Baixo Mondego em sacadas de cinco quilos e batata a granel. O produto é bom, “porque se não era rejeitado. Não vale a pena enganar o cliente. Se for enganado não volta”. Quanto à Feira dos 23, “vai dando, vai-se teimando. Quando não der mais, pára-se. Só para estar cá, em combustível e afins, gasto para cima de 50 euros”, desabafa.

As couves da “Ti” Celeste

Despesa maior faz Pio Castro Barros, que juntamente com o seu funcionário, Luís Carvalho, comercializa crivos, peneiras, alambiques para aguardente, cubas para vinho, enfim, uma grande variedade de alfaias agrícolas. Há 35 anos que vem à Feira dos 23 em Coimbra, deixando Fafe para trás. “Fazemos perto de 190 quilómetros para cada lado. Vai compensando mas hoje, por exemplo, está a ser fraco. Ainda não me estreei!”, confessa. “Durante a campanha do vinho vende-se vende-se bem, sobretudo as cubas. O que mais vendemos são as de 150 litros, que vão para os 180 euros”. Com a campanha do vinho terminada, as vendas da Casa Barros começam a ressentir-se. “Começa a não compensar vir de tão longe para aqui. Gasto à volta de 100 euros em combustível e venho sempre pela Nacional 1, para não gastar em portagens. Às vezes saio daqui prejudicado”. Pio Barros e Luís Carvalho fazem-se à estrada cedo, pelas quatro da manhã, para conseguirem estar em Coimbra por volta das sete. “Comecei por acompanhar os meus pais, vínhamos com as mulas fazer esta Região. Andávamos por cá uns três meses, de Junho a Agosto, a vender peneiras e crivos. Íamos daqui de Coimbra a Cantanhede, fazíamos a Tocha e a zona de Mira, e quando eles faleceram eu decidi continuar”.

Continuamos a percorrer a feira, comerciantes de móveis de um lado, vendedores de peças de loiça em barro do outro, a carrinha das bifanas e dos petiscos ao fundo, repleta de gente. Ainda não chegámos ao meio-dia, mas para muitos o dia começou tão cedo que não há como enganar a fome. Sai um courato e uma taça de vinho e o aroma da carne vai-se espalhando pelo ar. Ali perto, na “zona das hortaliças”, encontramos Celeste Paulo. De lenço na cabeça e avental na cintura, recebe-nos com um sorriso e um pregão: “Olha a couve fresquinha! Olha o espinafre e o agrião verdinhos!”, grita. Vem de Eira Pedrinha, concelho de Condeixa-a-Velha, e desde os 15 anos de idade que anda nestas lides. Com os 75 que conta, são 60 anos dedicados à lavoura e ao comércio de produtos hortícolas. “Comecei muito novinha, com uma égua que o meu pai tinha. Vendia couve, alface, grelo, nabiça, agrião, espinafre, batata, cebola, abóbora, tudo menina! Ainda hoje sou eu e o meu marido que cultivamos, ele tem 83 anos e ainda anda na terra a trabalhar”.

Vai conversando e atendendo quem se acerca da banca, apregoando a qualidade dos seus produtos, “sem produtos nem porcarias dessas”, garante. “No Mercado D. Pedro V sou muito conhecida, há pessoas que sirvo desde o tempo da minha mãe. Leve, leve menina, olhe que não encontra espinafre como esse”, interrompe. “Isto está muito mau”, responde a freguesa, Sandra Gaspar, que vem de Fala. “Está pois, para quem vende e para quem compra”, retorque “Ti” Celeste. Lá se consuma o negócio e a cliente vai satisfeita: “Aqui compra-se muito mais barato que nas grandes superfícies. E a qualidade do produto, não tem comparação”, garante. Celeste confirma, e acrescenta: “O que faz falta é gente nova nos campos, que queira trabalhar. Hoje quer-se ganhar dinheiro sem suor nem esforço”, sentencia. Há vida e gente na Feira dos 23 mas a crise teima em não ficar de fora. De um lado e do outro dos balcões contam-se os euros e os cêntimos, fazem-se contas à vida e ao futuro e, no final, muitos chegam à mesma conclusão de “Ti” Celeste: “É um viver para não morrer”. | FC