Na Unidade Funcional da Tocha da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental trava-se uma luta diária. Todos os dias, técnicos e auxiliares lutam contra os estigmas e o alheamento de uma sociedade que teima em olhar de forma diferente para o cidadão com deficiência mental. Porque também essas pessoas merecem ter sonhos e concretizá-los, o amor, a compreensão e o carinho são as principais armas utilizadas.

O cenário é belo, agradável, repleto de árvores frondosas, de caminhos sinuosos, de edifícios imponentes, altivos. Estamos perto da Tocha, numa extensa área pertencente à Administração Regional de Saúde do Centro, há alguns anos partilhada pelo Centro Hospitalar Rovisco Pais e pela Unidade Funcional da Tocha da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM). Parecemos ter sido transportados para um outro mundo, um universo paralelo em que entramos mal transpomos os muros do complexo. O dia solarengo dá um brilho próprio às estruturas, a brisa suave agita sem pressa as folhas do arvoredo. Ali, acreditamos poder esquecer o mundo real, apressado e esmagador, e viver um sonho, uma vida simples e despreocupada.

E na verdade é um pouco isso que por ali acontece. Dezenas de pessoas com deficiência mental encontraram ali o seu próprio mundo, o espaço e o tempo apropriados para viverem e atingirem a plenitude enquanto seres humanos. Ali os dias passam mais devagar, ao seu próprio ritmo, ajustado à sua condição. Lá fora tudo é mais difícil, mais complicado. Todos esperam que eles ajam e reajam em conformidade com o que é comummente aceite e exigido. Mas eles não são pessoas comuns. São, como diz Isabel Tenreiro, psicóloga e elemento da equipa directiva da Unidade, “pessoas que estão habituadas a não serem muito amadas”. O amor e a entrega são, por isso, a terapia mais adequada para estes casos.

E não falamos de amor três vezes por dia, antes ou depois das principais refeições, doseado em pequenas porções. Falamos de amor a sério, verdadeiro e incondicional, sem reservas nem limitações: “Aqui somos engolidos pelos afectos, a nossa entrega não pode ser menos do que total. A nossa maior frustração é não conseguirmos dar tudo aquilo que gostávamos, não conseguirmos corresponder às expectativas. Somos tudo o que eles têm”, confessa. Alberto Oliveira, terapeuta de shiatsu e o outro elemento da equipa directiva, concorda com Isabel, e acrescenta: “Este trabalho transforma-nos enquanto pessoas, é extremamente gratificante. Ao contrário do que possa parecer, esta não é uma população assim tão exigente. Só precisam de afecto, e nós estamos cá para tentar suprimir este abismo que é a deficiência”.

Comunicar sem ruído

Um abismo que a sociedade teima em manter e, até, aprofundar. Mas não na Tocha. A Unidade Funcional conta com três valências que procuram dar resposta às necessidades do cidadão com deficiência mental e da sua família. Existe um Centro de Actividades Ocupacionais (CAO), com 50 utentes, um Lar Residencial, que acolhe 20 pessoas, e uma área dedicada à Formação Profissional, que conta actualmente com 30 alunos. A deficiência pode ser moderada, grave ou profunda, sendo que para cada pessoa há sempre uma resposta específica, adaptada ao seu perfil e às suas necessidades. O CAO e a formação profissional são uma resposta da APPACDM para quando termina a escolaridade obrigatória, estruturas que permitem acolher alunos com necessidades educativas permanentes. “O nosso objectivo é que estes cidadãos possam ser integrados no mercado de trabalho, sempre com vista à autonomia”, explica a psicóloga.

Uma das principais barreiras que estes jovens e adultos enfrentam é ao nível da comunicação. Muitos deles não dominam a linguagem verbal, esbarrando na insensibilidade de uma sociedade que não se dá ao trabalho de procurar formas de comunicação alternativas. “Se não comunicamos por palavras, comunicamos por gestos e intenções, por sons, por emoções. Basta que eles percebam que têm alguém que se preocupa com eles, que quer chegar a eles”. A missão ali passa por perceber em que grau é possível ajudar o outro, a fim de que consiga ser o mais autónomo possível. E é dar asas ao sonho de cada um daqueles indivíduos, seja ele ter um computador portátil e uma página no Facebook, seja fazer parte dos escuteiros, ou ter uma banda musical. Para o cidadão deficiente mental, muitos sonhos de criança acabam por durar toda uma vida. “A nossa vida é comandada pelos sonhos deles”, desabafa Isabel, “queremos levá-los o mais perto possível daquilo que são os seus sonhos e objectivos”.

Este espírito de missão e de sacrifício é comum a toda a equipa multidisciplinar da Unidade, fisioterapeutas, técnicos de reabilitação, monitores de actividades ocupacionais e auxiliares ajudantes de estabelecimento de pessoas com deficiência, pessoas que dedicam muito mais do que as oito horas de trabalho diário à Associação e à deficiência. No futuro a Unidade da Tocha gostaria de se aproximar mais da população e do Concelho, dar-se a conhecer às gentes locais e dessa forma conquistar apoio e “amigos”. Para já está prevista a criação de um jornal que possa divulgar as iniciativas da Associação e, até ao final do mês, a Unidade pretende federar alguns jovens na Federação Portuguesa de Ginástica, para que possam participar no EuroGym 2012, que acontecerá em Julho na cidade de Coimbra.

“Olhos nos Olhos com a Diferença”

A APPACDM nasceu em 1962, tendo chegado a Coimbra sete anos mais tarde, com a criação do Centro Educacional local. Em Junho de 2000 o núcleo de Coimbra torna-se autónomo, sendo hoje uma Associação independente que conta com instalações nos concelhos de Coimbra, Arganil, Montemor-o-Velho e Cantanhede, e que apoia mais de 800 jovens. A missão mantém-se e o lema também: “Olhos nos Olhos com a Diferença”.

A APPACDM de Coimbra nasceu como delegação da sede da Associação, em Lisboa, em 1969, a partir da “vontade de técnicos ligados à deficiência e pais de jovens com deficiência mental que pretendiam dar-lhes um espaço onde pudessem desenvolver-se harmoniosamente. Nascemos em 1969, para mim um ano muito bonito, em que o Homem foi à lua e se realizou o festival de Woodstock”, explica ao AuriNegra Helena Albuquerque, presidente da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Coimbra. Depois de várias fases de desenvolvimento e crescimento, a delegação de Coimbra constitui–se enquanto Associação autónoma, em Junho de 2000. “Com Coimbra ficaram as delegação de Cantanhede, na Tocha, de Arganil e de Montemor-o-Velho. Neste momento as APPACDM’s são uma das grandes instituições do País, a par das CERCI’s [Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados], vocacionada especificamente para apoiar o cidadão deficiente mental”.

Há mais de 40 anos ao serviço do deficiente mental e da sua família, a APPACDM de Coimbra tem feito um esforço para se manter atenta às reais necessidades desta franja da população, num trabalho constante de adaptação à realidade: “Os nossos Centros foram sendo criados consoante as necessidades que percepcionámos na sociedade que nos cercava. O nosso objectivo é apoiar o deficiente mental desde que nasce, até que morre”. Os avanços constantes na área da Medicina, bem como a melhoria dos cuidados prestados têm concorrido para o aumento da esperança de vida do deficiente mental, o que tem vindo a trazer novos desafios à Associação: “Socialmente está a surgir um novo problema, que é o da terceira idade com deficiência mental, algo que era incomum há algumas décadas. Por isso, neste momento a nossa grande prioridade é o investimento nas residenciais”. Estes lares residenciais permitem a prestação de cuidados em regime ininterrupto, cuidados que se revelam de extrema importância no caso de pessoas com deficiência com mais de 50 anos, já que, naturalmente, dificilmente os seus pais terão ainda capacidade física para tal.

Lares precisam-se

“O nosso apoio começa aos três anos, no Colégio de Santa Maria, em Coimbra, onde podem permanecer até aos seis. Depois integram o ensino regular até ao final da escolaridade obrigatória, com o apoio dos nossos Centros de Recursos para a Inclusão, a que se seguem dois caminhos possíveis: a frequência de cursos de Formação Profissional, normalmente para jovens com deficiência mais ligeira, com um nível de autonomia mais elevado; ou os Centros de Actividades Ocupacionais, destinados aos que têm um grau de deficiência mais profunda. Estes são jovens que precisam de apoio constante, de estimulação constante, não só para que possam evoluir, como para que não regridam”. Estas são valências em regime externo, a que se juntam os lares residenciais, em regime interno, que prestam acompanhamento a tempo inteiro. São Silvestre e Montes Claros, em Coimbra, e Tocha, em Cantanhede, são os lares existentes. “O nosso grande projecto é a criação de um lar residencial em Arganil, para o qual já nos foi cedido um terreno. O ideal seria que conseguíssemos ter uma residencial em cada um dos Concelhos”, confessa. O tecido empresarial é um importante aliado na conquista deste objectivo, a que se juntam os serviços prestados pela APPACDM em diversas áreas, nomeadamente na área de jardinagem, de lavagem automóvel, de medicina física e de reabilitação, de recolha de óleos alimentares usados e de hotelaria [ver caixa]. “O nosso principal objectivo é não termos necessidade de existir enquanto Associação”. Se tal acontecesse, seria sinal de que a sociedade tinha, finalmente, conseguido olhar a diferença nos olhos.

Helena Albuquerque e a deficiência mental

Desde os dois anos que vive em Coimbra, cidade onde cresceu, estudou, casou e tem trabalhado. Professora no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, são três os eixos que orientam a sua vida: “São três as minhas actividades fundamentais. Enquanto presidente da APPACDM, enquanto professora de Matemática na Universidade de Coimbra e como mãe e pessoa ligada à família”, revela. A sua ligação à Associação remonta à década de oitenta, dois anos após o nascimento do seu primeiro filho, o João, portador de Síndroma de Down: “Após o nascimento do João vivi um período extremamente difícil e doloroso, tive a necessidade de fazer o meu luto interior sozinha. Foi o meu primeiro filho, com tudo o que isso implica em termos de expectativas. Só passados dois anos decidi procurar ajuda e foi quando me aproximei da APPACDM”.

Há 25 anos que está ligada à Associação de Coimbra enquanto mãe de um cidadão portador de deficiência mental, e de há sete anos a esta parte assumiu as funções de presidente. O tempo vai passando mas, ainda assim, há coisas que tardam em mudar: “A estranheza da sociedade para com os nossos filhos incomoda-me. As pessoas afastam-se porque não conseguem interpretar o que os nossos jovens dizem ou fazem, porque eles não reagem como as pessoas esperam. A estranheza cria afastamento e o afastamento cria segregação”. | FC