Setembro é o “mês das vindimas” e isso representa para muitos agricultores dias bastante atribulados. A ausência de chuva ajudou à colheita e já há quem diga que este é um bom ano em termos vinícolas. A contrariar algumas previsões, em Cantanhede registou-se um aumento na entrega de uvas para a produção de alguns dos seus afamados néctares. 

É certo que o fruto da videira não é utilizado na sua totalidade para a produção de vinho, até porque a legislação europeia proíbe a vinificação de variedades com características de uva de mesa. Porém, nas regiões gandaresa e bairradina, onde há uma forte tradição de vinicultura, uma parte significativa do vinhedo é composto por castas cultivadas única e exclusivamente para o engarrafamento. Falamos da “Baga” e da “Syrah”, por exemplo, duas das grandes responsáveis pelo sabor de algumas marcas bem conhecidas.

Nos quentes dias de Setembro, José Nogueira Torres tem passado grande parte do seu tempo nas suas cinco vinhas, que em conjunto se espraiam ao longo de quatro hectares. Num dos terrenos onde nos encontrámos com o produtor, baptizado como “Terra do Rei”, situado em Póvoa da Lomba, freguesia de Cantanhede, os afazeres começam bem cedo. A localidade está rodeada por Cordinhã, Ourentã, Pocariça, Cantanhede e Portunhos, sendo considerada uma zona de excelência para a produção de vinhos, o designado terroir. As razões apontadas são “os solos ricos em barro, a envolvência da encosta com bastante humidade e a grande exposição solar”. O técnico administrativo da EDP, reformado desde 2008, passou a dedicar-se à lavoura há 11 anos e desde então, nos meses de Setembro, tem contado com a ajuda de uma equipa constituída por familiares e amigos.

A rotina começa por volta das 08h30 e prolonga-se até às 18h30, com um intervalo para almoço, regra geral saboreado na própria vinha para poupar tempo. “Na vindima temos de apanhar as uvas no menor tempo possível”. O trabalho, esse, continua a ser essencialmente manual, à excepção dos tractores e reboques. Mesmo assim, antes de lá chegarem é preciso o esforço e o suor de homens e mulheres que transportam os cestos vindimos em cima de um dos ombros e encostados à cabeça. “O modo de transporte das uvas é muito importante. Devem ser colocadas nos poceiros sem serem pressionadas e nunca devem ser misturadas com uvas pisadas, pois com as temperaturas elevadas começam a fermentar”. Os conselhos prosseguem: “Nem tudo o que a cepa produz deve ser vindimado”, disse, referindo-se aos cachos que ainda não atingiram o estado de maturação ou que simplesmente apodreceram.

As temperaturas bem acima dos 20 graus centígrados não se revelaram como um impeditivo, bem pelo contrário. “Na vindima o que custa é a chuva e a humidade, porque dificultam a mobilidade das pessoas e das máquinas”. E, referiu, que se São Pedro não tivesse sido brando, a sua mãe, com 83 anos de idade, não teria conseguido dar o seu já habitual contributo. O filho do proprietário dos terrenos situados na Povoa da Lomba também ajudou nas lides do campo, sendo uma presença duplamente útil para José Nogueira Torres. “É importante passar a mensagem da necessidade de os mais novos estarem presentes. Tudo isto representa o passado, a nossa história, e se não forem eles a dar continuidade, as tradições acabam por morrer”. Este é um desejo que esbarra na crescente desertificação do interior de Portugal e a verdade é que os jovens se mostram cada vez menos disponíveis para trabalhar num negócio considerado “pouco rentável”. A entreajuda de gentes mais velhas, unidas por laços de afectividade, e a contratação de mão-de-obra local, paga quase de forma simbólica, é a única forma de manter viva uma prática ancestral, cujas despesas facilmente se tornam incomportáveis.

Treze toneladas por hectare da variedade “Baga” é quanto a vinha “Terra do Rei” rendeu este ano. Mas neste ramo, quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade. “O facto de haver mais produção reduz a graduação [teor alcoólico provável] da uva. Preferia ter aqui apenas oito toneladas com graduação de 12,5”, confessou. O destino da colheita foi o mesmo de tantas outras.

Azáfama na Adega de Cantanhede

Na Adega Cooperativa de Cantanhede (ACC), o corrupio de tractores com reboques chamava a atenção até dos mais distraídos. João Vitorino, técnico de enoturismo, mostrava a alunos de várias escolas do Município as várias fases que compõem a recepção do produto: a pesagem, a medição do grau, a descarga feita nos tegões, onde se procede à separação da uva do engaço consoante a sua casta e qualidade, a entrada do mosto nas cubas de fermentação até ao estágio do vinho feito em barricas. Sucedia-se uma passagem pelo departamento encarregado do engarrafamento, rotulagem e armazenamento.

Ali ao lado, numa área interdita a visitas, está a “Sala de Provas”, onde nos encontrámos com a enóloga residente da Adega, Vera Veloso. A sua intervenção, e do resto da equipa técnica, começou na primeira semana de Agosto, altura em que foram realizados os primeiros controlos de maturação. “Numa primeira fase seleccionam-se diferentes vinhas dos associados de diversas zonas do Concelho, como Ançã, Cordinhã, Ourentã, Outil, Póvoa da Lomba, Bolho e Cadima. Depois, os nossos técnicos retiram uma amostra de cerca de 250 bagos de cada uma das parcelas e de diferentes castas”. Em laboratório são feitas as análises de peso, do teor alcoólico provável, de pH (potência de Hidrogénio) e de acidez total. “Ao longo de quatro ou cinco semanas controlamos a mesma parcela para percebermos de que forma está a evoluir a maturação. Em função disso, e do histórico de anos anteriores, foram marcadas as datas das vindimas”.    

Por atingirem o estado de maturidade mais cedo, as uvas brancas são as primeiras a chegar à ACC. Entre 2 e 12 de Setembro foram descarregados mais de um milhão e 500 mil quilos daquela variedade. “Está dentro daquilo que estávamos à espera, que é mais ou menos o mesmo que recebemos no ano passado. O que indica que nas brancas não houve queda na produção”. Dos dias 14 a 29 foi tempo de recepcionar as uvas tintas. Até à data de fecho desta edição (28 de Setembro) os responsáveis esperavam que fossem entregues seis mil toneladas, o que significa um aumento face ao ano anterior.

Os ataques de doenças como o míldio e o oídio não tiveram grande expressão este ano, pelo menos na Gândara e Bairrada. A maior dor de cabeça para alguns agricultores foi o apodrecimento de bagos causado pelas chuvas de Agosto, apesar de a enóloga garantir que mesmo assim não foram muitas as vinhas que sofreram da maleita. A prova disso, referiu, é o aumento da graduação das uvas tintas relativamente a 2010.

Daqui para a frente o trabalho da equipa liderada por Vera Veloso assume particular importância. Após a selecção dos produtos enológicos de acordo com a qualidade da uva, como as enzimas e as leveduras, chega o momento de “ir provando os mostos e perceber como estão a evoluir e que decisões têm de ser tomadas”. “Assim que terminar a fermentação o vinho é desencubado: no caso do branco há que separar o vinho das borras e no caso do tinto temos de separar o líquido das massas”. Consoante os resultados obtidos, os néctares são depois depositados em enormes cilindros. “Em função disso vamos definir que tipo de estágio cada vinho vai ter”. Nas barricas de carvalho francês e americano repousam os aromas e sabores nobres. “Da madeira é retirada toda uma riqueza, em termos de aromas e tanino, para tornar os vinhos mais ricos”.         

O “porto de abrigo”

Dos cerca de 1200 produtores inscritos na Adega de Cantanhede, 900 são activos, ou seja, ainda exercem a sua actividade agrícola. Aos associados é-lhes solicitado que entreguem “toda a sua produção”, afirmou Victor Damião, presidente da direcção da ACC. “Infelizmente, nem todos respeitam essa regra. Alguns vendem uvas para outras empresas e outros produzem vinho em casa para vender”, acrescentou. Ainda assim, no decorrer dos dois anos em que a actual direcção está à frente dos destinos da Adega, tem notado que “os associados trazem cada vez mais as suas uvas”. E aponta como razão principal “as circunstâncias do mercado”. “Quem faz vinho em casa não tem tanta facilidade em vendê-lo e as empresas que compravam uvas na Bairrada deixaram de o fazer ou compram em menor quantidade. Só assim se explica que, mesmo com o programa de apoio ao arranque das vinhas que existiu até ao ano passado, a quantidade de uvas que recebemos em 2010 tenha aumentado 25 por cento”, comparativamente a 2009.

A mais de meio da época de vindimas de 2011, Victor Damião esperava “receber mais uvas do que no ano passado. Verifica-se que alguns associados estão a regressar ao ‘porto de abrigo’. A ACC é um sítio onde eles sabem que tudo faremos para lhes fazer um pagamento adequado de acordo com a nossa capacidade de venda do vinho a preços que sejam compensadores”. 

Os primeiros vinhos resultantes desta colheita a chegarem ao mercado são os brancos, em princípio já no mês de Dezembro, adiantou o Presidente. “Pensamos que vão ser vinhos brancos de muito boa qualidade”. Marquês de Marialva, Beiras e de Mesa, todas de 2011, são as três categorias que os apreciadores poderão encontrar, brevemente, nas prateleiras de muitos estabelecimentos comerciais.

A marcação da vindima para as uvas tintas, considerada tardia pelos produtores, fê-los temer o pior, nomeadamente para a casta “Baga”. “A verdade é que o tempo tem estado bom e temos recebido excelentes uvas com um grau alcoólico provável muito interessante”. À semelhança de anos anteriores, os associados viram ser aplicado ao seu produto bonificações e penalizações. Castas tintas como a “Baga”, com grau alcoólico superior a 12,5, “Touriga Nacional” e “Syrah” estão entre as mais desejadas, tornando-as mais valiosas. No campo das brancas, as variedades “Arinto” e “Bical” são as melhor pagas. Mas também há quem tivesse visto as suas uvas serem desvalorizadas. Cachos secos, podres e variedades misturadas tiveram este ano “tolerância zero”.  “Temos de ser cada vez mais rigorosos e estarmos atentos ao mercado e às práticas enológicas”, afirmou Victor Damião, afiançando que a generalidade dos sócios aceitou bem estas imposições. Mais importante ainda: “Estão muito satisfeitos com esta colheita” . | LM