Arnaldo Carvalho nasceu a 3 de Janeiro de 1950, em Coimbra. Ainda novo descobriu a sua apetência pela música, sendo hoje o mais antigo membro Brigada Victor Jara. É dirigente sindical do Grupo Caixa Geral de Depósitos. Aficionado do desporto e desportista praticante fundou, em 1998, o Clube Escola de Ténis de Cantanhede, entidade que organiza, por exemplo, o “Cantanhede Ladies Open”. Mais recentemente, a fotografia revelou-se como uma paixão a que se dedica com grande entusiasmo. 

Foi na sede do Clube Escola de Ténis de Cantanhede, a que Arnaldo Carvalho preside, que nos encontrámos com este homem com interesses muito variados, que confessa passar ali a maior parte do seu tempo.

No seu Bilhete de Identidade está escrito que a naturalidade é Coimbra, mas Arnaldo Carvalho fala sempre com orgulho da terra que o acolheu até à adolescência: Portunhos. Em meados do século XX, as ruas daquela localidade eram o palco das muitas horas passadas fora de casa, até porque em muitas habitações nem sequer electricidade havia. “Costumo recordar-me de uma frase de um livro de Manuel da Fonseca, porque acho que se aplica muito àquilo que eu sinto que foi a minha infância: ‘O largo era o centro do Mundo. No largo, todas as mentiras assumiam foros de verdade’. O centro do nosso mundo era o largo da aldeia”. 

As brincadeiras decorriam até ao tocar do sino da igreja, o designado “toque das Trindades”, que assinalava o cair da noite. No espaço central da aldeia conheceu os códigos de conduta estabelecidos pelos rapazes mais velhos. “Havia coisas que eram permitidas a uns e a outros não. Os mais velhos criavam as normas de frequência do largo”, sendo que o seu desrespeito era impensável.

Os divertimentos passavam por “brincar aos cowboys, aos espadachins, ao pião, ao arco, à apanhada, às escondidas e ainda a construir brinquedos a partir de bocados de madeira”. Algumas destas actividades requeriam exercício físico. “Era preciso saber fugir e ser forte e isso criava em nós uma destreza física incrível. Éramos muito mais destros em termos de motricidade do que as crianças de agora”. 

Se hoje em dia se nota uma tendência de isolamento dos mais novos, naquele tempo havia uma necessidade quase natural de pertencer a um grupo. “As pessoas eram muito mais unidas porque não tinham nada. Praticamente não havia automóveis. Os alunos que se ‘aguentavam’ na escola até à quarta classe eram muito poucos”.   

Apesar de se tratar de uma realidade bastante diferente dos tempos que correm, Arnaldo Carvalho diz não ser um saudosista. “Não sou daqueles que dizem que ‘no meu tempo é que era bom’. Nada disso. Cada tempo tem a sua realidade própria. Também havia coisas de que não gostava naquela altura, como os baixos índices de progresso”. 

Longe da azáfama das grandes cidades, o tempo “era uma eternidade”. Além das longas horas passadas com os amigos e com a família, também tinha de haver tempo para aprender. “A escola daquela altura não era da compreensão, mas sim do decorar”. “Sob o ponto de vista da autoridade, era um ensino um pouco exagerado em termos de violência”. Mas Arnaldo Carvalho admite que nem tudo era mau. “Há algumas pequenas coisas do ensino da minha época que não fariam mal nenhum se fossem retomadas. Hoje exagera-se muito na permissividade que se tem para com as crianças. E isso começa em casa. Há muito a ideia dos pais confundirem o papel da escola com o papel da educação que devem ter em casa”, exemplifica.

Do campo para a cidade

Terminado o ensino primário saiu de Portunhos e mudou-se para a casa de uns tios, em Coimbra, para seguir estudos. “Foi um choque muito grande a todos os níveis”. Confessa que para um rapaz com 10 anos de idade, vindo da aldeia, a integração não foi fácil. “O simples facto de andar de eléctrico ou de autocarro era uma experiência nova. Era tudo novo para nós. A própria dinâmica de bairro não tinha nada que ver com a dinâmica da aldeia”. E recorda a discriminação de que os alunos vindos de fora eram vítimas. “As crianças eram muito mais selectivas na escolha dos amigos. Facilmente se criavam grupos muito fechados e com muita facilidade se passava à agressão”. 

A viver no bairro do Loreto, passou a frequentar um curso de Contabilidade e Administração na Escola Avelar Brotero. “Era péssimo a Matemática, sempre fui um aluno de 10”. Solta uma gargalhada e explica que a escolha do curso era uma forma de “fugir” a um futuro ligado à agricultura ou a um outro ofício que não lhe despertava interesse. “Os meus pais não eram pessoas ricas e aquela era a oportunidade de uma vida”. Dos tios que o acolheram e, mais tarde, aos seus três irmãos, guarda gratas memórias. “As dificuldades eram enormes e sem o apoio deles não tinha sido possível estudar”.    

Após o choque inicial adaptou-se e a cidade já não parecia tão grande e impessoal. Ao que parece, deixou-se mesmo levar pelos seus encantos. “Reprovei um ano e tive umas férias fantásticas, umas férias de ensinamento para a vida”, ironiza. “Durante três meses andei a trabalhar na agricultura”. Valeu-lhe a “lição” e daí para a frente nunca mais chumbou.

Terminado o curso, seguiu-se um estágio, em parte passado no Tribunal de Cantanhede. Lembra-se do bom ambiente que existia entre colegas e das praxes que eram feitas aos novos funcionários. “Quando chegava alguém novo mandava-se ir buscar a ‘tábua de logaritmos’ a um café”. A traquinice consistia em os novatos carregarem um garrafão de 20 litros cheio, embrulhado em papel, e levá-lo de volta para o tribunal, sem saberem a “preciosidade” que transportavam. Ainda em Cantanhede, estagiou nos escritórios da extinta Sociedade Central. “Era um armazém de mercearias. Todas as semanas torravam amendoins no piso superior – nunca mais consegui encontrar amendoins com aquele cheirinho”.

Músico multifacetado

Por esta altura, foi convidado para integrar um grupo musical denominado “Bar Necal”. “Em Cantanhede, penso que havia outro conjunto que se chamava ‘Bar Central’. Muitas pessoas se interrogam porque é que os grupos tinham os nomes dos cafés”. A explicação apontada por Arnaldo Carvalho está relacionada com o facto de aqueles estabelecimentos serem dos poucos sítios onde existiam telefones e as chamadas para agendar concertos serem lá recebidas. “Era já uma forma de publicidade mútua”. 

A bateria foi o primeiro instrumento a que se dedicou, mas as suas primeiras experiências no campo da música tinham tido início alguns anos antes. “Quando estava em casa da minha tia, e tinha 11 ou 12 anos, ouvia muita rádio. Arranjei uns paus para fazer de baquetas, pegava nos tachos, virava-os ao contrário e começava a tocar. Ela perdia-se da cabeça porque eu amarrotava-lhe os tachos todos”. Aos 15 anos comprou a sua primeira bateria por 300 escudos.

Na formação “Bar Necal” tocou ainda guitarra eléctrica e, a dado momento, chegou a cantar. Posteriormente formou, com amigos, um grupo “mais elaborado”, baptizado como “Harmonia Cinco”. “Depois evoluímos para um grupo chamado ‘Pêndulo’, e aí era só eu com um organista”. Os bailes de finalistas, vistos como o auge para as bandas amadoras, revelavam-se como algumas das solicitações. “Fizemos as primeiras partes de grupos que eram importantes à época, como os ‘Ecos’ e Miguel Graça Moura. E começámos a participar em festivais de rock”.   

Pelo meio da carreira musical, chegou a frequentar um curso de enfermagem durante seis meses. “Foi uma atitude completamente calculada porque eu nunca tive jeito nenhum para ser enfermeiro. Fui pela simples razão de haver uma bolsa de estudo no valor de 1200 escudos, quando eu recebia 800 no armazém”. Para sua própria surpresa, completou o primeiro semestre, acabando por desistir para ir trabalhar numa Repartição de Finanças, em Coimbra. “Esta passagem pela escola de enfermagem acabou por ser determinante no meu percurso de vida porque foi lá que conheci a minha mulher. Até costumo dizer que fui lá casar-me”, brinca.

O atletismo assumiu-se desde cedo como uma das suas vocações, desporto que praticava com alguma regularidade, até ao momento em que lhe foi diagnosticado um problema cardíaco. “Cheguei a ser campeão regional de 200 metros e treinava assiduamente. Na altura em que me quis federar tive um percalço terrível, quando descobriram que tinha um bloqueio auriculoventricular. Fiquei terrivelmente assustado, mas ainda pensei que aquilo desse para me ‘livrar’ da tropa”. 

Não se conseguiu “escapar” e cumpriu parte do serviço militar nas Caldas da Rainha, acabando por tirar uma especialidade em enfermagem, em Lisboa. “Depois ‘aterrei’ no Hospital Militar de Coimbra para fazer um estágio de preparação para ir para Angola, Moçambique ou Guiné”. Enquanto fazia “contas à vida”, a sorte bateu-lhe à porta. “Um furriel pediu-me para testar um aparelho de electrocardiografia que tinha vindo de reparar e fez-me um electrocardiograma. Isto passou-se da parte da manhã. De tarde, um médico cardiologista mandou-me chamar, perguntou-me se aquele electrocardiograma era meu e disse-me: ‘O é que você anda a fazer na tropa?’. Pensava que me estava a repreender. Depois de várias insistências disse-me que tinha de ir a Fátima a pé porque não tinha morrido na recruta por sorte”.  

Através de um relatório elaborado por uma Junta Médica acabou por ser dispensado do serviço militar. No entanto, ao sentimento de alegria juntou-se uma enorme tristeza por ter ficado a saber que a sua vida podia estar em risco. Mais tarde fez um novo exame médico que concluiu que o seu problema cardíaco se agrava quando o seu corpo se encontra em repouso. “É um bloqueio muito selectivo porque com o esforço físico desaparece”. 

Com 23 anos, já casado, assentou arraiais em Ílhavo, para trabalhar numa delegação das Finanças e começou a compor músicas, tendo mesmo sido o vencedor de duas edições do Festival da Canção local. “A partir dali continuei a cantar e comecei a juntar-me ao movimento dos ‘baladistas’, seguindo um pouco o percurso do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira”. Após o 25 de Abril realizou vários espectáculos de canto de rua, sempre com a viola às costas, “a cantar de terra em terra. Era um espírito solidário, cantava-se em todo o lado”. 

Em 1977 ingressou na Brigada Victor Jara, dois anos após a sua formação, conjunto de Coimbra do qual nunca mais saiu. “Entrei para cantar e tocar viola. Depois passei a tocar vários instrumentos de cordas, porque na ‘Brigada’ as pessoas são todas muito polivalentes”. Pelo meio, ainda se dedicou à viola-baixo, cavaquinho e viola braguesa, acabando por se concentrar apenas na percussão.

Com a banda que tem o seu nome associado às “brigadas de alfabetização” criadas após o 25 de Abril e ao poeta chileno Victor Jara, assassinado pelo regime do ditador chileno Augusto Pinochet, viajou por vários países e conheceu culturas distantes. É agora o seu elemento mais velho em termos de continuidade.

“Após a ressaca do 25 de Abril, a ‘Brigada’ chegou a passar por alguns momentos complicados, como boicotes e arruaceiros que não nos deixavam tocar. Chegou a ser um nome que pesava, tanto para o bem como para o mal. Essa ideia foi-se esbatendo. É um aspecto muito curioso, que acaba por ser perverso, haver pessoas que achavam aquilo ostensivo, quando a  ‘Brigada’ nunca fez, ao contrário d  o que alguns pensam, canto de intervenção política. A canção foi sempre tradicional”. 

A esta distância, olha para trás e confessa que apesar de todas as dificuldades diz que tudo valeu a pena. “É um nome que fica na História da música em Portugal. Ainda hoje há gente jovem que se inspira no nosso trabalho. Isso é muito reconfortante, quando nós sentimos que demos corpo a um movimento”.

Ténis, por mero acaso

Desportista desde tenra idade, foi em meados dos anos 80 que conheceu o ténis, pela mão de um dos dois filhos. “O meu filho começou a praticar e eu, por obrigação de pai, comecei a acompanhá-lo”.

Nesses anos, o ténis em Cantanhede era dinamizado pelo Clube de Futebol “Os Marialvas”. De elemento da direcção de secção de ténis do clube até se tornar presidente, foi um passo. “Sempre quis desenvolver em Cantanhede uma actividade associativa na área da Cultura, mas nunca na área desportiva”. O adágio popular “nunca digas nunca” encaixa-se na perfeição a este caso em particular e Arnaldo Carvalho reconhece-o.

Já imbuído no espírito associativo, quis avançar com o projecto e, em conjunto com os restantes directores, decidiram fundar o Clube Escola de Ténis de Cantanhede, em 1998.

Actualmente são mais de 200 os praticantes que usufruem das aulas do clube. Entre os eventos organizados encontra-se o “Cantanhede Ladies Open”, um evento desportivo que já vai na terceira edição e que ganha cada vez mais peso no cenário nacional e internacional. “Digo, com alguma vaidade, que seremos uma das associações, a nível concelhio, que mais tem contribuído para a divulgação do nome de Cantanhede no Mundo”. Em 2009, viu ser reconhecido ao clube de ténis o estatuto de utilidade pública.

A reforma de Arnaldo Carvalho chegou aos 53 anos, após 20 anos ao serviço da Caixa Geral de Depósitos (CGD), sendo Presidente da Mesa da Assembleia Geral e sócio-fundador do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo CGD. Ao ténis e à música juntou, mais recentemente, uma nova paixão: a fotografia. “É mais do que um hobby. Grande parte dos meus projectos actuais passam por essa área. Além do que já fiz, tenho trabalhos para expor e projectos em desenvolvimento que quero vir a publicar”. | LM