Algumas localidades do concelho de Cantanhede foram “invadidas” por ciclistas a pedalarem nas designadas “pasteleiras”. A razão foi o I Encontro de Bicicletas Antigas, um evento que se realizou no passado dia 21 de Agosto e que funcionou como uma espécie de “máquina do tempo”. Por um dia, dezenas de participantes recuaram algumas décadas e recuperaram algumas das tradições que marcam a história do Concelho.
São Pedro decidiu dar tréguas e contrariou as previsões dos meteorologistas que apontavam para queda de chuva. Naquele domingo, o céu esteve encoberto, mas a temperatura amena que se fez sentir ao longo da manhã mostrou-se ideal para a realização de um convívio que envolvia pedalar. O I Encontro de Bicicletas Antigas, organizado pelo Centro de Ciclismo de Cantanhede (CCC), fez com que as ruas e caminhos do Concelho se tornassem no palco de uma autêntica mostra cultural.
Trajados a rigor e a chegarem nos seus meios de transporte, a maior parte deles com mais de cinquenta anos, os cerca de 60 participantes no passeio concentraram-se na Praça Marquês de Marialva, em Cantanhede. Por entre as personagens recriadas, viam-se vendedores de leite e de gado, madeireiros, tropas e agricultores, entre muitas outras profissões. O contraste com a realidade actual captava a atenção de dezenas de curiosos que se juntaram para presenciar a partida dos ciclistas e, por que não, actores.
Pelas 10h30, ouviam-se as buzinas e os pedais começaram a girar em direcção a Póvoa da Lomba. Seguiram-se as passagens por Cordinhã e Ourentã. Por volta das 12h30, e após um percurso de 13 quilómetros de distância, o “pelotão da frente” chegava ao parque conhecido por “nó desnivelado” (acesso pela estrada nacional 234-1), em Cantanhede. O espaço de lazer foi-se enchendo a “conta-gotas” e os assadores não paravam de funcionar. Era altura de almoçar, conviver e fazer um balanço.
Fausto Maia, presidente do CCC, visivelmente agradado com a adesão de participantes, explicou como nasceu a iniciativa. “A ideia surgiu de uma leitura que fizemos deste fenómeno, tendo em conta que, nomeadamente nos dias de feira, ainda existe muita gente a circular em bicicletas antigas”. Ideia que já vem sendo amadurecida desde há três anos. “Pegámos neste tema com algum receio inicial. Mas a verdade é que as pessoas tiraram as bicicletas do ‘arquivo’ que já vinha dos seus antepassados”. Sendo uma iniciativa inédita em solo cantanhedense, confessou que a sua organização contou com “alguma sorte”, mas também com uma estratégia bem definida. “Fizemos uma pequena publicidade junto do que será o esteio social do nosso Concelho: as Juntas de Freguesia”. O passo seguinte foi motivar os ciclistas.
De acordo com Fausto Maia, o principal objectivo do encontro passou por cruzar a promoção do exercício físico com as tradições populares. “Lembro-me que há muitos anos foi publicada, no Jornal de Notícias, uma fotografia premiada de uma senhora de Febres. Estava montada numa ‘pasteleira’ com rodas tamanho 26, um filho ao colo, um grande açafate de couves atrás e com um ramo de flores do lado direito. Guiava, portanto, com uma só mão, o que mostra que a bicicleta era um meio de transporte e uma ferramenta de trabalho”.
Com idades a oscilarem entre os 40 e os 80 anos, aqueles que eram os únicos meios de transporte para muitas pessoas foram sofrendo alterações ao longo dos anos. Os avanços tecnológicos encarregaram-se de possibilitar o aparecimento de autênticas obras–primas da aerodinâmica, vindo substituir os faróis a carboreto e água e outros componentes agora considerados arcaicos. Mas, pelos vistos, não há nada como pedalar num “clássico”, mesmo que não disponha de sistemas de facilitação de locomoção. “São pesadas, mas oferecem um grande conforto ao nível do selim. Qualquer pessoa que goste de bicicletas gosta de andar numa ‘pasteleira’, precisamente pela memória que traz”.
O trajecto desenhado para o passeio, considerado curto, teve em conta as idades dos inscritos. “Há aqui pessoas com 70 e 80 anos de idade, o que demonstra o prazer que têm de reviver os seus tempos de juventude e participar num evento social”. Outro factor esteve relacionado com o aproveitamento, ao máximo, de áreas planas, visto que muitos daqueles velocípedes de duas rodas não incorporam sistema de mudanças.
Por fim, o Presidente do CCC confessou a sua alegria por ter pedalado junto de um ciclista que apoiou a iniciativa, quando esta ainda não passava de um projecto. “Deu-me um imenso prazer ver o Presidente da Câmara [de Cantanhede] imbuído neste espírito”.
O passado como princípio
O vice-presidente do CCC, Jorge Fonseca, descreveu o momento que diz ter sido determinante para a realização do “I Encontro de Bicicletas Antigas do Concelho de Cantanhede”. “Este ano, no decorrer da Bênção do Ciclista, em Fátima, encontrámos vários elementos do clube Pasteleiras de Santa Catarina da Serra. Abordámo-los para a eventualidade de virem a Cantanhede”. Depois de o convite ter sido aceite, os organizadores sentiram que, definitivamente, estavam reunidas as condições para avançar. “Vimos isso como um compromisso e não pensámos duas vezes em levar o encontro para a frente”.
Amaro de Oliveira Santos, de Santa Catarina da Serra, concelho de Leiria, faz parte do grupo que conta com bastante experiência em concentrações de “pasteleiras”. “Consegui convencer os meus amigos a virem e estamos aqui 23 elementos, todos vestidos à antiga”. E é um defensor acérrimo da preservação das tradições, pelo menos no que toca a meios de transporte de duas rodas. “As bicicletas de agora tornam-se mais leves e menos cansativas. Mas nós não queremos deixar morrer os costumes e gostamos de os mostrar, também para dar a conhecer aos jovens como era a vida no tempo dos nossos avós e pais”. O Encontro Nacional de Bicicletas Antigas da Burinhosa é apenas um dos eventos em que aquele grupo costuma estar presente. E se Faro é o bastião dos motards, a Vila pertencente ao concelho de Alcobaça é o santuário das bicicletas antigas. “Realiza-se todos os anos e é um exemplo do que se está aqui a passar”. Com Cantanhede afirmou estar “encantado”. “Fomos muito bem recebidos”. No que toca ao percurso, destacou a paisagem diversificada. “Já fomos convidados para aqui estar para o ano. Se Deus quiser, cá estaremos”.
De Santa Catarina da Serra veio também o elemento mais jovem que pedalou em Cantanhede. Chama-se Alex Santos, tem 16 anos, e é uma presença assídua em várias iniciativas. “Tenho uma ‘pasteleira’ que era de um tio e que foi restaurada pelo meu pai”. Troca, com prazer, equipamentos modernos pelos que têm, alguns deles, cinco vezes mais a sua idade. “Estas bicicletas têm um valor diferente. Não têm coisas tão novas, como os travões de disco, mas gosto mais delas”.
Adérito Machado, presidente da Junta de Freguesia de Cordinhã, estreou-se em convívios de ciclistas, mas mostrou-se um verdadeiro conhecedor das modas de meados do século passado. “Trago chancas de madeira e cabedal, calças de cetim, camisa, colete. lenço, que não servia para enfeitar, mas sim para limpar o suor. e o chapéu de aba larga. Este não era um traje de trabalho, era um traje ‘domingueiro’. Na bicicleta trago o farnel e o pipo do vinho”. Relativamente ao encontro de Cantanhede, classificou-o como uma “mais-valia”, realçando a componente etnográfica da mostra. “Trata-se de representações fiéis ligadas à agricultura, no fundo, ligadas ao concelho de Cantanhede. São quadros vivos que representam a nossa gente e que devemos pugnar para não deixar morrer”.
Antes de os participantes começarem a desmobilizar aconteceu um concurso [ver caixa] com vista a premiar os melhores conjuntos, compostos por bicicleta (com mais de 40 anos), acessórios e trajes da época. “Inicialmente, pensámos oferecer três prémios, mas dada a qualidade de como as pessoas se apresentaram, decidimos entregar mais sete”, adiantou Jorge Fonseca.
Ema Vinhas, de Febres, foi uma das vencedoras da tarde [ver foto]. Os tamancos, chapéu de lã, lenço atado à cabeça, camisa e avental de algodão e saia de lã, valeram-lhe um primeiro lugar num dos concursos. A bicicleta, de 1963, apetrechada com um “ceirão”(cesto de transporte de utensilios agrícolas em vime), é usada “praticamente todos os dias para me deslocar para o trabalho”.
O I Encontro de Bicicletas Antigas terminou a meio de tarde e o sentimento de dever cumprido era generalizado. Se tudo correr como previsto, para o próximo ano parte da história do concelho de Cantanhede volta a sair do baú de memórias e faz-se novamente à estrada. | LM