A enorme quantidade de plantas aquáticas que se desenvolveram na Barrinha de Mira, algumas delas com características invasoras, preocupa autarcas e habitantes. Uma ceifeira aquática está a operar no local, mas a resolução do problema pode implicar outro tipo de medidas. 

Uma elevada concentração de plantas aquáticas, entre elas o jacinto-de-água, está a invadir a Barrinha de Mira. No passado dia 23 de Agosto, uma ceifeira aquática regressou ao local para continuar os trabalhos e, assim, evitar que a situação atinja proporções ainda maiores.

A Câmara Municipal de Mira já se mostrou empenhada em proteger aquele braço da Ria de Aveiro de um estado que se verifica de há alguns anos a esta parte. A situação foi-se agravando ao longo do tempo e, neste momento, a elevada concentração de espécies aquáticas está a ameaçar o ecossistema. Os proprietários das embarcações de recreio que ali podem ser alugadas também se sentem prejudicados, alertando para a dificuldade em circular na Barrinha.

A autarquia mirense fez saber que está em marcha um estudo realizado pelo Programa Polis da Ria de Aveiro, que inclui a avaliação do impacto ambiental de uma eventual limpeza da ria para a tornar navegável.

O equipamento mecânico que agora se encontra a trabalhar naquela lagoa costeira foi cedido pela Câmara Municipal de Águeda, graças a um acordo estabelecido com a Câmara de Mira, sendo de esperar que a sua intervenção dure cerca de três meses.

Biologia de uma “invasão”

Falámos com dois especialistas em biologia que nos explicaram quais as espécies de plantas aquáticas que se podem encontrar na Barrinha. “Nenhuma delas é uma alga”, sublinhou Jorge Paiva, professor e investigador da Universidade de Coimbra (UC). “Uma das plantas, inconfundível, é a invasora jacinto-de-água, Eichornea crassipes”. A esta planta juntam-se, pelo menos, outras três, sendo uma delas a Elodea canadensis. “É outra planta com flores, invasora, de origem americana, e que já está em Portugal há muitos anos, particularmente na Ria de Aveiro e na lagoa da Pateira de Fermentelos”. Nesses locais, “era colhida e fazia parte do designado ‘limo’ para estrumar as terras”. O nome “estrume-novo”, como os agricultores se referem àquela planta, “é indicativo de que não fazia parte do moliço”, sublinhou.

Outras duas plantas identificadas pelo botânico são a “Myriophyllum aquaticum, que o povo designa por ‘pinheirinha-de-água’” e a “Zostera marina, vulgarmente designada por ‘limo-de-fita’”. “Ambas dão flores dentro da água e reproduzem-se intensamente por fragmentação vegetativa”. 

Segundo Jorge Paiva, à excepção do “limo-de-fita”, que é autóctone, todas as outras têm por detrás a mão humana. “Isso só explica o risco de introdução de plantas”, sustentou, acrescentando que o problema “não tem a ver com a poluição, mas sim com a falta de colheita do moliço”.

Para Ulisses Miranda Azeiteiro, professor na Universidade Aberta, “a elevada densidade e biomassa destas plantas deve-se à influência conjunta de três variáveis ambientais, que promovem o seu crescimento e reprodução: temperatura e luminosidade altas e grande disponibilidade de nutrientes”. 

Ulisses Miranda, que é também membro do Centro de Ecologia Funcional da UC, defende que a extracção de substâncias em terrenos situados junto à água pode estar a aumentar o ritmo de crescimento deste tipo de flora. “A elevada luminosidade nesta altura do ano, combinada com uma grande disponibilidade de nutrientes, fósforo e azoto os mais importantes, que chegam a estes sistemas por lixiviação dos terrenos agrícolas em redor, promovem estes crescimentos elevados”.

O docente alerta para o impacto que a elevada concentração de plantas pode vir a ter no ecossistema. “Estes sistemas podem entrar em processos de eutrofização com impactes ecológicos na manutenção da fauna aquática, nomeadamente mortalidade piscícola, e nos serviços de ecossistema, como a recreação e uso da água”.

A ceifeira aquática que está a ser utilizada pode não ser uma ferramenta suficiente para controlar o desenvolvimento das espécies. “As medidas de mitigação podem resolver durante algum tempo ou atenuar a situação. Contudo, o problema deve ser resolvido actuando nas suas causas, nomeadamente nas cargas de nutrientes e fertilizantes usados nos terrenos agrícolas circundantes”. | LM