A erosão costeira é um fenómeno que tem roubado metros de areal a Portugal. Na Praia de Mira, na zona do Bairro do Norte, o mar está a avançar impiedosamente sobre a duna, ameaçando destruir a única muralha que ainda protege as habitações. Entidades responsáveis já estiveram no terreno a avaliar a situação. A erosão costeira ou litoral traduz-se, de forma simples, no recuo da linha de costa face ao avanço progressivo do mar. Este recuo costuma estar associado “à diminuição das defesas naturais na orla costeira, sobretudo por acção do homem”, explica o documento intitulado “A Vigilância Costeira no Litoral de Mira e os Problemas da Erosão Costeira em Portugal”, divulgado pela AAMARG – Associação dos Amigos dos Moinhos e Ambiente da Região da Gândara, instituição que desde há vários anos tem acompanhado e monitorizado o processo de erosão costeira na Região.

Já em 2004, Portugal foi considerado um dos países da Europa mais afectados por este fenómeno, com o litoral Norte e Centro a serem as regiões mais críticas. Investigações coordenadas pelas Universidades de Aveiro e Coimbra, e pelo Instituto do Mar, conduzidas no terreno durante mais de dez anos, revelam que na zona a Sul da Barra e da Costa Nova, Aveiro, zona onde se incluem as praias da Vagueira e de Mira, o avanço do mar ameaça o futuro dessas zonas balneares.

A AAMARG debruçou-se sobre o caso específico do concelho de Mira e dos seus 15 quilómetros de costa, verificando que, em 2009, mais de dez quilómetros já apresentavam “degradação significativa da duna primária, com escarpa erosiva expressiva”, acrescentando que as zonas de maior risco situavam-se “a cerca de um quilómetro a sul do esporão do Areão e a 400 metros também a sul do esporão do Poço da Cruz”. É precisamente neste último ponto que a situação começa a ser preocupante. Já em 2009 a Associação ia avisando que os galgamentos oceânicos teriam efeitos “muito significativos a curto ou médio prazo na povoação da Praia de Mira, em especial no seu Bairro do Norte”.

Dois anos depois, os prognósticos da AAMARG parecem cada vez mais acertados, com alguns moradores do Bairro construído na década de setenta do século passado, um dos maiores agregados populacionais da Praia de Mira, a manifestarem a sua preocupação, sobretudo porque esta é “uma situação que já não é de agora e que se tem vindo a agravar”, disse António Gabriel ao AuriNegra. Filho de pescador e também ele homem do mar, reside no Bairro do Norte desde que este foi construído. “Em tempos, do telhado das nossas casas conseguíamos ver o mar. A duna ainda não tinha esta configuração”. Por ironia, agora que não vê o mar de sua casa, ele está mais perto do que nunca.

Problemas a Norte

Carlos Milheirão, presidente da Junta de Freguesia da Praia de Mira há mais de dez anos, assume que “há um risco, ainda que para já não muito iminente, de o mar chegar às casas, sobretudo com as marés vivas”, fenómeno que, por norma, ocorre imediatamente após a lua cheia, e em que a amplitude da maré pode duplicar. As autoridades foram alertadas para a erosão anormal da duna que protege o Bairro do Norte, situação que se tem acentuado de forma drástica nas últimas semanas: “O INAG [Instituto da Água] vai intervir nessa zona, intervenção que, aliás, já devia estar no terreno”, confirmou Carlos Milheirão.

Há pouco mais de cinco anos, dois dos esporões da Praia de Mira foram reconstruídos pelo Instituto, mas continuam a ser muitos os que vêem nessa estrutura o problema, mais do que a solução. “Está bem patente que os esporões estão a acelerar o desgaste da costa”, defende o autarca. E vai mais longe: “O problema, nós sabemos bem onde está; está na Barra de Aveiro. Ainda por cima querem aumentar os molhes e dragar a Barra, porque está previsto chegar aos 12 metros de profundidade, para albergar navios de maior calado. Quanto mais crescem os molhes da Barra de Aveiro, mais o problema se agrava a Sul”.

Também a AAMARG tomava posição semelhante, no documento anteriormente mencionado: “As obras pesadas de engenharia costeira [molhes, paredões e esporões] que são implementadas para acautelar o recuo da linha de costa funcionam, em geral, como indutores suplementares de intensa erosão costeira. Tal se tem verificado no concelho de Mira, após a construção dos esporões do Areão, Poço da Cruz e Praia de Mira Sul”. A deriva litoral das areias, fenómeno natural que assegura a sua distribuição mais homogénea, encontra nessas estruturas transversais à costa um obstáculo de difícil transposição.

“As areias acumulam-se a montante [Norte] dos esporões, o que acarreta um incremento da erosão a jusante, por vezes a dezenas de quilómetros”, lê-se no documento. Neste caso, na zona do Bairro Norte, os efeitos do mar e consequente desgaste da duna já provocaram a remoção dos passadiços, que ao perderem o apoio dunar ficaram suspensos, constituindo perigo para quem deles se servisse. Vigilantes, alguns habitantes do Bairro observam o mar dia após dia, rogando para que o seu avanço sobre a costa não traga consequências nefastas para as suas casas: “Preocupa-me que tenhamos que sair daqui do Bairro. As casas não as podemos levar… se houvesse alguma engenharia que me pudesse levar a casa daqui para fora, eu era o primeiro a pagar para a tirar daqui. A única defesa que separa o mar das nossas casas é esta duna”, desabafa António Gabriel.

“Big bags” podem ser alternativa

Dá voz à preocupação natural de quem tem ali, naquele Bairro, a sua vida e o fruto do trabalho de dezenas de anos. “De ano para ano, de mês para mês, e agora de maré para maré, a situação piora. Se não tivessem sido construídos esporões na nossa costa, certamente estaríamos melhor do que estamos. Agora o processo é irreversível. Temos que deixar de ter beleza nas nossas praias, para termos segurança. Ou deitamos pedra para reforçar as nossas dunas ou fazemos um cordão na orla da maré para as quebrar. Deitar areias soltas em sítios em que o mar a leva, é o mesmo que deitar manteiga em focinho de cão”, considera o pescador.

“Este é uma situação que sempre ocorreu ao longo dos anos, mesmo antes de haver os esporões, mas não com tanta frequência e intensidade. A questão é que a areia agora é muito menos, estão milhões de toneladas retidas a norte da Barra de Aveiro, na tal duna natural de São Jacinto, que é intocável. A verdade é que essa areia devia andar a circular, ou então ser transportada para este lado”, reforça Carlos Milheirão. A Natureza não está a conseguir repor o equilíbrio, o mar está a ser mais forte que a duna e a areia que devia “circular”, num movimento contínuo de Norte para Sul, está a ficar retida nas estruturas que a intervenção humana semeou na costa.

Molhes, quebra-mares, esporões e paredões, são as armas esgrimidas pelo Homem na sua luta constante para ganhar alguns metros de terra ao avanço do mar. Eficazes nalgumas situações, são cada vez mais notórias as suas implicações negativas na costa portuguesa. Desde 2005, ano de intervenção nos últimos esporões, a linha costeira no concelho de Mira recuou, nalguns pontos, “entre 70 e 100 metros”, com os galgamentos oceânicos a serem cada vez mais frequentes. Noutros países, como o Brasil, a Austrália e os Estados Unidos da América, têm sido usados outros métodos, que começam agora a ser estudados para Portugal.

“A intervenção na zona do Bairro do Norte, que já devia estar no terreno e deve arrancar a qualquer momento, contempla a remoção de um bico de areia que ali se formou por meio de maquinaria, areia que será empurrada para a zona de maior profundidade. Depois deverá ser criado um cordão com sacos de areia, chamados ‘big bags’ que são utilizados para o transporte e acomodação de diversas substâncias. Essa linha deverá ser criada na zona normal da quebra do mar, uma linha recta no sentido norte-sul”, esclareceu o presidente da Junta.

O AuriNegra tentou confirmar, junto do INAG, a data prevista para o arranque da intervenção na proximidade da duna que protege o Bairro do Norte mas, até ao fecho desta edição, não obtivemos qualquer resposta por parte daquele organismo. A Autarquia de Mira e a Protecção Civil local estão atentas a esta situação, assim como a Administração da Região Hidrográfica do Centro e, naturalmente, a Junta de Freguesia da Praia de Mira e a sua população. | FC

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