Isabel Maria Múrias Ferreira Coelho nasceu a 11 de Abril de 1955 em Coimbra. Com pouco mais de um ano de idade troca a “cidade dos Estudantes” por Casal de S. Tomé, Mira, onde viria a ser criada por uma família adoptiva. “É algo que me magoa um pouco”, confessa. Ainda assim, não lhe faltaram amor e carinho por parte daqueles que, apesar de não lhe terem vínculo biológico, considera os seus verdadeiros pais. Viveu uma infância e uma adolescência felizes, com a Gândara a servir de cenário para as suas brincadeiras e descobertas. Apesar de ter apenas a 4.ª classe, descobriu, há alguns anos, uma paixão que vai conjugando com a lavoura: o jornalismo.

 

Nasceu em Coimbra mas é uma gandaresa convicta. Cresceu num meio rural, num tempo em que era da terra que a maior parte das pessoas arrancava o seu sustento, trabalhando desde cedo no negócio dos pais. Há pouco mais de 15 anos descobriu a sua verdadeira vocação, o jornalismo, mas nunca encostou a enxada. Hoje, utiliza a agricultura como terapia, para se abstrair da azáfama da vida de repórter.

 

Isabel Múrias é uma espécie de figura pública no concelho de Mira. Não há, por essas bandas, quem não conheça ou tenha ouvido falar da repórter de meia-idade que, primeiro de bicicleta e hoje de carro, chega a tudo o que é festa, inauguração ou cerimónia oficial.

De gravador e máquina fotográfica em punho, vai registando os momentos que depois ganham vida no jornal “O Gandarez”, uma publicação que pretende dar voz à Gândara e às suas gentes. No mundo da comunicação social, cada vez mais competitivo, é notável que Isabel, com 56 anos e a 4.ª classe, se sinta como “peixe na água”. Talvez porque conhece o povo gandarês, para quem escreve, como a palma de sua mão.

Feitas as contas, e apesar de ter nascido em Coimbra, desde os 14 meses de idade que “adoptou” Mira, terra onde foi criança e cresceu, em que se fez mulher e se estabeleceu. “Estou em Mira porque era cá que estavam os pais que me criaram. A minha mãe de sangue teve-me mas não me pôde criar, porque eu era filha de um namoro e o homem com quem ela estava não me quis aceitar”, recorda. As palavras custam a sair: “É algo que me magoa um pouco”. A rejeição abriu-lhe as portas para uma nova família, um casal sem filhos que nunca lhe faltou com nada: “Deram-me tudo o que é suposto os pais darem aos filhos. Amor, carinho, nunca me faltaram com nada”.

Recorda, por isso, uma infância feliz. Pelo menos até descobrir que aqueles a quem chamava pai e mãe não eram seus, verdadeiramente. “Sempre estive convencida que aqueles eram mesmo os meus pais. Foi na Escola Primária que descobri. Os meus colegas, não sei se por inveja daquilo que eu tinha, diziam que eles não eram meus pais. Era maldade de criança, por os meus pais terem possibilidades e me darem coisas diferentes”. A crueldade dos outros meninos ensombrou o espírito da pequena Isabel mas a mágoa acabaria por se esbater. “Quando somos mais pequenos custa mais a aceitar”. A família era dona de uma loja e o pai fazia turnos numa serração em Mira. No Natal, havia direito a Pai Natal de chocolate e tudo, luxo a que a maioria dos outros meninos não tinha acesso. “Para mim eles é que eram os meus pais. Ainda hoje são, apesar de já terem falecido”.

 

Gândara de outrora

Com uma memória fotográfica, Isabel recorda a Gândara de outros tempos. A agricultura era a principal actividade da população e as pessoas eram simples, trabalhadoras e humildes. “Os meus pais tinham taberna e mercearia, por isso nunca sentimos dificuldades. Mas recordo bem esses tempos, em que comíamos todos do alguidar. Lembro-me dos garfos em ferro e de comermos bacalhau e carne de vaca, o que não era usual noutras casas”. A sopa à gandaresa, as batatas cozinhadas com molho, a carne frita, a broa acabada de assar no forno de lenha – as descrições da jornalista são tão vivas que quase conseguimos sentir o aroma desses sabores de outros tempos.

 “Era tudo muito mais saboroso. Hoje é tudo mais artificial. Mesmo os ingredientes já não são os mesmos, nós procuramos fazer igual mas o sabor já não é o mesmo”, confessa com alguma nostalgia. Também as brincadeiras eram mais sadias e saborosas, sobretudo porque eram doseadas entre horas de trabalho e de estudo. Desde cedo que Isabel Múrias teve que dar uma mão no “comércio” dos pais: “A minha mãe tinha problemas de saúde, por isso eu tinha que ajudar. Comecei desde nova a aviar uns copitos na taberna”, partilha, divertida. “Lembro-me das medidas todas para o azeite e para os cereais, e da brilhantina que também vendíamos às medidas. Veja que na 4.ª classe já eu ia aos ovos, de porta em porta”.

O trabalho era conciliado com a escola, nesses tempos bem mais exigente. “Fiz a 4.ª classe no Casal de S. Tomé, e não estudei mais porque não quis. Os meus pais até queriam, mas eu andava cansada da escola. Fiquei a ajudá-los no negócio e a tratar do quintal, que ainda hoje semeio todo, e de algum gado que tínhamos”, revela, orgulhosa. “Quanto aos estudos, hoje talvez pensasse de outra forma…”. Na juventude foi mais o trabalho que a diversão, mas também houve espaço para algumas actividades prazenteiras: “Jogávamos ao ringue, à calha [macaca], às cartas e até à malha. Debaixo de uma grande figueira que a minha mãe tinha passávamos alguns bons pedaços, rapazes e raparigas juntos, porque naquele tempo havia muito respeito”. As brincadeiras de moça foram boas mas duraram pouco, já que com 15 anos Isabel sobe ao altar. “Conheci o meu marido nas festas de Casal de S. Tomé. Foi amor à primeira vista”.

O marido, da Praia de Mira, ganhava sustento no mar, e desde logo Isabel se habituou aos meses de ausência, de coração apertado e com os filhos nos braços. “Andou na sardinha e depois no bacalhau. Ausentava-se aos três meses de cada vez, e nós, as mulheres, andávamos sempre ansiosas para os ver regressar”. Antes da partida reinava a azáfama, com os preparativos para a viagem. Depois, vinham a saudade e a expectativa: “De vez em quando recebíamos um telegrama, era uma alegria. Nós, mulheres, fazíamos companhia umas às outras, íamos receber o abono juntas, de bicicleta. Ao domingo reuníamo-nos e durante a semana trocávamos tardes. Um dia eu ia ajudar uma a apanhar batatas, noutro dia ela vinha ajudar-me a mim. Sempre parecia que o tempo passava mais depressa”.

 

Profissão: jornalista

Hoje, o amor à terra mantém-se, já que é na enxada e no cultivo que Isabel encontra o alívio para a azáfama da outra paixão que entretanto abraçou: o jornalismo. “Trabalhei muitos anos no comércio, sempre gostei do convívio com as pessoas. Talvez venha daí o meu gosto pelo jornalismo. Já antes de participar no Jornal eu era muito activa. Estive num grupo coral, dava assistência aos peregrinos, participei no grupo etnográfico da Casa do Povo de Mira, enfim, por isso é que hoje as pessoas me conhecem e eu sei valorizar o trabalho que esses grupos fazem. Porque já estive do outro lado”.

Ainda que tarde, o gosto pelo jornalismo surgiu de forma natural: “Começou na Rádio Bairrada. O senhor Marques da Silva tinha lá um programa em que eu comecei a participar, sobretudo nos discos pedidos. Já lá vão para aí uns 16 anos”. Dos discos pedidos à colaboração no programa “Manhã, querida manhã” foi um salto, e daí ao Jornal, outro. “Participava nos passatempos com textos sempre em verso e criava-se uma relação de proximidade entre ouvintes e locutores. Éramos como que uma família. Um dia, quando finalmente conheci o senhor Marques, ele convidou-me para o Jornal”. A sua primeira reportagem foi nas festas no Casal de S. Tomé, ainda para o “Região Bairradina”. Depois nasce “O Gandarez”, projecto que Isabel Múrias abraçou desde a primeira hora.

Das primeiras reportagens, em bicicleta ou à boleia, guarda gratas recordações: “As pessoas primeiro admiravam-se mas tratavam-me sempre bem. Só tirei a carta em 2000, que foi quando comecei a ir de carro. Ia fazendo as reportagens à minha maneira, ninguém me ensinou mas parecia que eu já sabia como é que havia de fazer”. Isabel confessa-se uma pessoa aberta, que gosta de conversar com os outros, meio caminho andado para conseguir boas “estórias”. Quanto ao jornalismo, assume que ainda hoje está a aprender: “Quando olho para os meus primeiros textos sinto vontade de sorrir. Mas mesmo nessa altura, nas minhas palavras simples, eu já ia ao encontro do que as pessoas queriam. Conheço as pessoas como a palma da minha mãe, sei o que elas querem”.

Fotografias enchem as páginas coloridas d’”O Gandarez”, levando até aos emigrantes, espalhados pelos quatro cantos do mundo, imagens da sua terra, retratos dos seus amigos e familiares. “Ajudamos os emigrantes a suportar as saudades”, diz com orgulho. “Por isso sinto muito o carinho das pessoas, e isso faz-me sentir bem. Não me sinto vaidosa, mas sim orgulhosa. Sinto orgulho de ver a minha Região lá fora. Nasci em Coimbra mas tenho muito orgulho em ser gandaresa”. Brilham-lhe os olhos e o peito enche-se de ar. Esse orgulho que já noutras ocasiões tivemos oportunidade de ver em gandareses “confessos”, é a afirmação dos valores desta gente, simples e trabalhadora, calorosa, alegre e tenaz.

 “Queremos divulgar a nossa cultura e as nossas tradições. Todos os trabalhos que faço me marcam, tal é o amor e carinho com que os faço”. Uma ida recente à Suíça foi um dos momentos mais emotivos da sua carreira, sobretudo no momento da despedida, do regresso a Portugal, em que as lágrimas dos emigrantes e as suas se misturaram. “Levei-lhes um bocadinho de Portugal e eles emocionaram-se… Sei bem o que isso é, estar longe dos nossos. Tenho três filhos e estão todos lá fora”. O seu trabalho é, mais do que isso, a sua paixão e a sua vida.