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Casar em tempo de crise

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Desde 1997 que o número de casamentos tem vindo a diminuir ano após ano. Aos constrangimentos financeiros juntam-se, nos últimos tempos, um novo paradigma no conceito de família e projectos de vida que já não passam pelos valores tradicionais de contrair matrimónio e investir em habitação própria. Ainda assim, o negócio das quintas e espaços para acolher esse tipo de evento parece passar ao lado da crise económica (e matrimonial) instalada.

 

Quem casa já não quer “apenas” casa (e, já agora, uns “trocos” num envelope). Quem decide contrair matrimónio quer, por norma, uma festa e um dia memoráveis. Se em tempos os salões de alguns restaurantes ou o quintal da vivenda dos pais da noiva eram opções válidas para acolher o “copo de água”, hoje esses espaços estão ultrapassados e só são escolhidos por quem não tem possibilidades financeiras para outros voos. De há uns anos a esta parte, casamento que é casamento tem que ser realizado numa quinta. Não importa se o local é recôndito, se os acessos proporcionam uma viagem divertida para quem vai de jipe ou se nem os gps’s mais actualizados conseguem dar com o sítio. O que importa é que, no convite, esteja bem visível o nome do idílico espaço que vai acolher o dia mais feliz dos noivos, e que esse nome inclua a palavra “quinta”.

Aliás, basta uma rápida pesquisa no sítio das páginas amarelas na internet para se obterem dezenas de resultados. O fenómeno das quintas e espaços para eventos, sobretudo para casamentos, tem florescido nos últimos anos, e nem a crise económica e, sobretudo, a matrimonial, têm afectado o negócio. Maria José Simão, gestora de eventos da Quinta do Mourão, na bonita vila de Tentúgal, concelho de Montemor-o-Velho, confirma isso mesmo: “É um negócio que ainda continua próspero, apesar de as estatísticas nos indicarem que todos os anos há perto de menos dez por cento de casamentos. Nós ainda não notamos decréscimo, a agenda continua preenchida”.

Julho, Agosto e Setembro continuam a ser os meses eleitos pelos casais, que começam a preparar o grande dia cada vez mais cedo: “Já temos pré-reservas para 2013, porque há muita afluência às Quintas e as pessoas querem garantir o espaço, mas também por causa das marcações na Igreja. O normal é marcarem pelo menos com oito ou nove meses de antecedência, mas também já tivemos quem tratasse de tudo em um mês e conseguimos tratar de tudo”. O espaço e o serviço de catering são escolhas que devem ser feitas com tempo e ponderação, já que delas depende, em grande parte, o sucesso da festa e a garantia de que o dia será memorável pela positiva.

Conquistar os noivos

Na Quinta do Mourão, à semelhança do que acontece noutros espaços do género, existe uma equipa preparada para ajudar os noivos mais indecisos, e não serão poupados esforços no sentido de concretizar os desejos dos casais que têm uma ideia precisa daquilo que pretendem. Da decoração da sala à ementa, passando pelo “pôr-do-sol” (outra modernice) e pela animação musical, tudo será acautelado por profissionais para que os noivos só tenham que se preocupar em sorrir e em estar felizes e radiantes. “Tratamos de tudo, incluindo da parte gráfica, dos convites, e até da documentação, já que temos uma área jurídica”, confirma a gestora. Num mercado muito competitivo, esta Quinta distingue-se “pela área, de sete hectares e meio, por um edifício antigo que está a ser reestruturado para turismo rural, por um edifício moderno com dois salões com capacidade para mil e muitas pessoas, e depois temos os nossos jardins a perder de vista, com lagos e animais, que dão uma ambiência muito bonita à Quinta”.

Quanto a valores para a festa, Maria José Simões vai avisando que é sempre “muito relativo, depende de muitos factores e pormenores”, mas por menos de 70 euros por convidado é pouco provável que consiga casar na Quinta do Mourão. A “brincadeira” pode sair um pouco mais em conta na Quinta dos Três Pinheiros, na Mealhada, outro espaço conhecido pela organização de eventos, em concreto casamentos, e procurado por muitos na Região. Almerinda Rodrigues, responsável de serviços, confirma que a partir de 45 euros é possível casar no complexo que engloba uma  discoteca, 53 quartos, restaurante, sala para banquetes e conferências e uma piscina. “Notamos uma certa quebra nos serviços, não tanto no número de cerimónias, mas mais na quantidade de pessoas convidadas. Temos feito casamentos muito mais familiares, para 50 ou 60 pessoas”, reconhece. “Temos bonitos espaços verdes, salas muito agradáveis, um hotel que foi remodelado há dois anos, piscina, uma orquestra própria e ementas diversificadas”.

Contrariar a estatítica

Das festas para centenas, em que até os primos em décimo grau eram convidados, às reuniões mais íntimas, que deixam de fora todos aqueles que se limitem a enviar um postal de Natal e uma mensagem em dia de aniversário, o casamento, em Portugal, está a mudar. Mudam as regras da cerimónia e muda mesmo a sua importância e peso no projecto de vida de muitos jovens. O “decréscimo de casamentos tem a ver com todas as transformações a que assistimos, quer ao nível do conceito da vivência da família, quer ao nível dos próprios projectos de vida das pessoas”, explicava Emília Araújo, directora do Departamento de Sociologia da Universidade do Minho à Agência Lusa, há pouco mais de duas semanas. “As pessoas procuram muito mais a auto-realização pessoal, que pode não passar pelo casamento”.

Dizem as estatísticas que, desde 1997, o número de casamentos que se realizam por ano em Portugal tem vindo a descer sempre. Mas a quebra mais acentuada verificou-se em 1977, quando de um ano para o outro se realizaram menos dez por cento dos matrimónios. Dos 101.885 de 1976, aos 91.403 de 1977, uma descida abrupta que revela logo aí alguns efeitos do 25 de Abril de 1974 na mentalidade e no estilo de vida da população portuguesa, que decidiu romper com muitas das tradições e dos hábitos vigentes no Estado Novo. A tendência de descida tem-se  mantido desde então, salvo raras excepções, com o número de casamentos em 2009 a ficar-se por pouco mais de 40 mil. Tendência inversa têm revelado os divórcios, com aumentos sucessivos desde 1974.

Estes números não chegaram para assustar Inês Oliveira e Carlos Azevedo, de Coimbra, jovens com casamento marcado para Junho do próximo ano. A preparação da cerimónia começou com dois anos de antecedência: “Obviamente que nos tempos que vivemos é difícil casar, mas já namoramos há quase oito anos e esta é uma coisa que queremos muito”, revela Inês. O espaço já está escolhido há algum tempo, falta decidir a decoração e alguns detalhes da ementa. “Vamos ter cerca de 250 convidados, é um casamento de dimensão razoável. Como ainda não está tudo decidido, não sabemos ao certo quanto vamos pagar, mas penso que o valor rondará os 78 euros por convidado”. Quanto ao vestido de noiva, há muito que está definido: “Ainda antes de ter anel de noivado já sabia como ia ser o vestido que queria. Vai levar algumas alterações no modelo original”.

Personalizações feitas para um casamento à medida, num dia que se espera único e irrepetível e o início de uma caminhada que se pretende que dure para toda a vida. Por mais que as estatísticas teimem em desmentir o “até que a morte nos separe”, e que a situação económica confirme que gastar largos milhares de euros numa festa de um dia seja, cada vez mais, um luxo ao alcance de poucos. 

 

Para mais tarde recordar

Jorge Figueiral é fotógrafo de profissão há mais de duas décadas. Tem estúdio em Montemor-o-Velho e em Cantanhede e são vários os trabalhos que realiza: “Faço casamentos, baptizados, fotografia de estúdio… é aquilo que mais gosto de fazer”. Os 20 anos que leva de máquina em riste dão-lhe uma perspectiva privilegiada sobre o “negócio” da fotografia de casamento: “Os estudos nacionais apontam para que o número de casamentos esteja a decrescer, mas no meu caso a coisa funciona ao contrário. Apesar de haver menos casamentos, tenho fotografado mais”.

Assume que o registo daquele que pretende ser um dos dias mais especiais da vida de duas pessoas é uma das suas paixões, um trabalho exigente que requer do fotógrafo uma elevada dose de empatia e sensibilidade: “É uma grande responsabilidade, registar esse dia. Além disso requer muita sensibilidade, e eu gosto de partilhar o momento, que é um momento especial, para os noivos o momento mais importante”. Com alguns casais, Jorge Figueiral conseguiu mesmo criar uma relação de amizade: “É bom viver essa alegria e esse amor. Gosto de sair do casamento com vontade de lá continuar, de ficar amigo das pessoas. Há casamentos em que isso se consegue, outros nem por isso, mas são muitos os que me marcaram. Há casamentos em que sei perfeitamente onde tirei as fotos, qual a história da imagem, ainda que tenha sido há dez anos”. Por isso recorda vivamente o primeiro casamento que fotografou: em Pombal, já lá vão 20 vinte anos. “É como no amor, o primeiro marca sempre muito”.

É certo que o fotógrafo é um elemento importante para eternizar o enlace, mas são muitos os convidados que vão brindando os profissionais com alguns olhares fulminantes, sobretudo quando a fome aperta e a espera para que termine a sessão fotográfica e se possa, finalmente, passar ao que interessa, se prolonga: “O fotógrafo é um artista e o convidado, por norma, vai para o casamento a pensar em comida. Mas a vida é mais que comida, e nós temos que captar aquele momento porque não vamos ter outra oportunidade para o fazer. Temos que dar o máximo de nós para termos um bom trabalho”.

Quanto aos preços a pagar para que o dia do casamento fique registado em mais do que a memória dos presentes, variam consoante as exigências do casal: “Com fotografia e filme, a partir de 1.490 euros, mas pode ir até três ou cinco mil euros”. A internet tem vindo a ditar o fim das provas fotográficas penduradas em extensões imensas de parede ou de vidro, mas nem todos os convidados aderem à moda. Há ainda quem insista em ver em papel antes de comprar: “Não gosto de fazer provas, dou a possibilidade às pessoas de encomendarem a partir do site. Outra possibilidade é projectá-las no casamento, a partir do meu computador. As pessoas ainda gostam das provas, de comparar as imagens, e as pessoas mais velhas não prescindem disso”. As fotografias de álbum de casamento podem parecer repetitivas, com as alianças ao lado do bouquet e a noiva em frente ao espelho a serem praticamente incontornáveis, mas não deixam de ser arte: “No fundo é pintar com luz, é isso que procuramos. O pintor usa a tela e a tinta, nós usamos a máquina fotográfica”.

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