Estamos em plena época balnear e isso é sinónimo, para muitas pessoas, de longas horas passadas na praia. Além dos conselhos que têm vindo a ser divulgados nas últimas edições do AuriNegra, segue-se um outro cujo desrespeito pode provocar uma dor atroz. Se alguma vez observar uma “caravela-portuguesa”, a primeira reacção deverá ser não entrar em contacto. Conheça neste artigo o que torna aquela espécie uma das mais perigosas que vagueiam na costa portuguesa e o que deve fazer em caso de picada.  

Os relatos de avistamentos de “caravelas-portuguesas” ao largo da costa de Portugal Continental são escassos, daí a razão para o desconhecimento desta espécie marinha. Falámos com Ana Costa, docente na Universidade dos Açores, que nos explicou a constituição de um organismo que pode ser confundido com um mero saco de plástico, mas que na verdade obriga a medidas de prevenção muito rigorosas. “A Physalia physalis, conhecida como ‘caravela-portuguesa’, é um hidrozoário sifonóforo colonial flutuante. É aparentada com as hidras, com as medusas ou águas-vivas, e com as anémonas. Partilham, entre outras coisas, as células com cápsulas urticantes, denominadas cnidas”. 

A garrafa-azul, outro dos nomes atribuídos, é composta por vários organismos com diversas morfologias e funções na colónia, como deslocação, predação, alimentação e reprodução. “Todos estes indivíduos são dependentes uns dos outros e formam assim um ‘superorganismo’”. O primeiro passo para identificar uma “fisália” é conhecer, minimamente, as suas características. “Este organismo é facilmente reconhecível pela presença de um flutuador, denominado pneumatóforo, em forma de vela mais ou menos triangular, de onde terá vindo, provavelmente, a analogia com as caravelas portuguesas”. O órgão respiratório que emerge à superfície da água é de cor azul, púrpura ou rosada, tendo cerca de 30 centímetros nos organismos maiores e inclui, no seu interior, gás que é segregado por uma glândula. “Este gás é semelhante ao ar, é portanto principalmente azoto, mas apresenta mais oito por cento de carbono, permitindo a flutuação à superfície da colónia. Em conjunto com a crista do topo do pneumatóforo, proporciona uma superfície que funciona como uma vela ao vento permitindo a sua deslocação”. Entre os organismos da colónia que se encontram submersos, estão os responsáveis pela alimentação. “Estes contêm sucos digestivos que são injectados nas presas quando apanhadas pelos tentáculos compridos, que podem chegar a 20 metros, quando esticados”. Os tentáculos contêm células venenosas dotadas de cápsulas com uma toxina de natureza proteica, sendo utilizada para a defesa e captura de peixes e lulas, provocando a imobilização das presas. “Em contacto com os seres humanos tem um efeito muito doloroso, podendo causar efeitos graves, incluindo febre, choque e efeitos respiratórios e cardíacos. O mais frequente é causar uma lesão dolorosa na pele que pode persistir por várias semanas”. Esta situação deve-se ao facto de a toxina se manter potente e activa, mesmo depois de a Physalia physalis morrer. Razão suficiente para que a docente e investigadora no Departamento de Biologia da Universidade dos Açores lance um apelo: “Não se deve tocar nos tentáculos dos animais arrojados nas praias”.

Avistamentos na Península Ibérica

Aquele organismo urticante viaja por todos os oceanos, deslocando-se ao sabor do vento e das correntes, principalmente em águas quentes, de clima tropical e subtropical. No entanto, tem-se verificado um aumento do número de “caravelas-portuguesas” em zonas menos típicas. “A razão para a ocorrência destas espécies ter aumentado em águas mais frias, como as da costa portuguesa, poderá estar relacionada directamente com o aumento da temperatura dos oceanos”, alertou Filipe Martinho, estudante de pós-doutoramento no Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. “A temperatura média à superfície do mar no Atlântico aumentou cerca de um grau, desde 1987 até 2006, e as previsões que existem apontam todas no mesmo sentido: o aumento da temperatura da água irá conduzir a uma deslocação das espécies para norte, o que faz com que cada vez mais iremos observar espécies típicas de águas mais quentes na nossa costa”. Sónia Cotrim Marques, também investigadora no Centro de Ecologia Funcional, sublinha que a picada no ser humano “causa dor intensa e feridas semelhantes a chicotadas na zona de contacto”. Apesar da agonia causada, é “muito raro provocar a morte” das vítimas. Ambos os investigadores lamentam nunca terem tido a oportunidade de examinar um animal daquela espécie, sendo que o único observado por Filipe Martinho foi “num aquário”.  

Em 2008 registaram-se dois feridos ligeiros numa praia de Peniche. Dois irmãos, com quatro e dez anos de idade, entraram em contacto com uma garrafa-azul e tiveram de receber tratamento hospitalar. Como medida preventiva, a Capitania do Porto de Peniche deu instruções aos nadadores salvadores para que hasteassem a bandeira vermelha caso fossem observados novos exemplares daquela espécie e que a sua presença fosse comunicada. No seguimento do alerta foram retiradas das praias da Costa Oeste mais “caravelas-portuguesas”.

Nesse mesmo ano, no mês de Agosto, Augusto Ramos, de Febres, observou de perto três “fisálias” quando se encontrava a cerca de 50 metros da costa algarvia, numa embarcação de recreio movida a pedais. “Estava com um grupo de cinco pessoas e aquilo pareciam-me sacos plásticos. A minha mulher é que falou em ‘caravelas-portuguesas’”. A suspeita revelou-se verdade. “Quando nos aproximámos é que vimos a tonalidade azul e nos apercebemos do que se tratava”. Ao regressarem a terra alertaram um nadador-salvador da praia da Galé, Albufeira. “Ele pediu a um funcionário de uma empresa de aluguer de motas de água para lhe emprestar uma embarcação e foi ver o que se passava”. Após a confirmação, foram contactadas as autoridades. “Durante duas horas não deixaram ninguém entrar na água”. 

De Espanha também chegaram relatos de grandes grupos daquela espécie marinha. Em 2009, cientistas davam conta de um número crescente de avistamentos nas águas do Mediterrâneo, relativamente perto das costas espanholas, o que levou à publicação de textos em vários jornais espanhóis. Os alertas soaram porque, de acordo com algumas testemunhas, foram vistos grupos de 50 elementos, algo que não se verificava naquela área há mais de uma década. As explicações para a proliferação da “caravela-portuguesa” no mar que separa a Europa de África multiplicaram-se. Se por um lado alguns biólogos defendiam que eram as alterações climáticas que estavam na origem do reaparecimento daquela espécie no Mediterrâneo, outros colegas desdramatizam e afirmavam que se tratava de uma situação pontual provocada pelo vento. Outra das hipóteses divulgadas pelos cientistas espanhóis estava relacionada com uma migração em busca de alimento e a redução da população da tartaruga-careta, a sua principal predadora.

Medidas de prevenção

Rui Amado, comandante da Capitania do Porto da Figueira da Foz, descreve todos os procedimentos que devem ser cumpridos no caso de avistamentos. “No caso de o avistamento ser próximo de uma praia, a autoridade marítima local deverá ser avisada. Se essa proximidade colocar os banhistas em perigo, a bandeira vermelha será içada na praia e a Polícia Marítima deslocar-se-á para o local no sentido de assegurar o cumprimento da restrição imposta, ou seja, a proibição de se tomar banho”. No caso de um organismo morto dar à praia, o Comandante refere que “seriam contactadas algumas entidades, como a Universidade de Coimbra e o Instituto da Natureza e da Biodiversidade, que tenham interesse em recolher algumas amostras sobre a espécie”. Após a análise, a “remoção total, para um aterro sanitário, seria assegurada pelos serviços camarários”. Rui Amado concorda que a espécie “caravela–portuguesa” é a mais perigosa que pode ser encontrada nas praias portuguesas, mas garante que até ao momento não há registos de vítimas na Figueira da Foz. “Esta espécie é mais comum em mar aberto, aparecendo nas zonas costeiras por acção do vento ou das correntes marítimas, podendo por isso ocorrerem contactos esporádicos com banhistas nas nossas praias. Podem surgir em grande abundância nos Açores assim como, por vezes, também na Madeira, ocorrendo esta situação esporadicamente no Continente”. “Existe uma colaboradora da Sociedade Portuguesa de Vida Selvagem que já foi picada por uma ‘caravela-portuguesa’ quando se encontrava na Ilha do Pico”. 

Segundo o Comandante da Capitania do Porto da Figueira da Foz, os primeiros-socorros para aquele tipo de picadas consistem na aplicação de compressas com água do mar gelada e a passagem de vinagre vinícola no local afectado, por períodos de 10 a 20 minutos. Estes procedimentos devem-se ao efeito anestesiante que a água gelada provoca na zona de contacto e a estabilização dos nematocistos (sistema de defesa) pelo vinagre, impedindo assim descargas adicionais de células ainda agarradas à pele humana. Por outro lado, a água doce ou o álcool não devem ser utilizados devido ao risco de provocarem o aumento da libertação do veneno. “Também não se deve esfregar a área atingida, mas simplesmente tentar retirar os tentáculos ou partes da matéria ainda coladas à pele com luvas de protecção grossas. Em acidentes graves são adoptados procedimentos de urgência, devendo ser accionados os mecanismos para evacuação hospitalar”.

Paulo Queiroz, médico na Unidade de Saúde Familiar “As Gândras”, em Febres, sublinha que o perigo da “caravela-portuguesa” reside no facto de os seus tentáculos, onde é libertado o veneno, poderem libertar-se da colónia. Embora sejam raras as vezes que aqueles animais se aproximam da costa, os seus tentáculos ou fragmentos são por vezes arrastados até às praias, sendo tão perigosos como a “fisália” inteira. “Isto porque o veneno mantém-se activo por muito tempo”. Do contacto com os tentáculos, pode haver uma reacção local moderada ou sistémica grave, de acordo com a quantidade de filamentos contactados e a duração desse contacto. “A picada pode provocar, além da reacção local que consta de dor, urticária e comichão, uma sensação de queimadura”. Nos casos mais graves, a lista de sintomas é extensa, sendo alguns deles as dores de cabeça, contractura muscular, náuseas, vómitos, diarreia, vertigens, dores articulares, espasmo brônquico, arrepios, hipertermia, alterações do ritmo cardíaco, irritação das mucosas e destruição de glóbulos vermelhos, podendo, no limite, levar a insuficiência renal. “Nas praias devia haver sempre uma solução fraca de amónia para ser aplicada com compressas na zona de contacto”. Outros objectos úteis para a remoção dos filamentos da pele humana são as pinças e as facas, servindo as últimas para raspar os tentáculos. “Nunca se devem utilizar luvas cirúrgicas, pois o veneno pode passar através delas”.

O clínico confessa nunca ter assistido uma vítima que tivesse entrado em contacto com uma “caravela-portuguesa”, mas adianta que, regra geral, são os banhistas e os pescadores que estão mais sujeitos a essas situações. “A picada provoca dores musculares e a vítima pode ficar com os membros entorpecidos, o que pode levar, indirectamente, ao afogamento”. Depois dos primeiros-socorros e da desinfecção da ferida, o tratamento passa pela aplicação de “corticosteróides, anti-histamínicos e analgésicos. Eventualmente pode ser preciso gluconato de cálcio”. No caso de complicações mais graves, como o choque, deverão tomar-se outras medidas apropriadas. | LM