Manuel Santos Pereira, mais conhecido na Praia de Mira por “Caçanito”, dedicou grande parte da sua vida ao mar. Trabalhou na arte xávega, experimentou a pesca da sardinha e acabou no alto-mar, na pesca do bacalhau. Os dias de hoje são passados a gerir o seu restaurante, situado na terra que o viu nascer, e onde dá a saborear algumas das iguarias que aprendeu a confeccionar enquanto era pescador.

O mar, palco de tantos momentos inesquecíveis e tragédias, sempre fez parte da vida de Manuel Santos Pereira. Nascido a 18 de Setembro de 1948, na Praia de Mira, com apenas 12 anos já trabalhava na arte xávega. “Carregávamos barras de eucalipto para colocar debaixo das embarcações para o seu encalhe e desencalhe. Também desenrolávamos e levantávamos, com umas estacas, o ‘saco’ [rede] onde vinha o peixe para depois ficar a secar na areia. Era uma actividade muito complicada e trabalhosa”. Quando era dado o sinal para os animais puxarem as traineiras para o mar, o jovem Manuel e os colegas tinham uma tarefa perigosa pela frente. “O arrais dizia ‘ó lá vai eche’ para os donos dos bois os picarem. Nós largávamos as varas e depois era uma confusão, com os bois, às vezes, a andarem por cima de nós. Aquilo era um inferno, as pernas andavam sempre negras. Mas só trabalhei lá quatro meses, numa companha”. Mergulhar no mar para ir à procura das barras de madeira que, por vezes, escapavam ao controlo dos pescadores, dava direito a um prémio extra. “Pagavam-nos cinco tostões por cada cinco varas que fôssemos buscar”. 

Aos 14 anos de idade obteve a cédula marítima. Um ano mais tarde, por se encontrar desempregado, decidiu ir com o pai para a Figueira da Foz. “O meu pai trabalhou como banheiro na Praia do Relógio durante 40 anos. Agarrava em crianças com sete ou oito anos e ia dar-lhes banho no mar. Os pais obrigavam os garotos a mergulhar, nem que fosse só na noite de S. João. Mergulhava-os três vezes e trazia-os de volta aos pais. Se as crianças fossem mais novas, levava-as ao colo e mergulhava com elas”. Manuel Pereira não seguiu as pegadas do pai e aventurou-se na pesca costeira da sardinha. Diz não se recordar da sua primeira viagem numa traineira, mas há um episódio que o marcou para o resto da vida. “O mar estava ‘cachão’, com muita ondulação, e três rapazes que estavam na chata [barcaça larga e pouco funda] foram cuspidos para o mar. Andámos ali às voltas para ver se os conseguíamos apanhar”. Dois dos pescadores foram encontrados com vida, já o terceiro não teve a mesma sorte. “Eu estava no alto do barco e a última vez que o vi ele fez um sinal de despedida. Vi-o a afogar-se no meio das ondas”. O corpo da vítima mortal nunca chegou a ser encontrado. Quando desembarcou na Figueira da Foz, um dos sobreviventes da tragédia proferiu uma frase que Manuel Pereira nunca mais se esqueceu. “Saiu do barco, com o cais cheio de gente, ajoelhou-se em frente ao mar e disse: ‘Se não me comeste desta, não me comes mais’”. Por ironia do destino, esse pescador haveria de falecer mais tarde, vítima de afogamento.

Rumo à Terra Nova

Quando tinha 17 anos, o jovem Manuel viu ser-lhe atribuída, pelos colegas da pesca, em pleno cais “Canto das Viúvas”, em frente à Câmara Municipal da Figueira da Foz, uma alcunha que nunca mais o largou. “Eu fazia o comer para um grupo de pescadores e, às vezes, o meu pai vinha almoçar connosco. Ele chamava-se Ilídio Cação Pereira. Como o meu pai era baixo, um dos pescadores costumava dizer: ‘Ali vem o ‘Caçãozito’, mas nós temos aqui um mais pequenino’”. O nome pegou, sofreu algumas variações, e a partir de uma certa altura Manuel Pereira passou a ser tratado, apenas, por “Caçanito”. Um ano mais tarde, à semelhança de muitos rapazes da sua idade, teve de tomar uma decisão: ficar em terra e ser chamado para combater nas colónias portuguesas do Continente Africano ou ir para o alto-mar para a pesca do bacalhau. “O meu pai não queria que eu fosse para a tropa e a mim também não me apetecia nada porque nunca gostei de armas”. Resolvido o dilema, embarcou, em 1967, no navio “Rio Lima”, em direcção à Terra Nova, no Canadá. Até ao destino podiam passar cinco dias ou, se as condições do mar não fossem favoráveis, seis ou sete. “Nos primeiros dois ou três dias não consegui dormir com o barulho dos motores e com a vibração do navio. Depois de nos habituarmos era ao contrário, só não dormíamos se não houvesse barulho. Em terra era a mesma coisa. Quando o navio atracava no porto de St. John’s [Canadá] e ficava só com os geradores ligados, sentia-se a falta da máquina a funcionar”. O primeiro desembarque para abastecimento de combustível e produtos alimentares acontecia, grande parte das vezes, 70 dias após a saída de Portugal. “Às vezes, se a pesca fosse boa, ficávamos no mar mais dez ou 15 dias”. Os pescadores portugueses repousavam na cidade que dá o nome àquele porto canadense durante três dias. “É um lugar lindo”. 

Depois de regressarem ao trabalho, só voltavam a pisar terra firme após um período de tempo semelhante ao anterior. A vida num barco de pesca do bacalhau é feita de rotinas, em que cada tripulante está encarregado de determinadas funções específicas. “Normalmente eram 60 homens, divididos em três grupos. Enquanto dois grupos faziam turnos de 12 horas, o outro grupo estava a descansar. Quando havia mais peixe trabalhavam-se mais horas. Houve um dia que cheguei a trabalhar 48 horas sem ir à cama”. Manuel “Caçanito” salgava o bacalhau no porão do navio, mas antes disso estava responsável por receber a rede carregada de várias espécies de peixes. “Às vezes, quando acabava a escala, ficávamos a tirar as línguas ao bacalhau. O que nós queríamos era descansar e uma vez começámos a deitar aquilo tudo fora. O imediato viu e veio ter connosco”. O castigo aplicado aos jovens pescadores consistiu em passarem longas horas na proa do navio, ao frio e sem contacto com o resto da tripulação.

Entre camaradas

A profissão era muito exigente e implicava que os homens passassem vários meses longe de casa. “No ano em que casei, em 1969, fiz uma viagem de quase nove meses. A minha mulher não sabia que estava grávida e quando cá cheguei tinha uma filha com 15 dias de vida”. Auferia 400 escudos por mês, mas dessa companha trouxe uma dívida para com a entidade patronal de três mil escudos. “Descontavam do nosso salário os maços de tabaco e as garrafas de whisky que pedíamos durante a viagem”. Depois de três viagens no “Rio Lima” mudou-se para o navio-fábrica “Cidade de Aveiro”, em 1972, a que se seguiram as experiências no “António Cação”, “José Cação” e “Rosa Silva”, sendo que este último naufragou anos mais tarde. “Também andei a pescar ao largo da costa de Marrocos”. Regressou a terra, definitivamente, em 1982. Apesar de todas as dificuldades, guarda boas memórias do espírito de camaradagem que se desenvolve no alto-mar. “Havia lá malta de todo o lado. Costumavam levar chouriços, presuntos e vinho tinto para os beliches. Jogávamos à ‘lerpa’ e fazíamos caldeiradas. Criam-se lá grandes amizades”. “O barulho do barco a rasgar as ondas é uma coisa que não se esquece. Ainda hoje tenho saudades do mar. Gostei mais de andar embarcado do que ter esta vida”.

Manuel Pereira é proprietário do restaurante “O Caçanito”, na Praia de Mira. “Estabeleci-me aqui em 1970, enquanto trabalhava no  ‘Cidade de Aveiro’. O Capitão fazia o favor de me deixar embarcar só no Inverno. Durante o Verão ficava no restaurante”. Aprendeu a confeccionar as iguarias que constam da ementa durante o tempo em que foi pescador. “A minha cozinha é muito tradicional. Só usamos azeite, óleo, pimenta, a cebola, o tomate, o sal e nada mais. Estes eram os meios que tínhamos no mar”. As especialidades da casa são raia e caldeirada de peixe. | LM