Jorge Manuel Pereira Martins nasceu em Coimbra, a 8 de Abril de 1953, mas foi em Vila Nova de Outil, Cantanhede, que passou a sua infância e parte da adolescência. Cursou Medicina e seguiu a especialidade de Cirurgia Geral. Pelo caminho dirigiu duas unidades hospitalares, tendo-se reformado há três anos após uma complicada operação a que foi sujeito. O episódio marcou-o profundamente e, segundo o próprio, passou a ver a vida de uma forma diferente.

Encontrámo-nos com Jorge Martins numa pastelaria, em Cantanhede, no momento em que lia uma biografia de Jorge Mandela. O livro foi posto de lado para dar início a uma conversa à volta da sua própria vida. Uma vida bastante preenchida, dedicada à Medicina e a ajudar o próximo.

Nascido em Coimbra e criado em Vila Nova de Outil, foi naquela localidade do concelho de Cantanhede que Jorge Martins completou o ensino primário. “Sou filho de um pai emigrante que esteve na Venezuela durante muito tempo. Só o conheci aos dez anos, quando ele veio a Portugal passar um mês”. Depois disso, teve de esperar mais oito anos para que o seu pai regressasse, definitivamente, ao País de origem. “A minha infância foi passada com o saber e carinho de duas mulheres que admiro profundamente: a minha avó, uma velhota da aldeia, muito trabalhadora e dedicada. À medida que o tempo passa cada vez a admiro mais. E, claro, a minha mãe, que teve de se dividir entre as funções de pai e mãe para educar dois filhos. Não foi fácil”. Tempos diferentes, mais exigentes, recorda, começando pelo próprio sistema de ensino. “A escola primária era uma instituição que tinha um estatuto quase militar. A educação era feita à base do medo, do decorar. A participação era quase nula, era decorar e fazer”. Ainda assim, houve outra mulher que marcou a sua vida. “A dona Maria Emília Pereira, a minha professora primária. Faleceu com 100 anos, curiosamente. Várias gerações devem-lhe muito”. Os computadores e os quadros electrónicos interactivos que hoje preenchem as salas de aula estavam a décadas de serem inventados. Professores e alunos serviam-se de réguas de madeira, placas de ardósia e giz. “Depois da escola corríamos para as terras onde os pais andavam a trabalhar, umas vezes para ajudar, outras para desajudar.  A minha avó e a minha mãe trabalhavam duramente na terra e eram elas que geriam os negócios”. No entanto, as típicas brincadeiras dos mais novos não eram descuradas. “A vida nas aldeias era outra. As ruas estavam cheias de gente. À noite as pessoas regressavam do campo. Aquilo tornava-se muito alegre. Brincava-se muito e havia até aquelas brincadeiras quase sazonais: uma época para o berlinde, outra para jogar ao prego. Mas sempre, sempre, a bola”. 

Do campo para a cidade

Concluída a quarta-classe e feito o exame de admissão, Jorge Martins prosseguiu estudos e foi para o colégio Infante de Sagres, em Cantanhede. “Começou um martírio”. Habituado à pacatez da aldeia, a primeira experiência num lugar mais movimentado assustou-o. “Só tinha visitado Cantanhede duas ou três vezes. Vim com muito medo porque era tudo novo para mim. Da minha aldeia, salvo raras excepções, foi só a partir da minha geração que começaram a vir para aqui estudar”. Sob chuva ou sol, percorria de bicicleta os sete quilómetros que separam Vila Nova de Outil de Cantanhede. O almoço vinha dentro de um cesto amarrado ao meio de transporte. “Era naqueles 45 minutos que fazíamos as traquinices todas”. O medo foi-se desvanecendo e por ali ficou durante cinco anos, altura em que teve de decidir onde queria completar o ensino secundário, na Figueira da Foz ou em Coimbra. “Fui para a Figueira. Outro deslumbramento para um puto da aldeia”. “Apanhava o comboio em Lemede e ia com um primo que me acompanhou nestas andanças. Durante a semana ficávamos em casa de uns senhores ligados ao seminário”. Com 16 anos foi apresentado à “noite”, aos bares e às discotecas, principalmente a partir do mês de Maio, altura em que a cidade balnear se enchia de espanhóis. Tantas solicitações reflectiram-se nos estudos, mas isso não o impediu de ingressar no ensino superior. Escolheu Coimbra para cursar Medicina. “Tinha 17 anos e aquele espírito missionário de quem pensa que é capaz de mudar o mundo”. Chegou à cidade dos estudantes, pouco antes da Revolução dos Cravos, para dar início a um período muito importante da sua vida. “Fui para uma casa que se chamava CADC – Centro Académico de Democracia Cristã, uma instituição ligada à Igreja Católica para estudantes universitários. Ali aprendi muito. Em vez de discutir sobre raparigas e outros assuntos, já se discutiam coisas sérias. Era o tempo da Igreja progressista, dos padres que se atreviam a pôr em causa o regime da altura.” Volvido um ano lectivo, decidiu mudar-se para a república estudantil “Corsários das Ilhas”. “Uma lição de vida”, confessa. Os seus olhos deixam adivinhar o carinho que ainda nutre por aquela casa comunitária onde conviveu vários anos com oito estudantes. “Só o facto de termos de gerir tudo dá-nos uma disciplina, um método e uma organização que tinha de existir dentro daquele caos”. Ao contrário do que alguns possam imaginar, a vida numa república é pautada por regras rígidas, sendo que os elementos, naquele caso “corsários”, têm de obedecer a uma hierarquia. “A pessoa mais velha era o ‘mor’, a quem dávamos o dinheiro em função daquilo que se previa gastar. Todos os meses pagava à volta de 800 escudos para comer e dormir. Depois do ‘mor’ vinham os  ‘corsários’ e por fim os ‘gourmets’, os aspirantes a membros da  ‘tripulação’”. Outros dos poderes do responsável máximo passavam pela escolha da ementa e a capacidade de delegar funções. Um dos cargos, que era rotativo, consistia em gerir a cozinha. “Se bebêssemos muito vinho, comíamos menos bifes. Depois tínhamos de andar a comer atum em lata”. Apesar de na altura não se festejar a Queima das Fitas, devido ao “luto académico” (decretado no âmbito da chamada Crise Académica de 1969), Jorge Martins assegura que os estudantes divertiam-se à mesma.

A nobre profissão

A vida académica passou num ápice e quando deu conta já era médico. Casou-se e, já com dois filhos, embarcou para a ilha da Madeira. Recorda-se das dificuldades por que passou no Caniçal, a aldeia piscatória que o recebeu durante um ano. “Naquela altura o continental não era bem visto”. Mesmo assim, travou várias amizades e não se livrou de alguns episódios caricatos. “Os pescadores levantam-se muito cedo. Como julgavam que eu também tinha aqueles horários, a partir das quatro da manhã a minha porta [do consultório] nunca mais parava”. O cansaço começou a acumular-se e o receio de não conseguir desempenhar bem a sua profissão levou-o a desabafar com o pároco local. O assunto foi tratado numa missa, acabando por ser o padre o responsável pela sensibilização da população. Regressou ao Continente e fez o exame nacional que lhe deu acesso à especialidade de Medicina que mais o seduzia: Cirurgia Geral. Mudou-se para a Covilhã, Distrito de Castelo Branco, onde esteve durante um ano, mas terminou a sua especialização nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). O processo de aprendizagem começa com visitas ao bloco operatório, apenas para observar todos os procedimentos, antecedendo o cargo de segundo ajudante. Quando o aprendiz chega a primeiro ajudante é colocado frente-a-frente com o cirurgião, o responsável por decidir quando é que o colega está pronto para “passar para o outro lado”. “Depois ver ter visto dezenas de cirurgias a hérnias, o doutor que estava comigo disse-me: ‘amanhã és tu’. Uma pessoa quase que não dorme na noite anterior”. Sempre que fala da profissão, o entusiasmo é notório. “Os cirur-giões têm muitas místicas. Vivem muito aquela ideia de que a sua especialidade é a especialidade das especialidades. A decisão de escolher se o paciente vai para o bloco operatório ou vai para casa, dá-nos um poder muito grande”. E porque grandes poderes trazem grandes responsabilidades, a dedicação e concentração são qualidades obrigatórias. “Antigamente, todos os blocos operatórios tinham um espelho, que não servia propriamente para nos pentearmos ou vermos se estávamos bonitos. A simbologia do espelho é o cirurgião olhar para ele próprio e pensar: ‘a pessoa que está lá dentro depende de ti’”. Terminada a especialidade, voltou para a Covilhã, tornando-se pouco tempo depois director da unidade hospital local. Esteve intimamente ligado ao projecto de construção das actuais instalações, algo que o enche de orgulho. Deixou as funções de director para desempenhar, naquela cidade da Beira Baixa, a sua área de formação por mais dez anos. Com abertura do curso de Medicina na Universidade da Beira Interior, foi assistente na cadeira de Patologia Cirúrgica.

O regresso a casa

O convite para dirigir o Hospital Arcebispo João Crisóstomo, em Cantanhede, surgiu há cinco anos. “A terra onde nascemos mete-se debaixo da nossa pele e teima em não sair de lá. Eu sabia que ia acabar a minha vida em Cantanhede. É aqui que estão a minha família e amigos. Só não sabia se viria em trabalho ou como reformado”. Os três anos enquanto director hospitalar foram caracterizados por algumas batalhas. Jorge Martins tinha finalmente conseguido assentar arraiais no concelho que o viu nascer, algo que o fez lutar com toda a sua força. “Quando cá cheguei, o Hospital de Cantanhede estava numa situação de fecho iminente”. As obras de requalificação que decorriam na unidade hospitalar chegaram a estar ameaçadas. “Figuras de topo da hierarquia da Saúde pediram-me para saber quanto é que o construtor queria para parar as obras”. O director recusou e bateu-se pelos seus ideais. Olha agora para trás e tem a certeza que ganhou a “guerra”. “A solução arranjada para transformar aquele hospital pertencendo a uma rede de cuidados continuados de média e longa duração é um dos meus maiores orgulhos”. E o bloco operatório também não foi esquecido. “Não fazia sentido ter apenas uma cirurgia grande por ano. O cirurgião só faz bem se praticar muito, não tenham dúvidas”. Desde então, passou a existir uma unidade de cirurgia do ambulatório e o número de operações realizadas por dia aumentou significativamente.

Uma nova perspectiva

Há três anos diagnosticaram um enfizema pulmonar a Jorge Martins. A capacidade respiratória foi a primeira a ser afectada, acabando por ser sujeito a uma operação cirúrgica a um pulmão. A situação continuou a agravar-se e a sua qualidade de vida diminuiu drasticamente. As pequenas tarefas do dia-a-dia tornaram-se autênticos desafios. Estava prestes a ter de tomar a decisão mais difícil da sua vida. “Foi-me colocada a hipótese de fazer um transplante pulmonar”. Embarcou para a Corunha, em Espanha, onde esteve durante dez meses em tratamentos numa clínica. “Tenho um pulmão novo que me está a dar uma vida perfeitamente normal. Das histórias todas da minha vida esta é a mais marcante. Tudo o resto, comparado com isto, é quase nada”. O “segundo nascimento”, como gosta de se referir ao sucesso da intervenção, levou-o a olhar para o mundo que o rodeia de forma diferente. E até com mais humor. “Comecei a relativizar tudo. Ganhei uma nova tolerância e sensibilidade para as coisas, até para o sobrenatural”. “Mantenho boas relações com muitas pessoas da Corunha, até porque agora tenho um pulmão espanhol”, brinca.

Em 2009 pediu a reforma por incapacidade. Pôs de lado o bisturi, a máscara de protecção e as luvas para intensificar a sua actividade cívica. “Não me estava a ver sentado num banco do jardim a jogar dominó”. Dá, semanalmente, consultas gratuitas nos Bombeiros Voluntários de Cantanhede, instituição de que é vice-presidente do Conselho Fiscal, e participa, activamente, na vida política do seu concelho. “Faço parte da lista de deputados do PS para a Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Coimbra”: O próximo objectivo é a criação de uma série de cursos sobre socorrismo básico, em parceria com o amigo, médico e escritor Fernando Santos, de Febres.

Tragédia na discoteca Zodíaco

“Em 30 anos de cirurgião, o que mais me marcou foi uma situação passada em Febres”. Jorge Martins refere-se ao rebentamento de uma granada na discoteca Zodíaco, que provocou três mortos e perto de uma centena de feridos. O médico estava de serviço nos HUC naquela fatídica noite de Carnaval, tendo operado algumas das vítimas. “Na altura não havia tanta organização. Como não houve uma triagem, os acidentados que chegaram primeiro ao hospital eram os menos graves. Os grandes traumatizados entraram quando aquilo já estava um caos”. Uma das vítimas tinha apenas 13 anos. “Tive de lhe fazer uma colonoscopia porque o traumatismo rebentou-lhe com o intestino. Mais tarde foi novamente operado e ficou bem”. As imagens chocantes nunca lhe saíram da memória, principalmente porque se tratava de jovens. “Uma das amputadas era minha conhecida”. Jorge Martins, com poucos anos de experiência, conheceu da pior forma o lado mais difícil da profissão. “Lembro-me sempre deste episódio por ser aqui da terra e pela sua dimensão”. | LM