Os 585 hectares da Reserva Natural do Paul de Arzila dão abrigo a uma imensidão de espécies animais e de vegetação. Aquele que outrora foi um local de grande actividade económica é hoje um espaço aprazível que convida à visita de especialistas e curiosos.

A Reserva Natural do Paul de Arzila (RNPA) situa-se numa parte do vale percorrido pela ribeira de Cernache, um afluente da margem esquerda do rio Mondego. Está inserida nas freguesias de Arzila, Pereira e Anobra, localidades que pertencem aos Concelhos de Coimbra, Montemor-o-Velho e Condeixa-a-Nova, respectivamente, ficando a uma distância de cerca de dez quilómetros da cidade de Coimbra e a cerca de 12 quilómetros de Condeixa-a-Nova e de Montemor-o-Velho.

Mas, afinal, o que é um paul? Ninguém melhor do que Luís Leitão, técnico superior da RNPA desde 2007, para nos explicar: “É um local alagado, diferente de um lago, por ter toda uma biodiversidade agregada, quer de plantas, quer de animais. Um lago pelos níveis de água que tem só permite ter vegetação nas bordaduras. Um paul é uma zona alagada temporariamente, em que durante partes do ano pode ficar seca. Isso permite estar em consonância com uma actividade aquática e uma actividade exercida por plantas, algumas delas anuais e que aproveitam a sazonalidade em que as águas baixam para poderem completar o seu ciclo de vida, desaparecendo e voltando no ano seguinte. Um paul acaba por ser uma comunidade de espécies animais e vegetais que têm em comum a água”. 

Com uma extensão de 585 hectares, a RNPA foi criada a 27 de Junho de 1988 e reclassificada como Reserva Natural em 1997, tendo o seu plano de ordenamento sido aprovado em 2004. É maioritariamente constituída por terrenos de propriedade privada, sendo 65 hectares património do Estado, mais concretamente do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB). “A Reserva Natural foi criada para proteger este género de habitat. O mais certo que poderia ter acontecido se a reserva não fosse criada era ter sido tudo drenado e os terrenos serem transformados em campos de arroz”. Na área protegida trabalham três vigilantes, um técnico superior e uma recepcionista. E, mais recentemente, duas estagiárias. “São alunas da Escola Profissional Beira Aguieira, de Mortágua. Temos dado muita colaboração a essa escola e já saíram de lá excelentes profissionais, um dos quais é técnico superior no nosso serviço”. 

O maior paul do Baixo Mondego

A RNPA caracteriza-se, geomor-fologicamente, pela existência de um relevo de baixa altitude, constituído por pequenas colinas e um vale largo. O vale aberto é assimétrico e o comprimento total da reserva natural é de aproximadamente 3,5 quilómetros, sendo que a zona apaludada se estende por 3 quilómetros. Em termos biológicos, a área é constituída por três unidades ecológicas: áreas com ocupação agrícola, florestas e meios semi-naturais, e zonas húmidas. As zonas húmidas são dominantes, ocupando cerca de 145 hectares e abrangendo três tipos: zona de pauis de água doce, permanentes ou lago; zonas dominadas por vegetação aquática; e zonas com dominância de vegetação arbustiva. O caniçal e o bunhal são considerados um dos locais mais ricos e diversificados, com grande importância em termos de aves, tanto para nidificação como para abrigo e alimentação. Além do caniço e do bunho, também podem ser encontradas outras espécies. “Este ecossistema é um dos muitos pauis que existiam de Norte a Sul de Portugal, principalmente em vales como este, que faz parte da planície aluvial do rio Mondego. Depois temos outros vales onde estão localizados os pauis da Madriz e do Taipal. Eram locais próprios para a instalação destes ecossistemas paludícolas. Desses ecossistemas que existiam no Baixo Mondego, e que eram bastantes, restam estes três, dos quais o maior é o de Arzila”. 

Flora e fauna

A riqueza florística da RNPA deve-se à sua situação geográfica e características climáticas e do solo, onde coabitam espécies representativas da Região Mediterrânica e da Região Eurossiberiana. Daí, em parte, a sua riqueza em espécies xerófilas (habituadas a viver em climas secos) e espécies higrófilas (habituadas a viver em climas com muita humidade).

“Todo o bunhal e caniçal permitem dar abrigo a uma infinidade de espécies, principalmente passeriformes, quer em termos de alimentação, quer em termos de refúgio”. No que à fauna diz respeito, estão referenciadas 207 espécies de invertebrados e 181 de vertebrados. Foram evidenciadas 126 espécies de aves, com destaque para a águia-pesqueira, o goraz, a garça-vermelha, a águia-sapeira, a cigarrinha-ruiva, a águia-cobreira, o garçote, o milhafre-preto e a narceja. De mamíferos foram registadas cerca de 20 espécies, como, por exemplo, a lontra, o gato-bravo, o musaranho-de-dentes-vermelhos  e o  rato-das-hortas. “São os animais de maior porte que acabam por ser aqueles que se destacam mais e surpreendem os visitantes.”

A agitação de antigamente

Durante grande parte do século XX, a agricultura era a principal actividade económica da população de Arzila e o paul assumia-se como a sua principal fonte de rendimento. Naquele espaço eram cultivados terrenos, praticava-se a caça, a pesca e a apanha do bunho e do junco, com os quais eram manufacturadas as esteiras. O sal, as especiarias e peças de pano eram transportados em barcos e barcaças pelas valas do paul que entravam no rio Mondego e seguiam para Montemor-o-Velho. Os comerciantes trocavam as esteiras por produtos hortícolas. “Continua a existir actividade agrícola dentro da reserva natural. No núcleo central, a zona mais baixa, alagada e entre valas, não há actividade agrícola. A actividade que existe dentro da reserva encontra-se em zonas menos sensíveis e não tem nada a ver com o ICNB”. 

Tempos modernos

A manufactura das esteiras é, nos dias de hoje, uma actividade realizada apenas por meia dúzia de mulheres mais velhas, uma vez que os rendimentos obtidos em outros ofícios levaram ao abandono desta arte. Os mais novos rumaram em direcção às cidades à procura de outros empregos e a agricultura é hoje uma actividade praticada apenas por uma fatia da população idosa de Arzila. Esta realidade levou à diminuição da área agrícola e ao aumento da área florestal. “Enquanto outros pauis se criaram por deixar de haver actividade humana, o Paul de Arzila foi fortemente humanizado durante o último século. A actividade principal das pessoas daqui era a apanha do bunho. A extensão de bunho era muito maior do que a que existe hoje e está a ser ameaçada com a falta do corte. Se o bunho for cortado todos os anos há uma renovação e isso impede o alastramento de outras espécies, nomeadamente o caniço que é a que mais ameaça o bunho”. Com a tendência de desaparecimento da intervenção humana, a área de caniçal começou a aumentar significativamente. “Neste momento, três quartos da área alagada são caniço e não bunho”. Para Luís Leitão, era a população de Arzila que garantia o equilíbrio e o próprio futuro daquele ecossistema. “A falta do Homem vai levar à extinção do paul, que é a evolução natural. O caniçal que não é cortado de ano para ano vai caindo, envelhecendo e fazendo um manto muito grande. Dentro de anos vai impedir que a água lá chegue. O caniço, em contacto com o solo sem água, vai provocando a drenagem deste espaço. O paul vai desaparecer para dar lugar a outro ecossistema completamente diferente. O que nós fazemos é atrasar essa evolução”. Essa tarefa hercúlea foi, aliás, uma das motivações que levou à criação da RNPA. Mas são necessárias muitas intervenções ao nível da gestão das espécies florísticas. “Tirando o bunho, as outras espécies, como o caniço e o salgueiro, acabam por assumir características invasivas”.

O “quartel-general” da RNPA

Em 1996,o ICNB inaugurou o edifício onde funciona o Centro de Interpretação da RNPA. “Havia a necessidade de dispor aqui de um espaço físico que permitisse apoiar as actividades que se realizam no Paul”. É nesse edifício que estão patentes algumas exposições, como uma de artesanato e das artes da pesca antiga que se praticavam naquela zona. Os visitantes podem, também, encontrar lá muita informação alusiva à fauna e flora da área protegida. “Acaba por ser mais um espaço expositivo do que propriamente um centro de interpretação, mas estamos a caminhar nesse sentido”. Segundo Luís Leitão, nos últimos tempos tem-se registado uma quebra no número de visitantes, principalmente pelo facto de a área protegida ser, maioritariamente, visitada pela população escolar “que cada vez tem menos apoios para deslocações”. “Nós tivemos uma altura que apresentávamos as exposições itinerantes do ICNB e estavam cá um mês, mês e meio. Já tivemos várias exposições de fotografia. Fizemos aqui, o ano passado, as conferências do Dia Mundial das Zonas Húmidas. Já gerámos aqui alguma dinâmica. Não temos é o tal retorno das pessoas em termos de visitação”. 

Actividades no Paul de Arzila

No próximo dia 4 de Junho decorre, das 09h30 às 18h00, o workshop “Os mamíferos terrestres que se escondem no Paul”. A actividade, dirigida a pessoas com idade igual ou superior a 12 anos, pretende retratar a importância daqueles animais nos ecossistemas, bem como as várias técnicas usadas para o seu estudo. “Mamíferos terrestres portugueses” e “Os mamíferos do Paul de Arzila” são os temas das sessões teóricas incluídas no workshop a cargo de Luís Silva e Paulo Tenreiro. A realização da actividade está sujeita a um número mínimo e máximo de participantes, 20 e 30 respectivamente, sendo que a inscrição custa 7,5 euros.

No dia seguinte, 5 de Junho, é perguntado aos visitantes “O que faz um anilhador?”. Durante as sessões de captura e anilhagem científica das aves, está programada uma breve apresentação da actividade e das espécies habitualmente capturadas para esse efeito. Segue-se uma demonstração de todo o processo de anilhagem, promovida pelo anilhador Paulo Tenreiro. A iniciativa realiza-se das 08h00 às 12h00, destinando-se aos mais novos que, por sua vez, deverão ser acompanhados por pais ou encarregados de educação. A inscrição custa 2,5 euros e são necessários no mínimo cinco e no máximo dez participantes.

“As borboletas no Paul: de dia e de noite” é o nome do worskshop agendado para 11 de Junho. O objectivo é dar a conhecer as espécies associadas a ambientes palustres, aspectos da sua morfologia e comportamento, bem como a sensibilização para a importância das populações de borboletas. Paulo Tenreiro e Pedro Pires falarão, também, sobre “Biologia e ecologia das borboletas” e “A comunidade de lepidópteros do Paul de Arzila”. A actividade acontece das 11h00 às 24h00, é dirigida a pessoas com mais de 12 anos e custa 7,5 euros. É necessário um número mínimo de 20 e máximo de 30 inscrições.

A 12 de Junho, é dia de “Conhecer o Paul de Arzila”. A visita começa no Centro de Interpretação do RNPA, onde os participantes poderão apreciar a exposição permanente. Segue-se um passeio de 1,5 quilómetros pela área protegida, com passagem pelos observatórios de aves e pela torre de vigia. A actividade arranca às 10h30 e termina às 12h30, sendo necessário um mínimo de dez e máximo de 30 inscrições. A participação custa 2,5 euros.

No dia 25 de Junho, Carlos Barata, Fernando Sabino e Paulo Tenreiro promovem um workshop subordinado ao tema “À procura das aves”. Entre as 09h00 e as 12h00, os monitores pretendem dar apoio aos iniciantes na observação de aves, nomeada-mente nas questões da metodologia utilizada, materiais e normas de comportamento a adoptar. Está também agendada uma sessão teórica sobre “A comunidade de aves do paul de Arzila”. O preço de inscrição são 2,5 euros.

É aconselhável que em todas as actividades os participantes levem água, roupa adequada às condições atmosféricas e botas de campo. Repelente de insectos, binóculos, máquina fotográfica e equipamento impermeável são outros artigos úteis para aproveitar os passeios ao máximo. Para obterem informação mais detalhada os interessados podem contactar a RNPA através do número 239 980 500 ou do endereço de correio electrónico rnpa@icnb.pt. | LM