Varela Pècurto, fotógrafo alentejano há mais de 60 anos radicado em Coimbra, está a preparar um livro que pretende documentar ,através de imagens, o concelho de Cantanhede. Depois de Penacova e Lousã, é a vez de o maior concelho do distrito de Coimbra ser “pintado” através do seu olhar experiente. 

Tem 86 anos mas nem por isso pondera dar descanso à máquina fotográfica: “Sempre fui um espírito e um corpo irrequietos. Desde que deixei de trabalhar para os outros, tenho preenchido as minhas horas com coisas que se têm traduzido nalgumas publicações. Aliás, não sou capaz de compreender como é que há pessoas tão apáticas, que se reformam e nada fazem”, confidenciou Varela Pècurto ao AuriNegra. Nascido em Ervedal, concelho de Avis, há 60 anos que trocou as searas e planícies alentejanas pela cidade do Mondego e do Choupal. “Trazia umas ideias um tanto ou quanto adiantadas para a forma como se vivia a fotografia em Coimbra. Fui para a direcção do grupo ‘Câmara’, que levou o nome de Coimbra a muitos paí-ses do mundo. Tivemos uma actividade notável”.

Apaixonado confesso do trabalho que fez para a televisão, enquanto repórter de imagem da delegação do Centro da RTP, aproveitou essas viagens “por montes e vales” para reforçar o seu arquivo fotográfico: “Onde quer que fosse acabava por fazer algumas fotografias. Comecei a ter um arquivo muito grande e daí a pensar nos livros foi um passo”. Assume estar a preparar o último desses livros, por isso tem doado muito do seu arquivo a diversas Autarquias do distrito de Coimbra. “Só de Coimbra fiz cerca de 8 mil fotografias, das quais seleccionei 3.500 com o sonho de fazer um livro de Coimbra como ninguém fez, e possivelmente ninguém fará”.

A planície alentejana aqui tão perto

Fotografias de detalhe, em que o olhar atento e curioso de Varela Pècurto não se deixava iludir pelo óbvio, procurando sempre uma nova abordagem, um pormenor inexplorado: “Sempre procurei retratar aquilo que as pessoas menos conhecem. Fiquei a conhecer Coimbra como muitos conimbricenses não a conhecem”. Importante era “separar bem as águas, separar aquilo que era documental, do que era artístico. Há algumas regras que se devem seguir”. Por isso, apelida muitos dos fotógrafos de hoje de “libertinos”, tal é o seu desapego e indiferença (ou desconhecimento) para com esses mandamentos da arte fotográfica.

Milhares de disparos depois na sua máquina analógica – “Não me vou render ao digital!” – , o espólio de Varela Pècurto é considerável. “Tinha no meu arquivo fotos que davam para fazer vários livros. Da Mealhada, de Montemor-o-Velho, de Miranda do Corvo e de Cantanhede. Um ainda podia fazer, por isso acabei por pender para Cantanhede”. Por algum motivo em especial? “Porque é uma terra muito simpática, airosa, desafogada e progressiva, e tem umas semelhanças vagas com as planuras do meu Alentejo. O horizonte é o limite”. Começou então a ir a Cantanhede em escapadelas, para actualizar o seu arquivo, tendo convidado fotógrafos locais para colaborar na obra, um roteiro fotográfico em que nenhuma freguesia foi esquecida. “Estou preso por uma fotografia nocturna que me falta fazer em Ançã”, desabafa. “Tenho cerca de mil fotografias para o Concelho”. A obra será como que uma antologia fotográfica do concelho de Cantanhede, um testemunho do seu património, das suas tradições e da sua gente. Neste momento o projecto encontra-se a aguardar “luz verde” da Autarquia: “É uma pena se esta obra ficar encravada. Estou a tentar por todos os meios lícitos que esta colecção seja transformada numa obra”. 

Quem é Varela Pècurto?

Eduardo Francisco Varela Pècurto nasceu a 27 de Abril de 1925 na localidade de Ervedal, concelho de Avis, no Alto Alentejo. Artista fotógrafo de grande projecção internacional, Varela Pècurto apaixonou-se cedo pelo mundo da fotografia, carreira que abraçou e a que se dedicou com brilhantismo. Em 1949 concorre, pela primeira vez, a salões internacionais de arte fotográfica, estreando-se nesse mesmo ano em Lisboa e Innsbruck, coração dos Alpes austríacos. Expôs em mostras um pouco por todo o mundo, da Dinamarca a Espanha, passando pelo Chile, Cuba, Austrália, Marrocos, África do Sul e antiga União Soviética.

Em 1950 fixa-se em Coimbra, onde viria a dirigir a secção fotográfica da já desaparecida Livraria Atlântida, passando depois para a firma Hilda, da qual foi sócio-gerente e orientador da secção fotográfica. O seu contributo para o desenvolvimento da fotografia nacional é inegável, tendo integrado o Grupo de Amadores de Fotografia e Cinema “Câmara” e sido distinguido pela Fédération International de L’Art Photographique, com sede na Suíça, que lhe atribuiu o grau de Excellence, em homenagem aos seus trabalhos e à sua técnica no domínio da arte fotográfica.

Foi operador de câmara correspondente da RTP na Região Centro e colaborou durante largos anos com a imprensa de distribuição nacional, tanto do Porto, como de Lisboa. Hoje, é nome incontornável no panorama das artes fotográficas em Portugal. | FC