O Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais, na Tocha, acolheu, no passado dia 29 de Abril, uma acção nacional de formação de Andebol em Cadeira de Rodas. “Andebol 4 All” é o nome do projecto que pretende dar a todos, sem excepção, a oportunidade de praticar desporto.“O Andebol é para todos. Em campo somos todos iguais, a magia pode vir de qualquer um”. As palavras, projectadas na parede do pavilhão de desportos do Rovisco Pais, na Tocha, transmitem uma mensagem simples, mas muito importante e que importa interiorizar. A prática desportiva pode e deve ser uma oportunidade para promover a inclusão e esbater as diferenças. O Andebol em Cadeira de Rodas é apenas uma das diversas modalidades disponíveis para pessoas com limitação ou deficiência físicas e psíquicas. Basquetebol em cadeira de rodas, equitação adaptada, remo adaptado, atletismo, ciclismo, golfe, boccia, todos permitem integrar pessoas que, por algum motivo, têm mobilidade reduzida.

Por isso, a Federação de Andebol de Portugal (FAP), em parceria com o Comité Paralímpico de Portugal, a Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência, a Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular e a ANDDEMOT (Associação Nacional de Desporto para Deficientes Motores), decidiu apostar na promoção e divulgação do Andebol em Cadeira de Rodas (ACR) em Portugal, no âmbito do projecto “Andebol 4 All”. “Esta é uma nova oportunidade desportiva para todos, uma nova vertente do andebol que irá permitir estar saudavelmente no desporto”, considerou Joaquim Escada, representante da FAP, acrescentando a “extrema importância de que este projecto seja divulgado pelos órgãos de comunicação social”.

A Lei de Bases do Desporto de 2007 estabelece que cada Federação deve promover a prática do desporto para todos, e é para ir ao encontro dessa lei que foi criado o projecto “Andebol 4 All”, que prevê quatro vertentes, duas delas já “em campo”: andebol nos estabelecimentos prisionais e em cadeira de rodas (já em marcha), e andebol para portadores de deficiência intelectual e para portadores de deficiência auditiva (ainda não avançaram). As acções de formação arrancaram em Janeiro de 2010 e Joa-quim Escada compromete-se a levar a modalidade a todo o País: “Estaremos em todos os locais para onde nos chamarem. A partir de agora, o andebol é para todos, queremos que seja uma modalidade conhecida e amada por todos”.

Inclusão inversa

Carlos Morgado, da ANDDEMOT, aproveitou a ocasião para apresentar o “Rodinhas”, a mascote da Associação, relembrando a missão de “desenvolvimento da prática desportiva na sua vertente recreativa, de lazer e de sociabilização” que a ANDDEMOT abraçou aquando da sua constituição. “O desporto é a melhor forma de integração”, considerou o técnico, opinião partilhada por todos os presentes e corroborada alguns minutos mais tarde, em campo, durante a sessão prática de Andebol em Cadeira de Rodas. Além de esbater diferenças e contrariar a segregação a que muitas vezes as pessoas portadoras de deficiência são votadas, o desporto faz parte do processo de reabilitação, sendo muito utilizado pelo seu potencial terapêutico.

Depois de explicadas as regras e conhecidas as especificidades do Andebol em Cadeira de Rodas, foi tempo de pôr em prática os ensinamentos colhidos. Alguns utentes do Centro de Medicina de Reabilitação estavam prontos para testar a nova modalidade, sempre sob o olhar atento de técnicos, monitores e clínicos. E para que a inclusão fosse completa, também foram convidadas a participar pessoas sem mobilidade reduzida. A técnica, denominada inclusão inversa e introduzida no desporto adaptado na década de oitenta do século XX, permite que qualquer um possa “vestir a pele” da pessoa com mobilidade reduzida, e sentir, ainda que temporariamente, algumas das limitações inerentes a essa condição.

Uma experiência valiosa e enriquecedora, também proporcionada à jornalista do AuriNegra, e que permitiu ver com outros olhos e, de certa forma, compreender melhor a realidade de quem vive preso a uma cadeira de rodas, lidando com e vencendo diariamente obstáculos e desafios. De pés presos, literalmente, e sem sabermos bem o que fazer com as mãos (a bola não pode ser depositada no colo) tantas eram as solicitações (empurrar a cadeira, receber a bola, progredir com a bola na mão, passar a bola, enfim), demos o nosso melhor e saímos do Rovisco Pais com um renovado respeito por todos aqueles que vivem permanentemente a realidade que nós apenas experimentámos por alguns momentos.

A partida de Andebol em Cadeira de Rodas foi uma importante lição, com muitos golos pelo meio, e a promessa de que esta modalidade se poderá tornar um caso sério de sucesso a nível nacional. | FC