Depois de Jéssica Augusto, Dulce Félix e Filomena Costa terem testado (e aprovado) o tartan da pista de atletismo do Parque Desportivo de Febres, foi a vez de Sara Moreira, campeã nacional e vice-campeã europeia de 3.000 metros, marcar presença naquela infra-estrutura desportiva. A preparação para o Campeonato do Mundo de Atletismo e para os Jogos Olímpicos passa por Febres.

A manhã de 21 de Abril, chuvosa, convidava a actividades dentro de portas, mas uma atleta de alta competição não pode deixar que S. Pedro determine os dias e horas de treino. Sara Moreira, 25 anos, natural de Roriz, Santo Tirso, faz do atletismo a sua vida e é, indiscutivelmente, uma das grandes promessas nacionais da modalidade. Promessa e certeza, já que os resultados vão falando por si: conquistou a “prata” na prova de 3.000 metros nos Europeus de Pista Coberta de 2009, em Turim, Itália, e já em 2007, na Hungria, havia conquistado o “bronze” nos 3.000 metros obstáculos, no Campeonato da Europa de Sub-23.

O atletismo entrou na sua vida cedo e quase que por acaso: “Andava na escola primária, teria uns oito ou nove anos, frequentava a 4.ª classe. Fui fazer um corta-mato escolar, que ganhei, e fui convidada para ir para o clube da minha terra, o Roriz. A partir daí, nunca mais parei”. Começou ainda sem referências na modalidade, mas cedo as procurou, assistindo na televisão a todas as provas dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996. O atletismo ia ganhando o seu espaço na vida da jovem Sara: “No início não posso dizer que o atletismo significava alguma coisa… mas foi crescendo, e neste momento posso dizer que é a minha vida, que é tudo, que é aquilo que eu sei fazer. Não me consigo ver a fazer nada que não o atletismo. É tudo o que eu tenho”.

O momento da decisão veio pouco depois de ter entrado na Universidade, em 2006, no curso de Fisioterapia, acontecimento que coincidiu com a sua passagem a sénior no atletismo. “Lembro-me perfeitamente de, no ano de 2007, ter decidido que o curso ia ficar em pausa e que eu ia fazer do atletismo a minha vida, é isto que eu gosto, é isto que eu quero. Coincidiu com o aparecimento dos resultados e comecei a acreditar que podia chegar longe”. Com apenas 25 anos tem já um palmarés bem extenso, repleto de primeiros lugares, mas faz questão de destacar a medalha de bronze que conquistou em 2007, ainda enquanto sub-23, no Campeonato da Europa de Debrecen, Hungria, momento em que passou a “acreditar que podia ser uma atleta de cam-peonato”.

Erro de secretaria

A medalha de prata nos Europeus de Turim, em 2009, foi outro momento inesquecível, aquele que catapultou o nome de Sara Moreira para a ribalta do atletismo nacional e internacional: “Foi o meu primeiro cam-peonato de pista coberta, respeitava muito as minhas adversárias, como sempre respeito, e não esperava aquele resultado. Quando terminei, não sei explicar o que senti, o que me passou pela cabeça. Tudo o que uma pessoa possa dizer é muito vago, não consegue transmitir o que nós sentimos, mas diria que muita felicidade e a sensação de dever cumprido. Parece que tudo acaba ali”.

Optimista confessa, não costuma ter a derrota no pensamento. Ainda assim, assume que quando perde fica com força redobrada para trabalhar, para querer e lutar por mais. “Costumo dar muito bem a volta por cima nos momentos menos bons, acho que são importantes para uma pessoa crescer”. Exemplo disso foi o equívoco recente, que a impediu de competir nos 3.000 metros nos Europeus de Paris, prova em que iria defender a medalha de prata conquistada em 2009. Acabou inscrita nos 1.500 metros, por erro da Federação Portuguesa de Atletismo no momento de inscrição, erro que levou o então presidente Fernando Mota a pedir a demissão.

“Prepararmo-nos tanto tempo para uma prova, neste caso eu até ia defender a medalha de prata, e alguns dias antes, com tudo preparado, receberes a notícia… as pessoas não têm noção. Os 3.000 metros não têm nada que ver com os 1.500. Nem nunca tinha corrido os 1.500 num grande campeonato, caí ali de pára-quedas”. Apesar das adversidades, Sara Moreira foi um exemplo de coragem e determinação, de desportivismo e entrega, ao competir numa distância que não era a sua, dar tudo por tudo, e carimbar a passagem à final, batendo o seu recorde pessoal pelo caminho. “É muito frustrante, quando me comunicaram o sucedido eu chorei ‘baba e ranho’. São erros humanos, não culpo nem culpei ninguém, mas era um objectivo meu, de carreira. Acredito que poderia ter sido campeã da Europa”.

Pista de Febres elogiada

A frustração e a mágoa poderão permanecer durante mais algum tempo mas não toldam os objectivos de Sara, neste momento a trabalhar para o Campeonato do Mundo ao ar livre, que será disputado na Coreia do Sul entre 27 de Agosto e 4 de Setembro, onde irá competir nos 3.000 metros obstáculos, e para os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, competição em que pretende chegar a uma final. No âmbito dessa preparação, a atleta de meio-fundo estagiou em Mira, tendo utilizado a pista de atletismo do Parque Desportivo de Febres, infra-estrutura que, apesar de ter vindo a acolher atletas de elite, ainda se encontra por concluir.

“Quando cheguei cá fiquei muito contente, é uma pista que tem muito boas condições, apesar de ainda não estar completamente pronta. É das melhores pistas que eu já vi em termos de área, é muito grande, dá para vários atletas de várias especialidades treinarem em simultâneo. Tem algum vento, mas isso em Portugal é normal, as pistas são altamente ventosas. Acho que é uma pista que poderá vir a acolher grandes campeonatos, onde possam vir a fazer-se grandes campeões também”. Elogios à pista de Febres e ao seu tartan, endereçados por quem dedica a sua vida ao atletismo. Resta esperar pela conclusão da infra-estrutura e, depois, que venham os campeonatos.  | FC

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